Antiguidades Judaicas - Livro XX 9
Livro XX: os procuradores, Adiabene e a véspera da guerra
Sobre Albino, sob cujo cargo de procurador Tiago foi morto. E também sobre as construções que Agripa ergueu.
Ao saber da morte de Festo, César enviou Albino à Judeia como procurador. O rei, então, tirou o sumo sacerdócio de José e entregou essa dignidade ao filho de Anano, que também se chamava Anano. Conta-se que esse Anano mais velho foi um homem afortunadíssimo, pois teve cinco filhos que exerceram o ofício de sumo sacerdote de Deus, e ele próprio já havia desfrutado dessa dignidade por longo tempo, o que nunca aconteceu com nenhum outro dos nossos sumos sacerdotes. Mas esse Anano mais novo, que, como já lhe contamos, assumiu o sumo sacerdócio, era homem de temperamento ousado e muito insolente. Pertencia também à seita dos saduceus, que são rigorosíssimos ao julgar transgressores, mais do que todos os outros judeus, como já observamos. Sendo Anano dessa disposição, julgou ter agora uma boa oportunidade [de exercer sua autoridade]. Festo estava morto, e Albino ainda se encontrava no caminho. Por isso reuniu o sinédrio de juízes e trouxe diante deles o irmão de Jesus, que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago, e alguns outros [ou, alguns dos companheiros dele]. E, depois de formar uma acusação contra eles como transgressores da lei, entregou-os para serem apedrejados. Mas os cidadãos que pareciam mais equânimes, e os que mais se incomodavam com a violação das leis, desaprovaram o que foi feito. Esses também mandaram dizer ao rei [Agripa] que enviasse a Anano uma ordem para que não agisse mais assim, pois o que ele já havia feito não podia ser justificado. Alguns deles foram inclusive ao encontro de Albino, enquanto ele estava em sua viagem desde Alexandria, e o informaram de que não era lícito a Anano reunir um sinédrio sem o consentimento dele. Albino concordou com o que disseram e escreveu com ira a Anano, ameaçando puni-lo pelo que tinha feito. Por causa disso, o rei Agripa tirou-lhe o sumo sacerdócio, depois que ele governou por apenas três meses, e fez sumo sacerdote a Jesus, filho de Damneu.
Assim que Albino chegou à cidade de Jerusalém, empenhou todos os seus esforços e cuidados para manter o país em paz, e isso destruindo muitos dos sicários. Já o sumo sacerdote Ananias crescia em prestígio a cada dia, e em alto grau, e obtinha o favor e a estima dos cidadãos de modo notável, pois era grande acumulador de dinheiro. Por isso cultivava a amizade de Albino e do sumo sacerdote [Jesus], dando-lhes presentes. Tinha também servos muito perversos, que se juntavam à gente mais ousada do povo, iam às eiras e tomavam à força os dízimos que pertenciam aos sacerdotes, e não se abstinham de espancar os que não lhes davam esses dízimos. Os outros sumos sacerdotes agiam da mesma forma, assim como esses servos dele, sem que ninguém pudesse impedi-los. De modo que [alguns dos] sacerdotes, que antigamente costumavam ser sustentados por esses dízimos, morreram por falta de alimento.
Mas os sicários entraram na cidade à noite, justamente antes da festa que estava próxima, e capturaram o escriba do comandante do templo, cujo nome era Eleazar, filho de Anano [Ananias], o sumo sacerdote. Amarraram-no e o levaram consigo. Depois disso, mandaram dizer a Ananias que devolveriam o escriba se ele convencesse Albino a libertar dez dos prisioneiros do grupo deles que tinha capturado. Ananias viu-se claramente forçado a persuadir Albino e conseguiu o que pedia. Esse foi o começo de calamidades maiores, pois os ladrões tramavam continuamente capturar alguns dos servos de Ananias, e, quando os tomavam vivos, não os soltavam até reaverem assim alguns dos seus próprios sicários. E, como de novo se tornaram um grupo nada pequeno, ficaram ousados e se tornaram grande aflição para todo o país.
