Antiguidades Judaicas - Livro XX 5

Livro XX: os procuradores, Adiabene e a véspera da guerra

Sobre Teudas; e os filhos de Judas, o galileu. Também sobre a calamidade que caiu sobre os judeus no dia da Páscoa.

Aconteceu que, enquanto Fado era procurador da Judeia, um certo mágico chamado Teudas convenceu boa parte do povo a pegar seus bens e segui-lo até o rio Jordão. Ele dizia que era profeta e que, por sua própria ordem, dividiria o rio e proporcionaria a todos uma passagem fácil. Muitos se deixaram enganar pelas palavras dele. Fado, no entanto, não permitiu que tirassem qualquer proveito daquela tentativa insensata: enviou contra eles uma tropa de cavalaria. Os soldados caíram sobre eles de surpresa, mataram muitos e capturaram muitos vivos. Também prenderam Teudas vivo, cortaram-lhe a cabeça e a levaram para Jerusalém. Foi isso o que aconteceu aos judeus durante o governo de Cúspio Fado.
Então veio Tibério Alexandre como sucessor de Fado. Ele era filho de Alexandre, o alabarca de Alexandria, e esse Alexandre foi uma figura de destaque entre todos os seus contemporâneos, tanto pela família quanto pela riqueza. Ele também se sobressaía na piedade mais do que esse seu filho Alexandre, pois o filho não permaneceu na religião de seu povo. Foi sob esses procuradores que ocorreu aquela grande fome na Judeia, durante a qual a rainha Helena comprou trigo no Egito a grande custo e o distribuiu aos necessitados, como relatei. Além disso, os filhos de Judas, o galileu, foram mortos nesse período. Refiro-me àquele Judas que levou o povo a se revoltar quando Quirino veio fazer o recenseamento dos bens dos judeus, como mostramos em um livro anterior. Os nomes desses filhos eram Tiago e Simão, e Alexandre mandou crucificá-los. Mas agora Herodes, rei de Cálcis, destituiu José, filho de Camido, do sumo sacerdócio, e nomeou Ananias, filho de Nebedeu, como seu sucessor. E foi então que Cumano veio como sucessor de Tibério Alexandre, e também que Herodes, irmão de Agripa, o grande rei, faleceu, no oitavo ano do reinado de Cláudio César. Ele deixou três filhos: Aristóbulo, que teve da primeira esposa, além de Berniciano e Hircano, ambos que teve de Berenice, filha de seu irmão. Mas Cláudio César concedeu os domínios dele a Agripa, o jovem.
Enquanto os assuntos judaicos estavam sob a administração de Cumano, houve um grande tumulto na cidade de Jerusalém, e muitos judeus morreram nele. Mas vou primeiro explicar a ocasião que o originou. Quando estava próxima a festa chamada Páscoa, época em que nosso costume é comer pão sem fermento, uma grande multidão se reuniu de todas as partes para essa festa. Cumano temeu que eles fizessem alguma tentativa de sublevação naquele momento. Por isso ordenou que um regimento do exército pegasse as armas e se postasse nos pórticos do templo, para reprimir qualquer tentativa de sublevação, caso alguma começasse. E isso não era mais do que os procuradores anteriores da Judeia faziam nessas festas. Mas, no quarto dia da festa, um certo soldado baixou as calças e expôs suas partes íntimas à multidão. Isso lançou os que o viram em fúria violenta e os fez gritar que aquela ação ímpia não era um insulto a eles, mas ao próprio Deus. Alguns chegaram a culpar Cumano, alegando que o soldado tinha sido instigado por ele. Quando Cumano ouviu isso, também ficou bastante irritado com tais acusações lançadas contra ele. Ainda assim, exortou-os a abandonar essas tentativas sediciosas e a não provocar um tumulto na festa. Mas, como não conseguiu fazê-los se acalmar, pois continuavam com as acusações contra ele, deu ordem para que todo o exército pegasse o armamento completo e fosse para a Antônia, que era uma fortaleza, como dissemos, que dominava o templo. Mas, quando a multidão viu os soldados ali, assustou-se com eles e fugiu às pressas. Como as saídas eram estreitas e como pensavam que seus inimigos os perseguiam, amontoaram-se na fuga, e um grande número morreu esmagado naquelas passagens estreitas. De fato, não foram menos de vinte mil os que morreram nesse tumulto. Assim, em vez de uma festa, tiveram afinal um dia de luto, e todos esqueceram suas orações e sacrifícios e se entregaram à lamentação e ao choro. Tamanha aflição a obscenidade descarada de um único soldado trouxe sobre eles.
Antes que terminasse esse primeiro luto, outra desgraça também caiu sobre eles. Alguns dos que provocaram o tumulto anterior, viajando pela estrada pública, a cerca de cem estádios da cidade, assaltaram Estêvão, um servo de César, enquanto ele viajava, e roubaram tudo o que ele levava consigo. Quando Cumano soube disso, enviou soldados imediatamente e ordenou que saqueassem as aldeias vizinhas e lhe trouxessem acorrentadas as pessoas mais importantes entre elas. Ora, enquanto essa devastação acontecia, um dos soldados apanhou as leis de Moisés que estavam em uma daquelas aldeias, exibiu-as diante de todos os presentes e as rasgou em pedaços. E fez isso com linguagem injuriosa e muita zombaria. Quando os judeus souberam disso, correram juntos, e em grande número, e desceram a Cesareia, onde Cumano então estava, e suplicaram que ele vingasse não a eles, mas ao próprio Deus, cujas leis tinham sido ultrajadas. Pois não suportavam continuar vivendo se as leis de seus antepassados fossem ultrajadas dessa maneira. Por isso Cumano, temendo que a multidão entrasse em sedição, e também por conselho de seus amigos, providenciou para que o soldado que tinha ofendido as leis fosse decapitado, e assim deteve a sedição que estava prestes a se acender pela segunda vez.