Antiguidades Judaicas - Livro XVI 3

Livro XVI: a corte de Herodes e a tragédia de seus filhos

Como surgiram grandes perturbações na família de Herodes ao preferir Antípater, seu filho mais velho, aos demais, até que Alexandre tomou essa ofensa de modo muito grave.

Mas agora os assuntos na família de Herodes ficavam cada vez mais conturbados e pesavam sobre ele com mais força, por causa do ódio de Salomé contra os rapazes [Alexandre e Aristóbulo], ódio que passara para eles como uma espécie de herança [da mãe deles, Mariane]. E como ela tivera pleno sucesso contra a mãe deles, avançou a tal grau de loucura e arrogância que tentava não deixar vivo nenhum descendente de Mariane que pudesse vir a vingar a morte dela. Os rapazes também tinham um temperamento ousado e inquieto diante do pai, provocado pela lembrança do que a mãe deles sofrera injustamente e pela própria ambição de mandar. A antiga rixa também se reacendeu, e eles lançavam ofensas contra Salomé e Feroras, que retribuíam aos rapazes com planos maldosos e de fato armavam ciladas traiçoeiras contra eles. Esse ódio era igual dos dois lados, mas o modo de expressá-lo era diferente. Os rapazes eram impulsivos, repreendendo e afrontando os outros abertamente, e eram inexperientes a ponto de achar que o mais nobre era declarar o que pensavam daquela maneira destemida. os outros não usavam esse método, mas recorriam a calúnias de forma sutil e rancorosa, sempre provocando os rapazes e imaginando que aquela ousadia poderia, com o tempo, transformar-se em violência contra o pai. Como os rapazes não tinham vergonha dos supostos crimes da mãe, nem achavam que ela sofrera com justiça, Salomé e Feroras supunham que isso poderia acabar ultrapassando todos os limites e levá-los a pensar que deviam se vingar do pai, ainda que fosse matando-o com as próprias mãos. Por fim, chegou ao ponto de a cidade inteira estar cheia desses comentários, e, como costuma acontecer nesse tipo de disputa, a inexperiência dos rapazes despertava pena, mas a manobra de Salomé era forte demais para eles, e as acusações que ela lhes atribuía acabavam sendo cridas, por causa do próprio comportamento deles. Pois eles estavam tão profundamente abalados pela morte da mãe que, ao dizer que tanto ela quanto eles próprios estavam em situação miserável, lamentavam com veemência o fim lastimável dela, que de fato fora realmente assim. E diziam que eles próprios também estavam em situação lastimável, porque eram obrigados a conviver com aqueles que tinham sido os assassinos dela e a partilhar a vida com eles.
Esses transtornos cresceram muito, e a ausência do rei no exterior tinha dado uma boa oportunidade para esse aumento. Mas assim que Herodes voltou e fez à multidão o discurso mencionado, Feroras e Salomé deixaram escapar de imediato algumas palavras, como se ele estivesse em grande perigo e como se os rapazes ameaçassem abertamente que não o poupariam mais, mas vingariam nele a morte da mãe. Acrescentaram ainda outra circunstância: que as esperanças deles estavam fixadas em Arquelau, o rei da Capadócia, e que por meio dele conseguiriam chegar a César e acusar o próprio pai. Ao ouvir tais coisas, Herodes ficou imediatamente perturbado, e na verdade ficou ainda mais espantado porque as mesmas coisas também lhe foram relatadas por algumas outras pessoas. Então lembrou-se da calamidade anterior e considerou que os transtornos em sua família o tinham impedido de ter qualquer consolo das pessoas que lhe eram mais queridas, ou da esposa que tanto amara. E, suspeitando que seus problemas futuros logo seriam mais pesados e maiores do que os passados, ficou em grande confusão de espírito. Pois a providência divina de fato lhe concedera muitas vantagens externas para sua felicidade, até além de suas esperanças. Mas os problemas que tinha em casa eram tais que ele jamais esperara enfrentar, e o tornavam infeliz. E ambos os tipos vieram sobre ele a tal grau que ninguém poderia imaginar, e tornavam duvidoso, comparando os dois, se ele deveria ter trocado um sucesso tão grande em bens externos por infortúnios tão grandes em casa, ou se não deveria antes ter escolhido evitar as calamidades ligadas à família, ainda que, em compensação, nunca tivesse possuído a admirada grandeza de um reino.
