Antiguidades Judaicas - Livro XVI 7

Livro XVI: a corte de Herodes e a tragédia de seus filhos

Como, ao descer Herodes ao túmulo de Davi, a discórdia em sua família aumentou muito.

Herodes gastara somas enormes com as cidades, tanto fora quanto dentro do seu reino. E como ouvira antes que Hircano, que fora rei antes dele, abrira o túmulo de Davi e dele tirara três mil talentos de prata, e que havia ali muito mais deixado para trás, o bastante para suprir todas as suas necessidades, ele alimentava havia muito tempo a intenção de fazer a tentativa. Nessa ocasião abriu o túmulo de noite e entrou nele, procurando que isso não fosse de modo algum sabido na cidade, e levou consigo apenas os amigos mais fiéis. Quanto a dinheiro, não encontrou nada, como Hircano encontrara, mas achou aquele mobiliário de ouro e os objetos preciosos que ali estavam guardados. Tudo isso ele levou. No entanto, teve grande vontade de fazer uma busca mais cuidadosa e de avançar mais para dentro, até os próprios corpos de Davi e Salomão. Ali dois de seus guardas foram mortos por uma chama que irrompeu sobre os que entravam, segundo se relatava. Por isso Herodes ficou terrivelmente assustado, saiu e construiu um monumento propiciatório por causa do susto que passara, em pedra branca, na entrada do túmulo, e isso com grande despesa também. O próprio Nicolau, seu historiógrafo, menciona esse monumento construído por Herodes, embora não mencione a entrada dele no túmulo, por saber que tal ação era de reputação. E muitas outras coisas ele trata do mesmo modo em seu livro. Pois escreveu durante a vida de Herodes, sob o seu reinado, e de modo a agradá-lo, como servo dele, sem tocar em nada que não contribuísse para a glória de Herodes, desculpando abertamente muitos dos crimes notórios dele e ocultando-os com grande diligência. E como desejava dar cores bonitas à morte de Mariane e de seus filhos, que foram atos bárbaros do rei, conta falsidades sobre a infidelidade de Mariane e sobre os supostos planos traiçoeiros dos filhos contra ele. Assim procedeu em toda a sua obra, fazendo um elogio pomposo das ações justas de Herodes, mas defendendo com empenho as injustas. De fato, como eu disse, muito que se pode dizer em defesa de Nicolau, pois ele não escreveu isso propriamente como uma história para os outros, e sim como algo que pudesse servir ao próprio rei. Quanto a nós, que viemos de uma família estreitamente ligada aos reis asmoneus, e por isso temos um lugar honroso, que é o sacerdócio, achamos indecente dizer qualquer coisa falsa sobre eles, e por isso descrevemos as ações deles de maneira limpa e correta. E embora reverenciemos muitos descendentes de Herodes, que ainda reinam, damos maior respeito à verdade do que a eles, mesmo quando às vezes acontece de incorrermos no seu desagrado por agir assim.
De fato, os problemas de Herodes dentro da família pareceram aumentar por causa dessa investida que ele fez sobre o túmulo de Davi. Não se sabe se a vingança divina ampliou as calamidades sob as quais ele vivia, para torná-las incuráveis, ou se a sorte o atacou naqueles casos em que a oportunidade da causa fazia crer fortemente que as calamidades vinham sobre ele por causa de sua impiedade. Pois o tumulto era como uma guerra civil em seu palácio, e o ódio que tinham uns pelos outros era tal que cada um se esforçava por superar o outro em calúnias. Antípater usava estratagemas continuamente contra os irmãos, e de modo muito astuto. Em público, carregava-os de acusações, mas ao mesmo tempo se dispunha com frequência a desculpá-los, para que essa aparente boa vontade para com eles o tornasse digno de crédito e favorecesse seus ataques contra eles. Por esse meio ele, de várias maneiras, enredou o pai, que acreditava que tudo o que o filho fazia era para a sua proteção. Herodes também recomendou Ptolomeu, que era um grande administrador dos assuntos do reino, a Antípater, e consultava também a mãe deste sobre os assuntos públicos. De fato, esses eram tudo, faziam o que queriam e voltavam o rei contra qualquer outra pessoa, conforme julgassem ser de sua própria vantagem. Mas os filhos de Mariane ficavam continuamente em pior e pior condição. E ao serem postos de lado e colocados num posto mais humilhante, eles, que por nascimento eram os mais nobres, não conseguiam suportar a desonra. Quanto às mulheres, Gláfira, esposa de Alexandre e filha de Arquelau, odiava Salomé, tanto pelo amor que tinha ao marido quanto porque Gláfira parecia comportar-se com certa insolência para com a filha de Salomé, que era esposa de Aristóbulo. Essa igualdade dela consigo mesma Gláfira suportava com muita impaciência.
