Antiguidades Judaicas - Livro XX 1

Livro XX: os procuradores, Adiabene e a véspera da guerra

Uma sedição dos filadélfios contra os judeus. E também sobre as vestes do sumo sacerdote.

Após a morte do rei Agripa, que relatamos no livro anterior, o imperador Cláudio enviou Cássio Longino como sucessor de Marcos, em consideração à memória do rei Agripa, que muitas vezes, ainda em vida, lhe pedira por cartas que não permitisse que Marcos continuasse governador da Síria. Mas Fado, assim que chegou à Judeia como procurador, encontrou conflitos entre os judeus que viviam na Pereia e o povo da Filadélfia, por causa das fronteiras numa aldeia chamada Mia, que estava cheia de homens de índole belicosa. Os judeus da Pereia haviam pegado em armas sem o consentimento de seus principais líderes e mataram muitos dos filadélfios. Quando Fado soube disso, ficou muito irritado por eles não terem deixado a decisão da questão a seu cargo, caso julgassem que os filadélfios os tinham prejudicado, e por terem pegado em armas contra eles de forma precipitada. Por isso prendeu três dos principais líderes deles, que também eram os causadores dessa sedição, e mandou amarrá-los. Depois mandou matar um deles, chamado Aníbal, e baniu os outros dois, Anrão e Eleazar. Também Ptolomeu, o chefe dos bandidos, foi levado a ele amarrado, algum tempo depois, e morto, mas depois de ter causado enormes estragos na Idumeia e entre os árabes. De fato, a partir desse momento a Judeia ficou livre de assaltos, graças ao cuidado e à providência de Fado. Nessa época ele também convocou os sumos sacerdotes e os principais cidadãos de Jerusalém, por ordem do imperador, e os advertiu de que deviam guardar a túnica longa e a veste sagrada, que ninguém além do sumo sacerdote costuma usar, na torre Antônia, para que ficasse sob o poder dos romanos, como acontecera antes. Os judeus não ousaram contestar o que ele dissera, mas pediram a Fado e a Longino (este havia chegado a Jerusalém trazendo um grande exército, temendo que as exigências [rígidas] de Fado forçassem os judeus a se rebelar) que, em primeiro lugar, tivessem permissão de enviar embaixadores ao imperador, para suplicar a ele que pudessem manter as vestes sagradas sob seu próprio poder, e que, em seguida, aguardassem para saber que resposta Cláudio daria a esse pedido. Eles então responderam que dariam permissão de enviar os embaixadores, desde que entregassem os filhos como reféns [garantia de comportamento pacífico]. Os judeus concordaram em fazer isso e entregaram os reféns que lhes pediam, e assim os embaixadores foram enviados. Mas quando chegaram a Roma, Agripa, o jovem, filho do falecido, entendeu o motivo da vinda deles, pois morava com o imperador Cláudio, como dissemos antes, e suplicou ao imperador que concedesse aos judeus o pedido sobre as vestes sagradas e que enviasse uma mensagem a Fado nesse sentido.
Diante disso, Cláudio chamou os embaixadores e lhes disse que concedia o pedido deles, e mandou que agradecessem a Agripa por esse favor, que lhes fora dado a pedido dele. Além dessas respostas, enviou por meio deles a seguinte carta: "Cláudio César, Germânico, tribuno do povo pela quinta vez, cônsul designado pela quarta vez e imperador pela décima vez, pai da pátria, aos magistrados, ao senado, ao povo e a toda a nação dos judeus, envia saudações. Diante da apresentação de seus embaixadores a mim por Agripa, meu amigo, a quem criei e tenho agora comigo, pessoa de grandíssima piedade, embaixadores que vieram me agradecer pelo cuidado que tive com a nação de vocês e me suplicar, de maneira sincera e respeitosa, que possam manter as vestes sagradas, com a coroa que lhes pertence, sob seu poder, eu concedo o pedido deles, como aquele excelente homem Vitélio, que me é muito caro, tinha feito antes. E atendi ao desejo de vocês, em primeiro lugar por respeito à piedade que professo e porque quero que cada um adore a Deus segundo as leis de seu próprio país. Faço isso também porque assim agradarei muito ao rei Herodes e a Agripa, o jovem, cuja sagrada consideração por mim e sincera boa vontade para com vocês conheço bem, com quem tenho a maior amizade e a quem muito estimo e considero pessoas do melhor caráter. escrevi sobre esses assuntos a Cúspio Fado, meu procurador. Os nomes dos que me trouxeram a carta de vocês são: Cornélio, filho de Cero; Trifão, filho de Teúdio; Doroteu, filho de Natanael; e João, filho de João. Esta carta está datada antes do quarto dia das calendas de julho, sendo cônsules Rufo e Pompeu Silvano."
Herodes, irmão do falecido Agripa, que então detinha a autoridade real sobre Cálcis, pediu ao imperador Cláudio a autoridade sobre o templo, o dinheiro do tesouro sagrado e a escolha dos sumos sacerdotes, e obteve tudo o que pediu. Assim, a partir desse momento essa autoridade permaneceu com todos os seus descendentes até o fim da guerra. Foi por isso que Herodes destituiu o último sumo sacerdote, chamado Canteras, e concedeu essa dignidade a seu sucessor José, filho de Camo.