Antiguidades Judaicas - Livro XX 8
Livro XX: os procuradores, Adiabene e a véspera da guerra
De que modo, com a morte de Cláudio, Nero o sucedeu no governo, e também as atrocidades que ele cometeu. Sobre os ladrões, assassinos e impostores que surgiram enquanto Félix e Festo eram procuradores da Judeia.
Cláudio César morreu depois de reinar treze anos, oito meses e vinte dias, e correu o boato de que tinha sido envenenado pela esposa, Agripina. O pai dela era Germânico, irmão de César. O marido dela tinha sido Domício Enobarbo, um dos homens mais ilustres da cidade de Roma. Depois da morte dele e de um longo período de viuvez, Cláudio a tomou por esposa. Ela trouxe consigo um filho, Domício, com o mesmo nome do pai. Antes disso, Cláudio tinha matado a esposa Messalina por ciúme, e dela tinha tido os filhos Britânico e Otávia. A irmã mais velha deles era Antônia, que ele tivera de Pelina, sua primeira esposa. Cláudio também casou Otávia com Nero, pois esse foi o nome que César deu ao rapaz mais tarde, ao adotá-lo como filho.
Agripina tinha medo de que, quando Britânico chegasse à idade adulta, sucedesse o pai no governo, e quis tomar o poder de antemão para o próprio filho [Nero]. Por isso corria o boato de que foi assim que ela arquitetou a morte de Cláudio. Ela enviou de imediato Burro, o comandante do exército, e com ele os tribunos e também os libertos de maior autoridade, para levar Nero ao acampamento e saudá-lo como imperador. Quando Nero obteve o poder dessa forma, mandou envenenar Britânico de um jeito que o povo não percebesse, embora pouco depois tenha mandado matar a própria mãe em público. Ele lhe deu esse pagamento não só por tê-lo gerado, mas por ter arranjado, com suas tramas, que ele alcançasse o Império Romano. Nero também matou Otávia, a própria esposa, e muitos outros homens ilustres, sob o pretexto de que conspiravam contra ele.
Mas deixo de lado qualquer discurso adicional sobre esses assuntos, pois muitos compuseram a história de Nero. Alguns deles se afastaram da verdade dos fatos por favorecimento, por terem recebido benefícios dele. Outros, por ódio e pela enorme má vontade que nutriam contra ele, deliraram com tanto descaramento em suas mentiras que merecem com justiça ser condenados. Não me admiro com os que contaram mentiras sobre Nero, já que, em seus escritos, nem mesmo preservaram a verdade histórica de fatos anteriores ao tempo dele, fatos em que os protagonistas de modo algum poderiam ter atraído o ódio desses autores, porque esses escritores viveram muito tempo depois. Quanto aos que não têm consideração pela verdade, que escrevam o que quiserem, pois é nisso que se deleitam. Mas nós, que fizemos da verdade nosso alvo direto, vamos tocar de forma breve apenas no que se liga de longe a este empreendimento, e vamos relatar o que aconteceu a nós, judeus, com grande exatidão. Não vamos poupar esforço ao dar conta tanto das calamidades que sofremos quanto dos crimes que cometemos. Volto agora, portanto, ao relato dos nossos próprios assuntos.
No primeiro ano do reinado de Nero, com a morte de Azizo, rei de Emesa, seu irmão Soemo o sucedeu no reino, e Aristóbulo, filho de Herodes, rei de Cálcis, recebeu de Nero o governo da Armênia Menor. César também concedeu a Agripa uma certa parte da Galileia, Tiberíades e Tariqueia, e ordenou que se submetessem à jurisdição dele. Deu-lhe ainda Júlias, uma cidade da Pereia, com quatorze aldeias situadas ao redor dela.
Quanto aos assuntos dos judeus, foram piorando continuamente, pois o país encheu-se de novo de roubos e de impostores que enganavam o povo. Mesmo assim, Félix capturava e executava muitos desses impostores todos os dias, junto com os ladrões. Ele também capturou Eleazar, filho de Dineu, que tinha reunido um bando de ladrões, e fez isso por traição. Félix garantiu a ele que não sofreria nenhum mal e assim o convenceu a vir até ele, mas, quando Eleazar chegou, Félix o prendeu e o enviou a Roma. Félix também nutria má vontade contra Jônatas, o sumo sacerdote, porque ele lhe dava advertências frequentes sobre governar melhor os assuntos dos judeus, com receio de que o povo viesse a fazer queixas contra o próprio Jônatas, já que tinha sido ele quem pedira a César que enviasse Félix como procurador da Judeia. Então Félix tramou um modo de se livrar dele, agora que se tornara tão constantemente incômodo, pois advertências contínuas assim são penosas para quem está disposto a agir com injustiça. Por isso Félix convenceu um dos amigos mais fiéis de Jônatas, um cidadão de Jerusalém chamado Doras, a trazer os ladrões sobre Jônatas para matá-lo. E ele fez isso prometendo dar-lhe muito dinheiro por esse serviço. Doras aceitou a proposta e armou as coisas de modo que os ladrões o assassinassem da seguinte forma. Alguns daqueles ladrões subiram à cidade como se fossem adorar a Deus, mas tinham punhais escondidos sob as roupas, e, misturando-se assim ao povo, mataram Jônatas. Como esse assassinato nunca foi vingado, dali em diante os ladrões passaram a subir com a maior segurança durante as festas, e, levando armas escondidas como antes e misturando-se ao povo, matavam alguns dos próprios inimigos, prestavam serviço a outros homens por dinheiro e mataram outras pessoas não só em partes remotas da cidade, mas dentro do próprio templo, pois tinham a ousadia de assassinar homens ali, sem pensar na impiedade de que eram culpados. Isso me parece ter sido a razão pela qual Deus, no ódio que tinha pela maldade desses homens, rejeitou nossa cidade. Quanto ao templo, ele já não o considerava puro o bastante para nele habitar, mas trouxe os romanos sobre nós, lançou fogo sobre a cidade para purificá-la e trouxe sobre nós a escravidão de nossas esposas e filhos, querendo nos tornar mais sábios por meio das calamidades.
