Capítulos

Antiguidades Judaicas - Livro XVI

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.

O Livro XVI na Obra

O Livro XVI já não tem paralelo na Bíblia hebraica. Pertence à segunda metade da obra, dedicada ao período do Segundo Templo, e cobre cerca dos anos finais do reinado de Herodes, o Grande, na última década antes da era cristã. O fio condutor é a tragédia doméstica de Herodes: a suspeita crescente contra Alexandre e Aristóbulo, seus filhos com Mariane, a hasmoneia que ele mandara executar, e a intriga de Antípater, Salomé e Feroras, que termina na condenação e morte dos dois jovens em Berito. Em torno desse drama, Josefo intercala as viagens de Herodes, suas grandes construções, e uma longa seção de documentos sobre os direitos das comunidades judaicas da diáspora.

Conteúdo do Livro

Fontes e Método

Para o reinado de Herodes, nos Livros XV a XVII, Josefo não segue mais a Bíblia, e sua fonte principal é a História Universal de Nicolau de Damasco, conselheiro e historiador da corte de Herodes. Nicolau foi testemunha de muitos dos episódios e chegou a representar o rei diante de Augusto, o que dá ao relato uma proximidade rara dos fatos. Essa mesma proximidade é problema: Nicolau escrevia para agradar ao patrono. Estudiosos hoje consideram consenso que ele é a base do retrato de Herodes em Josefo, e notam que, onde a obra de Nicolau termina, a narrativa de Josefo fica mais sumária.

Josefo tem consciência desse viés. Mais adiante na obra ele critica Nicolau por adular Herodes e por silenciar sobre os crimes do rei. No Livro XVI o método se vê com clareza nas longas citações de decretos e cartas de Júlio César, de Augusto e de Marco Agripa em favor dos judeus da Ásia e de Cirene. Esses documentos servem ao projeto apologético da obra, e parte deles pode ter chegado a Josefo pela própria coletânea de Nicolau.

Os Direitos dos Judeus na Diáspora

Boa parte do Livro XVI reproduz decretos romanos que garantiam às comunidades judaicas da Ásia Menor e da Líbia cirenaica privilégios antigos: enviar a Jerusalém o tributo sagrado sem confisco, observar o sábado sem ser obrigadas a comparecer a tribunais nesse dia, e viver segundo as próprias leis. Os judeus reclamavam que as cidades gregas os maltratavam e tomavam o dinheiro sagrado. César e Agripa escreveram aos magistrados das províncias confirmando os direitos. Esses textos são uma das principais fontes para a situação jurídica da diáspora judaica no início do Império, e seu teor é compatível com o que se sabe da política romana de tolerar cultos antigos, ainda que a forma exata transmitida por Josefo seja debatida.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.

Valor Histórico e Cautelas

Para o reinado de Herodes, Josefo é a fonte principal que sobrevive, e o Livro XVI dá um retrato detalhado da política da corte e das relações com Roma. O valor é alto, mas exige cautela dupla: o relato vem filtrado por Nicolau de Damasco, favorável a Herodes, e depois reorganizado por Josefo, que tem seu próprio programa apologético. A cronologia dos episódios e a forma exata dos documentos citados são objeto de discussão acadêmica. Ainda assim, é desta narrativa que vem quase tudo o que se conhece sobre o Herodes dos anos que precedem o nascimento de Jesus, o mesmo rei que aparece no Evangelho de Mateus.