Além dessa segunda contenda que surgira entre eles, nem mesmo Feroras, irmão do rei, ficou livre de problemas, mas tinha um motivo particular para suspeita e ódio. Pois estava tão dominado pelos encantos da esposa, a ponto da loucura, que desprezava a filha do rei, com quem fora prometido, e voltava por completo a mente para a outra, que não passara de uma serva. Herodes também se entristecia com a desonra que isso lhe causava, porque concedera muitos favores a Feroras e o elevara a tal grau de poder que era quase um sócio dele no reino, e via que Feroras não lhe retribuíra os favores como devia, e se considerava infeliz por causa disso. Assim, diante da recusa indigna de Feroras, deu a moça ao filho de Fasael. Mas, depois de algum tempo, quando achou que o ardor da paixão do irmão tinha passado, repreendeu-o pela conduta anterior e pediu que tomasse a sua segunda filha, de nome Cipros. Ptolomeu também o aconselhou a deixar de ofender o irmão e a abandonar aquela a quem amava, pois era coisa vil estar tão enamorado de uma serva a ponto de privar-se da boa vontade do rei, tornar-se causa de transtornos para ele e fazer-se odiado por ele. Feroras sabia que esse conselho seria para a sua própria vantagem, em especial porque fora acusado antes e perdoado. Então afastou a esposa, embora tivesse um filho com ela, e comprometeu-se com o rei a tomar a segunda filha dele, e combinou que o trigésimo dia seguinte seria o dia do casamento, e jurou que não teria mais convivência com aquela que afastara. Mas, passados os trinta dias, ele era tão escravo de suas paixões que não cumpriu mais nada do que prometera, e continuou com a esposa anterior. Isso fez Herodes entristecer-se abertamente e o deixou irritado, enquanto o rei deixava escapar uma palavra ou outra contra Feroras continuamente, e muitos aproveitavam a raiva do rei como ocasião para levantar calúnias contra ele. não tinha o rei um único dia ou hora de paz, mas ocasiões para uma briga nova ou outra surgiam entre seus parentes e entre os que lhe eram mais queridos. Pois Salomé tinha um temperamento áspero e era malévola para com os filhos de Mariane, e não permitia que a própria filha, esposa de Aristóbulo, um daqueles rapazes, tivesse boa vontade para com o marido, mas a persuadia a lhe contar se ele dissesse algo em particular. E quando aconteciam mal-entendidos, como é comum, ela tirava daí muitas suspeitas. Por esse meio ela ficava sabendo de todos os assuntos deles e tornava a moça malévola para com o rapaz. E, para agradar à mãe, a moça muitas vezes dizia que os rapazes costumavam mencionar Mariane quando estavam a sós, que odiavam o pai e estavam sempre ameaçando que, se um dia conquistassem o reino, fariam dos filhos que Herodes tivera com as outras esposas mestres-escolas do interior, pois a educação que lhes era dada no presente e a dedicação deles aos estudos os preparavam para tal ocupação. E quanto às mulheres, sempre que as viam enfeitadas com as roupas da mãe, ameaçavam que, em lugar daquela roupa vistosa, elas seriam vestidas de pano de saco e mantidas tão presas que não veriam a luz do sol. Essas histórias eram logo levadas por Salomé ao rei, que se afligia ao ouvi-las e procurava ajeitar as coisas. Mas essas suspeitas o atormentavam, e, tornando-se cada vez mais inquieto, ele acreditava em qualquer um contra qualquer um. No entanto, depois de repreender os filhos e ouvir a defesa que eles faziam de si mesmos, ele ficava mais tranquilo por algum tempo, embora pouco depois lhe sobreviessem incidentes muito piores.
Pois Feroras procurou Alexandre, marido de Gláfira, que era filha de Arquelau, como contamos a você, e disse que ouvira de Salomé que Herodes estava enamorado de Gláfira e que sua paixão por ela era incurável. Quando Alexandre ouviu isso, ficou em chamas, pela juventude e pelo ciúme, e interpretou para o pior os gestos de cortesia de Herodes para com ela, que eram muito frequentes. Isso vinha das suspeitas que ele tinha por causa daquela palavra que escapara a Feroras. E não conseguiu esconder o desgosto com a coisa, mas relatou a Herodes que palavras Feroras dissera. Diante disso, Herodes ficou mais perturbado do que nunca. E, não suportando tamanha calúnia falsa, que era uma vergonha para ele, muito se perturbou com isso. E muitas vezes lamentou a maldade dos seus familiares, e como fora bom para eles, e como mal lhe haviam retribuído. Então mandou chamar Feroras, repreendeu-o e disse: "Você, o mais vil de todos os homens! Chegou a tal grau desmedido e extravagante de ingratidão a ponto não de supor tais coisas a meu respeito, mas de falar delas? Agora, de fato, percebo quais são as suas intenções. Não é ofender-me o seu objetivo, quando usa tais palavras com o meu filho, mas com isso persuadi-lo a tramar contra mim e a me destruir com veneno. E quem haveria, se não tivesse um bom gênio ao lado, como tem o meu filho, que não nutrisse tal suspeita contra o pai e não se vingasse dele? Você supõe que apenas deixou escapar uma palavra para ele pensar, e não antes que pôs uma espada na mão dele para matar o próprio pai? E o que pretende, quando na verdade odeia tanto a ele quanto ao irmão dele, fingindo afeto por eles para levantar uma censura contra mim e falar de coisas que ninguém senão um desgraçado tão ímpio quanto você poderia ou conceber na mente ou declarar em palavras? embora, você que é uma praga para o seu benfeitor e para o seu irmão, e que essa sua consciência junto com você. Enquanto eu ainda venço meus parentes pela bondade, e estou tão longe de me vingar deles como mereceriam, que lhes concedo benefícios maiores do que são dignos."