Essas obras feitas pelos ladrões encheram a cidade de todo tipo de impiedade. E então esses impostores e enganadores convenciam o povo a segui-los ao deserto, fingindo que apresentariam maravilhas e sinais evidentes, realizados pela providência de Deus. Muitos que se deixaram persuadir por eles sofreram o castigo de sua loucura, pois Félix os trazia de volta e em seguida os punia. Além disso, por volta dessa época, veio do Egito a Jerusalém um homem que dizia ser profeta e aconselhava a multidão do povo comum a ir com ele ao chamado monte das Oliveiras, que ficava em frente à cidade, à distância de cinco estádios. Ele dizia ainda que mostraria dali como, sob seu comando, as muralhas de Jerusalém cairiam, e prometia que lhes conseguiria uma entrada na cidade por aquelas muralhas, depois que estivessem derrubadas. Quando Félix soube dessas coisas, ordenou aos soldados que pegassem as armas e marchou contra eles com grande número de cavaleiros e de soldados de infantaria, vindos de Jerusalém, e atacou o egípcio e o povo que estava com ele. Ele matou quatrocentos deles e capturou vivos duzentos. Mas o próprio egípcio escapou da luta e não apareceu mais. E de novo os ladrões incitaram o povo a fazer guerra contra os romanos, dizendo que não deviam de modo algum obedecer a eles, e, quando alguém não concordava com eles, ateavam fogo às aldeias dessas pessoas e as saqueavam.
[ano 56 d.C.] Foi então que surgiu uma grande revolta entre os judeus que habitavam em Cesareia e os sírios que também moravam ali, a respeito da igualdade de direito aos privilégios próprios dos cidadãos. Os judeus reivindicavam a primazia, porque Herodes, o rei deles, tinha sido o construtor de Cesareia, e porque ele era judeu de nascimento. Os sírios não negavam o que se alegava sobre Herodes, mas diziam que Cesareia antigamente se chamava Torre de Estratão, e que naquele tempo não havia um só habitante judeu. Quando os presidentes daquela região souberam dessas desordens, prenderam os autores delas dos dois lados e os atormentaram com açoites, e por esse meio puseram fim ao distúrbio por um tempo. Mas os cidadãos judeus, confiando em sua riqueza e por isso desprezando os sírios, voltaram a insultá-los, esperando provocá-los com tais insultos. Os sírios, contudo, embora inferiores em riqueza, valorizavam-se muito por causa disto: a maior parte dos soldados romanos que estavam ali era de Cesareia ou de Sebaste. Eles também, por algum tempo, usaram linguagem ofensiva contra os judeus. E assim foi, até que por fim começaram a atirar pedras uns nos outros, e vários ficaram feridos e caíram dos dois lados, embora os judeus ainda fossem os vencedores. Mas quando Félix viu que essa briga tinha se tornado uma espécie de guerra, caiu sobre eles de repente e pediu aos judeus que parassem. Como se recusaram a fazê-lo, ele armou os soldados, lançou-os contra eles, matou muitos e capturou outros tantos vivos, e permitiu que os soldados saqueassem algumas das casas dos cidadãos, que estavam cheias de riquezas. Os judeus mais moderados e de maior dignidade entre eles ficaram com medo por si mesmos e pediram a Félix que tocasse retirada aos soldados e os poupasse dali em diante, dando-lhes espaço para se arrependerem do que tinham feito. E Félix se deixou convencer a fazer isso.
