Antiguidades Judaicas - Livro XVI 5
Livro XVI: a corte de Herodes e a tragédia de seus filhos
Como Herodes celebrou os jogos que deviam se repetir a cada cinco anos, na inauguração de Cesareia; e como construiu e adornou muitos outros lugares de maneira magnífica, e realizou muitas outras ações de modo glorioso.
Foi por essa época que Cesareia Sebaste, que Herodes havia construído, ficou concluída. A obra inteira foi terminada no décimo ano, e a sua inauguração caiu no vigésimo oitavo ano do reinado de Herodes, na centésima nonagésima segunda olimpíada. Houve, portanto, uma grande festa, com preparativos suntuosíssimos feitos de imediato para a dedicação. Herodes havia organizado uma competição de música e jogos a serem disputados por atletas nus. Reuniu também grande número de combatentes para lutas individuais e de feras para o mesmo fim. Promoveu ainda corridas de cavalos e os mais dispendiosos esportes e espetáculos que costumavam ser exibidos em Roma e em outros lugares. Consagrou essa competição a César e ordenou que fosse celebrada a cada cinco anos. Enviou também todo tipo de ornamentos para o evento, tirados de seus próprios bens, para que nada faltasse à dignidade da ocasião. Júlia, esposa de César, enviou boa parte de seus mais valiosos móveis [de Roma], de modo que ele não ficou sem nada. O valor total de tudo foi estimado em quinhentos talentos. Quando uma grande multidão chegou à cidade para ver os espetáculos, junto com os embaixadores que outros povos enviaram em razão dos benefícios que haviam recebido [de Herodes], ele os hospedou a todos em estalagens públicas, em mesas públicas e em banquetes contínuos. Durante o dia, essa festa tinha as diversões das lutas, e à noite, encontros festivos que custavam somas enormes de dinheiro e demonstravam publicamente a generosidade de seu espírito. Pois em tudo o que empreendia Herodes ambicionava exibir algo que superasse tudo o que já fora feito do mesmo tipo. E conta-se que César e Agripa diziam com frequência que os domínios de Herodes eram pequenos demais para a grandeza de seu espírito, e que ele merecia ter tanto todo o reino da Síria quanto o do Egito.
Depois que essa festa e esses festivais terminaram, Herodes ergueu outra cidade na planície chamada Cafarsaba, onde escolheu um lugar adequado, tanto pela abundância de água quanto pela qualidade do solo, próprio para a produção do que ali se plantasse. Ali um rio cercava a própria cidade, e um bosque das melhores árvores em tamanho a rodeava. Ele a chamou de Antipátride, em homenagem a seu pai, Antípater. Construiu também, em outro terreno acima de Jericó, um lugar de grande segurança e muito agradável para se morar, e o chamou de Cipros, o mesmo nome de sua mãe. Dedicou ainda os mais belos monumentos a seu irmão Fasael, em razão do grande afeto natural que havia entre eles, erguendo na própria cidade uma torre não menor que a torre de Faros, à qual deu o nome de Fasael. Essa torre era ao mesmo tempo parte das fortes defesas da cidade e um memorial para o falecido, pois levava o seu nome. Construiu também uma cidade de mesmo nome no vale de Jericó, indo dele para o norte, e com isso tornou a região vizinha mais fértil, pelo cultivo que seus habitantes introduziram. A esta também deu o nome de Fasélide.
Quanto aos seus outros benefícios, é impossível enumerá-los: os que concedeu a cidades, tanto na Síria quanto na Grécia, e em todos os lugares aonde foi em suas viagens. Pois parece ter doado, e da forma mais generosa, o que pudesse suprir muitas necessidades, além de construir obras públicas e dar o dinheiro necessário às obras que dele precisavam, para sustentá-las quando suas outras rendas falhavam. Mas a maior e mais ilustre de todas as suas obras foi a construção do templo de Apolo em Rodes, às suas próprias custas, e a doação de grande número de talentos de prata para o reparo da frota daquela ilha. Construiu também a maior parte dos edifícios públicos para os habitantes de Nicópolis, em Áccio. E para os antioquenos, habitantes da principal cidade da Síria, onde uma rua larga atravessa o lugar de ponta a ponta, ergueu pórticos cobertos ao longo dela dos dois lados e pavimentou a via aberta com pedra polida, o que trouxe grande vantagem aos moradores. Quanto aos jogos olímpicos, que estavam em situação muito precária por causa da falta de recursos, ele recuperou o seu prestígio, destinou rendas para a sua manutenção e tornou aquela solene reunião mais venerável, no tocante aos sacrifícios e aos demais ornamentos. E em razão dessa enorme liberalidade, foi geralmente declarado nas inscrições daqueles jogos como um de seus administradores perpétuos.
Há quem fique perplexo com a diversidade da natureza e dos propósitos de Herodes. Pois, quando consideramos a sua magnificência e os benefícios que concedeu a toda a humanidade, não há como, mesmo para os que menos o estimavam, negar ou deixar de confessar abertamente que ele tinha uma natureza imensamente generosa. Mas, quando alguém observa os castigos que infligiu e as injúrias que cometeu, não só contra seus súditos, mas contra os parentes mais próximos, e nota ali a sua disposição severa e implacável, será forçado a admitir que ele era brutal e estranho a toda humanidade. A tal ponto que essas pessoas supõem que a sua natureza era dupla e às vezes contraditória consigo mesma. Mas eu sou de outra opinião e imagino que a causa de ambos os tipos de ação era uma só e a mesma. Pois, sendo um homem ambicioso de honra e totalmente dominado por essa paixão, ele se via levado a ser magnífico onde quer que surgisse alguma esperança de um memorial futuro ou de reputação presente. E como seus gastos ultrapassavam suas posses, era forçado a ser duro com seus súditos. Pois as pessoas em quem ele gastava seu dinheiro eram tantas que o tornavam um péssimo arrecadador dele. E porque tinha consciência de ser odiado pelos que estavam sob seu domínio, em razão das injúrias que lhes fazia, julgava não ser fácil corrigir suas faltas, pois isso seria inconveniente para a sua renda. Por isso, ao contrário, esforçava-se por transformar a má vontade deles em ocasião de seus próprios ganhos. Quanto à sua própria corte, então, se alguém não era muito submisso a ele no falar, e não se confessava seu escravo, ou apenas parecia cogitar alguma inovação em seu governo, Herodes não conseguia se conter, mas perseguia até mesmo seus parentes e amigos, e os punia como se fossem inimigos. E cometia essa maldade pelo desejo de ser ele o único honrado. Ora, para essa minha afirmação sobre aquela paixão dele, temos a maior evidência no que fez para honrar César, Agripa e seus demais amigos. Pois, com as honras que prestava aos que lhe eram superiores, com essas mesmas desejava ser honrado. E o que considerava o mais excelente presente que poderia fazer a outro, isso ele revelava querer que lhe fosse igualmente ofertado. Mas a nação judaica é, por sua lei, estranha a todas essas coisas, e habituada a preferir a justiça à glória. Por essa razão, aquela nação não lhe agradava, porque estava fora do alcance dela lisonjear a ambição do rei com estátuas, templos ou quaisquer outras realizações desse tipo. E isso me parece ter sido, ao mesmo tempo, a causa dos crimes de Herodes contra seus próprios cortesãos e conselheiros, e de seus benefícios aos estrangeiros e aos que nada tinham de relação com ele.