Antiguidades Judaicas - Livro XVI 8
Livro XVI: a corte de Herodes e a tragédia de seus filhos
Como Herodes prendeu Alexandre e o acorrentou. E como Arquelau, rei da Capadócia, ainda assim o reconciliou novamente com o pai, Herodes.
Mesmo assim, a situação da família de Herodes não melhorava, pelo contrário, ficava cada vez mais conturbada. Aconteceu então um incidente que, embora tenha surgido de uma circunstância indecorosa, foi longe a ponto de causar grandes problemas a ele. O rei tinha alguns eunucos de quem gostava muito por causa da beleza deles. A um confiava-se a tarefa de servir-lhe a bebida, a outro a de trazer-lhe a ceia, e ao terceiro a de prepará-lo para dormir. Esse terceiro também administrava os principais assuntos do governo. Alguém contou ao rei que esses eunucos haviam sido corrompidos por Alexandre, filho do rei, com grandes somas de dinheiro. Quando foram interrogados sobre se Alexandre tinha mantido relações ilícitas com eles, confessaram que sim, mas disseram não saber de nenhuma outra conspiração dele contra o pai. Mas quando foram torturados com mais severidade, levados ao limite extremo, e os torturadores, para agradar a Antípater, esticaram o potro até o máximo, eles disseram que Alexandre nutria grande rancor e ódio inato pelo pai. Disseram que ele lhes contara que Herodes não esperava viver muito mais e que, para disfarçar a idade avançada, pintava o cabelo de preto e tentava esconder qualquer coisa que revelasse quão velho era. Disseram ainda que, se eles se ligassem a ele, quando assumisse o reino, que apesar do pai não poderia caber a mais ninguém, teriam logo o primeiro lugar nesse reino sob seu comando. Pois ele já estava pronto para tomar o reino, não só por direito de nascimento, mas pelos preparativos que fizera para obtê-lo, já que muitos dos governantes e muitos dos seus amigos estavam do lado dele, e não eram homens insignificantes, prontos tanto a agir quanto a sofrer o que viesse por essa causa.
Quando Herodes ouviu essa confissão, ficou tomado de raiva e medo. Algumas partes lhe pareciam ofensivas, outras o deixavam desconfiado dos perigos que o cercavam, de modo que por ambos os motivos ele se sentiu provocado e ficou amargamente temeroso de que houvesse contra ele alguma trama mais grave do que conseguiria escapar. Por isso não fez uma busca aberta, mas enviou espiões para vigiar os suspeitos. Estava agora dominado pela suspeita e pelo ódio contra todos à sua volta, e, alimentando uma infinidade dessas suspeitas para garantir a própria segurança, passou a desconfiar até dos inocentes. Não impôs limite algum a si mesmo. Como supunha que os que ficavam perto dele tinham mais poder de prejudicá-lo, eles lhe pareciam aterrorizantes. E quanto aos que não costumavam aparecer diante dele, bastava nomeá-los [para torná-los suspeitos], e ele se julgava mais seguro depois que eram eliminados. No fim, seus próprios criados chegaram ao ponto de, não tendo nenhuma garantia de escapar, começarem a acusar uns aos outros, imaginando que quem acusasse primeiro teria mais chance de se salvar. Mas quando alguém derrubava os outros, era odiado, e julgava-se que sofriam com justiça aqueles que injustamente acusavam, já que com isso apenas tinham evitado a própria acusação. Mais ainda, agora executavam por esse meio suas inimizades pessoais. E quando eram apanhados, eram punidos do mesmo modo. Assim esses homens tramavam usar essa oportunidade como instrumento e armadilha contra seus inimigos, mas, ao experimentá-la, eram eles próprios pegos na mesma armadilha que armavam para os outros. O rei logo se arrependia do que tinha feito, porque não tinha prova clara da culpa daqueles que mandara matar. E, o que era ainda mais cruel da parte dele, não usava o arrependimento para deixar de fazer o mesmo de novo, mas para infligir o mesmo castigo aos acusadores deles.
Nesse estado de desordem estavam os assuntos do palácio. Ele já tinha dito diretamente a muitos dos seus amigos que não deviam aparecer diante dele nem entrar no palácio. A razão dessa ordem era que, [quando eles estavam ali], ele tinha menos liberdade de ação, ou maior contenção sobre si mesmo por causa deles. Foi nessa época que ele expulsou Andrômaco e Gêmelo, homens que de longa data eram seus amigos, lhe haviam sido muito úteis nos assuntos do reino, tinham trazido vantagem à sua família com suas embaixadas e conselhos, haviam sido tutores de seus filhos e tinham, de certo modo, o mais alto grau de liberdade com ele. Expulsou Andrômaco porque seu filho Demétrio era companheiro de Alexandre, e expulsou Gêmelo porque sabia que este lhe queria bem, o que vinha de ter estado com Alexandre na juventude, quando ele estudava e morava em Roma. A esses ele expulsou do palácio e bem que teria querido tratá-los pior. Mas, para não parecer agir com tamanho arbítrio contra homens de tão grande reputação, contentou-se em privá-los da dignidade e do poder de impedir suas más ações.