Por essa época, o rei Agripa reconstruiu Cesareia de Filipe maior do que era antes e, em honra a Nero, deu-lhe o nome de Neronias. E, depois de construir um teatro em Berito com gastos enormes, ofereceu aos habitantes espetáculos para serem exibidos todos os anos, e gastou nisso muitas dezenas de milhares de [dracmas]. Deu também ao povo uma distribuição de trigo, repartiu azeite entre eles, e adornou a cidade inteira com estátuas que ele mesmo doou e com imagens originais feitas por mãos antigas. Chegou quase a transferir para lá tudo o que havia de mais ornamental em seu próprio reino. Isso o tornou mais odiado do que o comum por seus súditos, porque tirava deles o que lhes pertencia para adornar uma cidade estrangeira. E então Jesus, filho de Gamaliel, tornou-se sucessor de Jesus, filho de Damneu, no sumo sacerdócio, que o rei tinha tirado do outro. Por causa disso surgiu uma disputa entre os sumos sacerdotes, uns contra os outros, pois reuniram grupos da gente mais ousada do povo e passavam com frequência das ofensas ao apedrejamento mútuo. Mas Ananias levava vantagem sobre os demais por suas riquezas, que lhe permitiam conquistar os mais dispostos a aceitar. Costobaro e Saulo também juntaram para si uma multidão de homens perversos, e isso porque eram da família real, e assim obtinham favor entre eles por causa do parentesco com Agripa. Mesmo assim, usavam de violência com o povo e estavam muito prontos a saquear os mais fracos do que eles. E foi principalmente a partir desse momento que nossa cidade caiu em grande desordem, e que tudo foi ficando cada vez pior entre nós.
Mas quando Albino soube que Géssio Floro vinha sucedê-lo, quis dar a impressão de fazer algo agradável ao povo de Jerusalém. Então mandou trazer todos aqueles prisioneiros que lhe pareciam mais claramente merecedores de morte e ordenou que fossem executados. Já aos que tinham sido postos na prisão por motivos triviais, deles recebia dinheiro e os soltava. Por esse meio as prisões de fato se esvaziaram, mas o país se encheu de ladrões.
Por essa época, vários levitas, que são uma tribo nossa, que eram cantores de hinos, persuadiram o rei a reunir um sinédrio e a lhes dar permissão de usar vestes de linho, como os sacerdotes, pois diziam que isso seria uma obra digna dos tempos de seu governo, para que ele tivesse um memorial de tal novidade, por ser feito dele. E não deixaram de obter o que desejavam, pois o rei, com os votos dos que vieram ao sinédrio, concedeu aos cantores de hinos esse privilégio de deixarem de lado suas vestes anteriores e usarem uma de linho como desejavam. E, como uma parte dessa tribo servia no templo, ele também lhes permitiu aprender aqueles hinos, como tinham lhe pedido. Ora, tudo isso era contrário às leis do nosso país, leis que, sempre que foram transgredidas, nunca conseguimos evitar o castigo de tais transgressões.
E foi então que o templo ficou concluído. Quando o povo viu que os trabalhadores ficaram sem ocupação, e eram mais de dezoito mil, e que, não recebendo salário, passavam necessidade, porque ganhavam o pão com seu trabalho no templo; e como não queriam guardar consigo os tesouros ali depositados, por medo de [serem levados pelos] romanos; e como tinham a preocupação de prover o sustento dos trabalhadores; resolveram gastar esses tesouros com eles. Pois, se algum deles trabalhasse uma só hora, recebia seu pagamento na hora. Por isso persuadiram o rei a reconstruir os pórticos orientais. Esses pórticos pertenciam ao pátio externo, ficavam situados num vale profundo e tinham muros que chegavam a quatrocentos côvados [de comprimento], construídos com pedras quadradas e muito brancas, cada uma das quais com vinte côvados de comprimento e seis côvados de altura. Essa fora obra do rei Salomão, que primeiro de todos construiu o templo inteiro. Mas o rei Agripa, a quem Cláudio César confiara o cuidado do templo, considerando que é fácil demolir qualquer construção, mas difícil reerguê-la, e que seria particularmente difícil fazer isso com esses pórticos, o que exigiria tempo considerável e grandes somas de dinheiro, negou aos requerentes o pedido sobre essa questão. Mas não os impediu quando pediram que a cidade fosse pavimentada com pedra branca. Ele também tirou de Jesus, filho de Gamaliel, o sumo sacerdócio, e o deu a Matias, filho de Teófilo, sob o qual teve início a guerra dos judeus contra os romanos.