Foi assim que o rei falou. Diante disso, Feroras, apanhado no próprio ato de sua vilania, disse que "fora Salomé a autora desse plano, e que dela vieram as palavras". Mas, assim que ela ouviu isso, pois estava por perto, gritou, como quem quer ser acreditada, que nunca tal coisa saíra da sua boca, que todos se esforçavam empenhadamente por fazer o rei odiá-la e por eliminá-la, por causa da boa vontade que tinha por Herodes e porque ela sempre previa os perigos que se aproximavam dele, e que no presente havia mais tramas contra ele do que de costume. Pois, sendo ela a única pessoa que persuadira o irmão a afastar a esposa que tinha e a tomar a filha do rei, não era de admirar que fosse odiada por ele. Enquanto dizia isso, e muitas vezes arrancava os cabelos e muitas vezes batia no peito, o semblante dela fazia a sua negativa ser acreditada, mas a perversidade de seus modos ao mesmo tempo denunciava a dissimulação nessas ações. Feroras ficou preso entre os dois e não tinha nada plausível a apresentar em sua própria defesa, pois confessava ter dito o que lhe era atribuído, mas não era acreditado quando dizia que ouvira aquilo de Salomé. Assim a confusão entre eles aumentou, e as palavras de briga de um para o outro. Por fim o rei, por ódio ao irmão e à irmã, mandou ambos embora. E, depois de elogiar a moderação do filho e o fato de ele mesmo lhe ter contado o boato, foi à tardinha descansar. Depois de uma disputa como essa entre eles, a reputação de Salomé sofreu muito, que se supunha que ela tinha sido a primeira a levantar a calúnia. E as esposas do rei ficaram irritadas com ela, por saberem que era uma mulher muito malévola, que às vezes era amiga e às vezes inimiga em ocasiões diferentes. Por isso falavam continuamente uma coisa ou outra contra ela, e algo que então aconteceu as deixou mais ousadas em falar contra ela.
Havia um certo Obodas, rei da Arábia, homem inativo e indolente por natureza, mas Sileu cuidava da maioria dos assuntos dele. Era um homem sagaz, embora ainda jovem, e por cima belo. Esse Sileu, em certa ocasião, indo até Herodes e ceando com ele, viu Salomé e se apaixonou por ela, e, ao entender que ela era viúva, conversou com ela. Como Salomé estava nessa época menos no favor do irmão, ela olhava para Sileu com certa paixão e estava muito empenhada em casar-se com ele. E nos dias seguintes apareceram muitos sinais, e muito grandes, do entendimento entre os dois. As mulheres levaram essa notícia ao rei e riram da indecência da coisa. Diante disso, Herodes investigou mais o assunto com Feroras e pediu que observasse os dois durante a ceia, como se comportavam um com o outro. Feroras lhe disse que, pelos sinais que vinham da cabeça e dos olhos de ambos, era evidente que estavam apaixonados. Depois disso Sileu, o árabe, sendo objeto de suspeita, foi embora, mas voltou dois ou três meses mais tarde, como que com essa exata intenção, e falou com Herodes a respeito, e pediu que Salomé lhe fosse dada como esposa, pois sua aliança não seria desvantajosa para os assuntos do rei, por uma união com a Arábia, cujo governo estava de fato sob o poder dele, e mais claramente seria dele no futuro. Assim, quando Herodes conversou com a irmã sobre isso e lhe perguntou se estava disposta a esse casamento, ela imediatamente concordou. Mas, quando se pediu a Sileu que se convertesse à religião judaica, e então casaria com ela, e que era impossível fazê-lo em quaisquer outros termos, ele não pôde suportar essa proposta e foi embora. Pois disse que, se fizesse isso, seria apedrejado pelos árabes. Então Feroras censurou Salomé por sua falta de pudor, e as mulheres muito mais, e disseram que Sileu a tinha seduzido. Quanto àquela moça que o rei prometera ao irmão Feroras, mas que ele não tomara, como relatei, porque estava enamorado da esposa anterior, Salomé pediu a Herodes que ela fosse dada ao seu filho com Costobaro. Esse casamento ele estava bem disposto a fazer, mas foi dissuadido por Feroras, que alegou que esse rapaz não seria gentil com ela, que o pai dele tinha sido morto por Herodes, e que era mais justo que o filho do próprio Feroras, que seria seu sucessor na tetrarquia, a tivesse. Então pediu desculpas e o persuadiu a agir assim. Desse modo a moça, com essa mudança de noivado, foi dada a esse rapaz, filho de Feroras, dando o rei como dote dela cem talentos.