Ora, foi Antípater a causa de tudo isso. Sabendo em que modo insano e desenfreado o pai agia, e tendo sido por muito tempo um dos conselheiros dele, ele o incitava, e julgava que conseguiria levá-lo a fazer algo decisivo quando todos os que pudessem se opor fossem eliminados. Quando, portanto, Andrômaco e seus amigos foram afastados e já não tinham conversa nem liberdade com o rei, este, antes de mais nada, torturou todos os que considerava fiéis a Alexandre, para saber se conheciam alguma trama dele contra ele. Mas esses morreram sem ter nada a dizer sobre o assunto, o que tornou o rei ainda mais empenhado [em descobertas], já que não conseguia apurar os procedimentos malignos de que os suspeitava. Quanto a Antípater, era muito hábil em levantar calúnias contra os que de fato eram inocentes, como se a negação deles fosse apenas firmeza e fidelidade [a Alexandre], e com isso provocou Herodes a descobrir pela tortura de grande número de pessoas que conspirações ainda estavam ocultas. Entre os muitos torturados, certo indivíduo disse saber que o jovem dizia muitas vezes que, quando era elogiado por ser alto de corpo e atirador habilidoso, e por superar todos os homens nos demais exercícios louváveis, essas qualidades que a natureza lhe dera, embora boas em si mesmas, não lhe eram vantajosas, porque o pai se afligia com elas e o invejava por causa delas. Disse também que, quando caminhava ao lado do pai, ele procurava encolher-se e abaixar-se para não parecer alto demais, e que, quando atirava em algo durante a caçada com o pai por perto, errava o alvo de propósito, pois sabia o quanto o pai era ambicioso de ser superior nesses exercícios. Então, quando o homem foi torturado por causa dessa declaração e depois lhe deram alívio ao corpo, ele acrescentou que Alexandre tinha o irmão Aristóbulo por aliado, e que tramavam ficar à espreita do pai durante a caçada e matá-lo, e, feito isso, fugir para Roma e pedir que lhes fosse dado o reino. Encontraram também cartas do jovem escritas ao irmão, nas quais ele se queixava de que o pai não agia com justiça ao dar a Antípater uma região cuja renda [anual] chegava a duzentos talentos. Diante dessas confissões, Herodes logo julgou ter algo em que se apoiar, na sua opinião, quanto à suspeita sobre os filhos. Então prendeu Alexandre e o acorrentou. Mesmo assim continuava inquieto e não estava de todo convencido da verdade do que ouvira. Quando refletiu melhor, percebeu que eles tinham feito apenas queixas e disputas juvenis, e que era inacreditável que, depois de matar o pai, o filho fosse abertamente a Roma [pedir o reino]. Por isso desejava ter alguma prova mais segura da maldade dos filhos, e estava muito preocupado em não parecer tê-lo condenado à prisão de forma precipitada. Então torturou os principais amigos de Alexandre e mandou matar não poucos deles, sem conseguir extrair nenhuma das coisas que suspeitava. E enquanto Herodes estava muito ocupado com esse assunto, e o palácio estava cheio de terror e aflição, um dos mais jovens, em meio à maior agonia, confessou que Alexandre havia enviado mensagem aos amigos em Roma pedindo para ser logo chamado para lá por César, e que poderia revelar uma trama contra ele: que Mitrídates, o rei da Pártia, tinha se aliado em amizade ao pai dele contra os romanos, e que ele tinha uma poção venenosa já preparada em Ascalom.