Estando ele assim perturbado e aflito, para rebaixar esses rapazes trouxe à corte outro de seus filhos, nascido quando ele ainda era um homem comum. O nome dele era Antípater. No entanto, naquele momento Herodes ainda não o favorecia como faria depois, quando ficou completamente dominado por ele e o deixou fazer tudo o que queria. Era antes com a intenção de rebaixar a arrogância dos filhos de Mariane e de conduzir essa promoção de Antípater de modo que servisse de advertência a eles. Pois aquele comportamento ousado deles, [pensava Herodes,] não seria tão grande se eles se convencessem de uma vez de que a sucessão ao reino não pertencia a eles, nem viria necessariamente a eles. Por isso introduziu Antípater como rival deles e imaginou que assim tomava uma boa providência para desencorajar o orgulho dos rapazes, e que, depois disso, poderia chegar um momento oportuno para esperar que adotassem uma disposição melhor. Mas o resultado foi diferente do que ele pretendia. Pois os rapazes acharam que ele lhes causava uma grande injustiça. E como Antípater era um homem astuto, quando obteve esse grau de liberdade e começou a esperar coisas maiores do que antes esperava, passou a ter um único objetivo na cabeça: afligir os irmãos e de modo algum lhes ceder a primazia, mas manter-se próximo do pai, que estava afastado deles pelas calúnias que ouvira a respeito deles e pronto a ser influenciado por qualquer caminho que seu rancor contra eles o aconselhasse a seguir, para que se tornasse cada vez mais severo com eles. Assim, todos os boatos que se espalhavam vinham dele, enquanto ele evitava a suspeita, como se aquelas revelações não partissem dele. Preferia antes valer-se, como auxiliares, de pessoas que não levantassem suspeita e que pudessem ser cridas como verdadeiras por causa da boa vontade que tinham para com o rei. E de fato não eram poucos os que cultivavam amizade com Antípater na esperança de obter algum proveito dele, e eram esses os homens que mais de tudo convenciam Herodes, porque pareciam falar assim por boa vontade para com ele. E enquanto essas acusações conjuntas, que a partir de várias origens sustentavam a credibilidade umas das outras, prosseguiam, os próprios rapazes davam mais motivos também a Antípater. Pois eram vistos chorando com frequência por causa da injustiça que lhes era feita e tinham a mãe sempre na boca, e diante dos amigos atreviam-se a censurar o pai, dizendo que ele não agia com justiça para com eles. Tudo isso era guardado na memória por Antípater com intenção, à espera de uma ocasião oportuna, e quando essas coisas eram contadas a Herodes, com exageros, aumentavam tanto os transtornos que provocaram um grande tumulto na família. Pois, enquanto o rei estava muito irritado com as acusações lançadas sobre os filhos de Mariane e desejava humilhá-los, ia aumentando ainda mais a honra que concedera a Antípater, e por fim ficou tão dominado pelas persuasões dele que trouxe também a mãe de Antípater à corte. Escrevia também com frequência a César em favor dele e o recomendava com mais empenho, em especial, aos cuidados de César. E quando Agripa estava voltando a Roma, depois de concluir seus dez anos de governo na Ásia, Herodes partiu da Judeia, e quando se encontrou com ele não levava ninguém consigo a não ser Antípater, que entregou a Agripa para que o levasse junto, com muitos presentes, a fim de que se tornasse amigo de César. A ponto de as coisas parecerem como se Antípater tivesse todo o favor do pai e como se os rapazes estivessem inteiramente excluídos de qualquer esperança de obter o reino.