[ano 57 d.C.] Por volta dessa época, o rei Agripa deu o sumo sacerdócio a Ismael, que era filho de Fabi. E então surgiu uma revolta entre os sumos sacerdotes e os homens principais do povo de Jerusalém. Cada um deles reuniu ao redor de si um bando dos homens mais ousados e dos que adoravam novidades, e se tornaram líderes deles. Quando entravam em conflito, faziam isso lançando palavras ofensivas uns contra os outros e atirando pedras também. E não havia ninguém para repreendê-los, mas essas desordens eram cometidas de maneira desenfreada na cidade, como se ela não tivesse governo algum sobre si. Tanta era a insolência e a ousadia que tinham tomado os sumos sacerdotes, que eles tiveram o atrevimento de mandar seus servos às eiras para se apropriarem dos dízimos que eram devidos aos sacerdotes. A tal ponto que aconteceu de os sacerdotes mais pobres morrerem por falta de sustento. A esse grau a violência dos sediciosos prevaleceu sobre todo direito e justiça!
Quando Pórcio Festo foi enviado por Nero como sucessor de Félix, os principais habitantes judeus de Cesareia subiram a Roma para acusar Félix. E ele certamente teria sido levado a julgamento, se Nero não tivesse cedido às insistentes solicitações de seu irmão Palas, que naquela época gozava da maior honra junto a ele. Dois dos principais sírios de Cesareia convenceram Burro, que era tutor de Nero e secretário de suas cartas em grego, dando-lhe uma grande soma de dinheiro, a anular aquela igualdade de privilégios de cidadania de que os judeus até então usufruíam. Assim Burro, com suas solicitações, obteve do imperador permissão para que se escrevesse uma carta com esse propósito. Essa carta tornou-se a ocasião das misérias seguintes que se abateram sobre nossa nação. Pois, quando os judeus de Cesareia foram informados do conteúdo dessa carta aos sírios, ficaram mais desordeiros do que antes, até que uma guerra se acendeu.
Com a chegada de Festo à Judeia, aconteceu que a região foi atormentada pelos ladrões, enquanto todas as aldeias eram incendiadas e saqueadas por eles. E foi então que os chamados sicários, que eram ladrões, tornaram-se numerosos. Eles usavam espadas pequenas, de comprimento não muito diferente das acinaces persas, mas um tanto curvas, parecidas com as sicae romanas [ou foices], como eram chamadas. E foi dessas armas que esses ladrões receberam seu nome, e com essas armas mataram muita gente. Pois se misturavam ao povo durante as festas, quando subiam em multidões de todas as partes à cidade para adorar a Deus, como dissemos antes, e matavam com facilidade aqueles que queriam matar. Eles também caíam com frequência sobre as aldeias de seus inimigos, com suas armas, saqueavam-nas e as incendiavam. Festo, então, enviou tropas de cavaleiros e de infantaria contra os que tinham sido seduzidos por um certo impostor, que lhes prometia libertação e alívio das misérias em que se encontravam, se apenas o seguissem até o deserto. Assim, as tropas enviadas destruíram tanto o homem que os tinha enganado quanto os que eram seus seguidores.
Por volta da mesma época, o rei Agripa construiu para si uma sala de jantar muito grande no palácio real em Jerusalém, perto do pórtico. Esse palácio tinha sido erguido na antiguidade pelos filhos de Asamoneu, ficava sobre uma elevação e oferecia uma vista deliciosíssima a quem quisesse contemplar a cidade. Essa era a vista que o rei desejava. Ali ele podia recostar-se, comer e dali observar o que se fazia no templo. Quando os homens principais de Jerusalém viram isso, ficaram muito descontentes, pois não estava de acordo com as instituições do nosso país nem com a lei que o que se fazia no templo fosse visto por outros, especialmente o que pertencia aos sacrifícios. Por isso eles ergueram um muro sobre a construção mais alta que pertencia ao átrio interno do templo, voltada para o oeste. Esse muro, depois de construído, não só interceptava a vista da sala de jantar do palácio, mas também a dos pórticos ocidentais que pertenciam ao átrio externo do templo, onde os romanos mantinham guardas para o templo durante as festas. Com essas ações, tanto o rei Agripa quanto, principalmente, Festo, o procurador, ficaram muito descontentes. E Festo ordenou que derrubassem o muro de novo. Mas os judeus pediram a ele que lhes desse licença para enviar uma embaixada a Nero sobre o assunto, pois diziam que não suportariam viver se qualquer parte do templo fosse demolida. E, quando Festo lhes deu licença para fazê-lo, eles enviaram dez de seus homens principais a Nero, e também Ismael, o sumo sacerdote, e Helcias, o guardião do tesouro sagrado. Quando Nero ouviu o que tinham a dizer, não só os perdoou pelo que já tinham feito, como também lhes deu licença para deixar de pé o muro que tinham construído. Isso lhes foi concedido para agradar a Popeia, esposa de Nero, que era uma mulher religiosa e tinha pedido esses favores a Nero. Ela deu ordem aos dez embaixadores para voltarem para casa, mas reteve Helcias e Ismael como reféns consigo. Assim que o rei ouviu essa notícia, deu o sumo sacerdócio a José, chamado Cabi, filho de Simão, que tinha sido sumo sacerdote.