Herodes deu crédito a essas acusações e com isso, em sua condição miserável, encontrou certa consolação como desculpa para sua precipitação, alegrando-se em encontrar as coisas em estado tão ruim. Mas quanto à poção venenosa, que se esforçou por encontrar, não achou nenhuma. Quanto a Alexandre, ele estava muito disposto a agravar as imensas desgraças em que se encontrava. Por isso fingiu não negar as acusações, mas puniu a precipitação do pai com um crime ainda maior da própria parte, e talvez quisesse fazer o pai se envergonhar de acreditar tão facilmente em tais calúnias. Visava sobretudo, se conseguisse que sua versão fosse aceita, atormentar a ele e a todo o reino. Pois escreveu quatro cartas e as enviou a ele, dizendo que "não precisava torturar mais ninguém, pois ele de fato conspirara contra ele, e que tinha por cúmplices Feroras e os mais fiéis de seus amigos, e que Salomé vinha até ele de noite e deitava-se com ele contra a vontade dele, e que todos os homens haviam chegado a um só consenso de eliminá-lo assim que pudessem, e assim se livrar do medo contínuo que sentiam dele". Entre os acusados estavam Ptolomeu e Sapínio, que eram os amigos mais fiéis do rei. E o que mais se pode dizer, senão que os que antes eram os amigos mais íntimos se tornaram feras uns para os outros, como se certa loucura tivesse caído sobre eles, sem que houvesse espaço para defesa ou refutação que levasse à descoberta da verdade, mas todos eram condenados ao acaso à destruição? De modo que uns lamentavam os que estavam presos, outros os que eram mortos, e outros lamentavam estar à espera das mesmas misérias. E uma solidão melancólica deixou o reino desfigurado, completamente o oposto do estado feliz em que estivera antes. A própria vida de Herodes também ficou inteiramente perturbada, e, como não podia confiar em ninguém, era duramente atormentado pela expectativa de mais sofrimento. Pois muitas vezes imaginava que o filho o tinha atacado, ou que estava ao lado dele de espada na mão. E assim sua mente, noite e dia, ficava fixa nessa ideia, revolvendo-a sem parar, como se estivesse em meio a um delírio. Essa era a triste condição em que Herodes se encontrava agora.
Mas quando Arquelau, rei da Capadócia, soube do estado em que Herodes estava, ficando muito angustiado por causa da filha e do jovem [marido dela], e compadecendo-se de Herodes como de um amigo, por causa de uma perturbação tão grande, veio [a Jerusalém] de propósito para resolver as diferenças deles. Quando encontrou Herodes em tal estado de ânimo, achou totalmente inoportuno repreendê-lo ou alegar que ele tinha feito algo precipitado, pois isso naturalmente o levaria a discutir o ponto e, à medida que continuasse a se justificar, a ficar mais irritado. Por isso adotou outra abordagem para corrigir as desgraças anteriores: mostrou-se irritado com o jovem e disse que Herodes tinha sido um homem tão brando que não agira de forma precipitada em nada. Disse também que dissolveria o casamento da filha com Alexandre, e que não poderia, por justiça, poupar a própria filha se ela soubesse de alguma coisa e não tivesse informado Herodes. Quando Arquelau se mostrou desse ânimo, e de modo diferente do que Herodes esperava ou imaginava, e, no essencial, tomou o partido de Herodes e ficou irritado em favor dele, o rei abrandou sua dureza. Aproveitando que Arquelau parecia ter agido com justiça até ali, passou aos poucos a assumir o afeto de pai, e era digno de pena de ambos os lados. Pois quando algumas pessoas refutavam as calúnias lançadas sobre o jovem, ele se enfurecia, mas quando Arquelau se juntava à acusação, desfazia-se em lágrimas e tristeza, de modo afetuoso. Assim, pediu que ele não dissolvesse o casamento do filho e já não ficava tão irritado quanto antes com as ofensas dele. Então, quando Arquelau o levou a um estado de ânimo mais moderado, transferiu as calúnias para os amigos e disse que só por causa deles um jovem assim, e tão pouco familiarizado com a malícia, podia ter sido corrompido, e supôs que havia mais razão para suspeitar do irmão do que do filho. Diante disso, Herodes ficou muito descontente com Feroras, que de fato agora não tinha ninguém que pudesse promover uma reconciliação entre ele e o irmão. Então, quando viu que Arquelau tinha o maior poder de influência sobre Herodes, recorreu a ele em trajes de luto, como alguém que trazia em si todos os sinais de um homem arruinado. Diante disso, Arquelau não desprezou a intercessão que ele lhe fez, mas também não se comprometeu a mudar de imediato a disposição do rei para com ele. Disse que era melhor que ele próprio fosse até o rei e confessasse ser a causa de tudo, pois isso faria com que a ira do rei não fosse extrema para com ele, e que então estaria presente para ajudá-lo. Quando o persuadiu a isso, conseguiu seu intento com os dois, e as calúnias levantadas contra o jovem foram, contra toda expectativa, apagadas. E Arquelau, assim que fez a reconciliação, partiu então para a Capadócia, tendo se mostrado, naquele momento, a pessoa mais querida de Herodes no mundo. Por essa razão, Herodes lhe deu os mais ricos presentes como sinais de sua consideração, e, sendo também magnânimo em outras ocasiões, considerou-o um de seus amigos mais caros. Fez ainda um acordo com ele de que iria a Roma, porque tinha escrito a César sobre esses assuntos. Então foram juntos até Antioquia, e ali Herodes promoveu uma reconciliação entre Arquelau e Tício, o presidente da Síria, que estavam muito desentendidos, e assim voltou para a Judeia.