Antiguidades Judaicas - Livro XVI 4

Livro XVI: a corte de Herodes e a tragédia de seus filhos

Como, durante a estada de Antípater em Roma, Herodes levou Alexandre e Aristóbulo diante de César e os acusou. A defesa de Alexandre perante César e a reconciliação com o pai.

O que aconteceu durante a ausência de Antípater aumentou a honra a que ele havia sido promovido e a sua aparente superioridade sobre os irmãos. Ele tinha feito grande figura em Roma, porque Herodes o recomendara a todos os seus amigos de lá. Sua única tristeza era não estar em casa e não ter oportunidades constantes de caluniar os irmãos. Seu maior medo era que o pai mudasse de ideia e passasse a ter a melhor das opiniões a respeito dos filhos de Mariane. Com isso na cabeça, não desistia de seu propósito, mas enviava continuamente de Roma toda sorte de histórias que pudessem entristecer e irritar o pai contra os irmãos. Fazia isso sob o pretexto de profunda preocupação com a segurança de Herodes, mas na verdade tudo era ditado por sua mente maliciosa, com o objetivo de comprar uma esperança maior de suceder no trono, esperança que era grande por si só. Assim agiu até despertar em Herodes tamanho grau de raiva que ele estava muito mal disposto contra os jovens. Ainda assim, enquanto adiava agir com tanta violência contra eles, e para não ser nem omisso demais nem precipitado demais a ponto de errar, Herodes julgou melhor navegar até Roma e ali acusar os filhos diante de César, sem se permitir nenhum crime grave o bastante para levantar suspeita de impiedade. Mas, ao subir para Roma, andou com tanta pressa que encontrou César na cidade de Aquileia. Quando teve a oportunidade de falar com César, pediu um tempo para que se ouvisse aquela causa importante, na qual se considerava muito infeliz. Apresentou os filhos ali e os acusou de suas ações insanas e de suas tentativas contra ele. Disse que eram seus inimigos e que, por todos os meios ao seu alcance, faziam o possível para mostrar o ódio ao próprio pai; que tirariam a sua vida e tomariam o reino do modo mais bárbaro. Que ele tinha de César o poder de dispor do reino, não por necessidade, mas por escolha, em favor de quem demonstrasse a maior lealdade para com ele; ao passo que aqueles seus filhos não desejavam tanto reinar quanto, diante da frustração de não reinarem, expor a própria vida, contanto que pudessem privar o pai da dele. Tão selvagem e corrompida a mente deles havia se tornado com o tempo, por causa do ódio que nutriam contra ele. Que, embora tivesse suportado por muito tempo essa desgraça, agora se via obrigado a expô-la diante de César e a poluir os ouvidos dele com tal linguagem. Que ele próprio queria saber que severidade haviam sofrido de sua parte, ou que sofrimento ele lhes impusera para que reclamassem dele; e como podiam achar justo que ele não fosse senhor daquele reino que conquistara ao longo de muito tempo e com grandes perigos, e que não o deixassem mantê-lo e entregá-lo a quem melhor o merecesse. Que isso, junto a outras vantagens, ele propunha como recompensa pela lealdade de alguém que viesse a imitar o cuidado que ele tivera com o reino, e que tal pessoa poderia obter retribuição tão grande quanto essa. Que era coisa ímpia eles pretenderem se intrometer nisso antes do tempo, pois quem mantém o reino diante dos olhos ao mesmo tempo calcula provocar a morte do pai, que de outro modo não chega ao governo. Que, quanto a ele próprio, até ali lhes dera tudo o que pôde e tudo o que convinha a quem está sujeito à autoridade real e é filho de rei: os adornos de que precisavam, com criados e iguarias refinadas, e os casara nas famílias mais ilustres, um deles, Aristóbulo, com a filha de sua irmã, e Alexandre com a filha do rei Arquelau. E que, o maior favor de todos, mesmo sendo tão graves os crimes deles e tendo ele autoridade para puni-los, não usara essa autoridade contra eles, mas os trouxera diante de César, benfeitor comum, e não aplicara a severidade que, fosse como pai impiamente ultrajado, fosse como rei traiçoeiramente atacado, poderia ter aplicado; em vez disso, os pusera em de igualdade com ele no julgamento. Que, no entanto, era necessário que tudo isso não passasse sem punição, nem que ele próprio vivesse no maior dos medos. E mais: que não era do interesse deles continuar a ver a luz do sol depois do que fizeram, ainda que escapassem desta vez, que tinham cometido as coisas mais vis e certamente sofreriam as maiores punições jamais conhecidas entre os homens.
Essas foram as acusações que Herodes apresentou com grande veemência contra os filhos diante de César. Os jovens, tanto enquanto ele falava quanto principalmente ao concluir, choravam e estavam confusos. Quanto a si mesmos, sabiam na própria consciência que eram inocentes. Mas, por serem acusados pelo pai, percebiam, como de fato era, que lhes seria difícil apresentar a defesa. Pois, ainda que tivessem liberdade para falar abertamente o que pensavam, conforme a ocasião exigia, e pudessem com força e empenho refutar a acusação, agora não era decente fazê-lo. Havia, portanto, uma dificuldade quanto ao modo como conseguiriam falar; e vieram lágrimas e, por fim, um gemido profundo, enquanto temiam que, se nada dissessem, parecessem estar nessa dificuldade por consciência de culpa. Nem tinham defesa pronta, por causa da juventude e da perturbação em que se achavam. Ainda assim, César não deixou de perceber, ao olhar para eles naquela confusão, que a demora em se defenderem não vinha de consciência de grandes crimes, mas da inexperiência e do recato deles. Foram também alvo de compaixão dos que ali estavam, em especial, e comoveram de verdade os sentimentos do pai, a ponto de ele ter muito trabalho para escondê-los.
Mas, quando viram que surgia uma disposição bondosa tanto nele quanto em César, e que cada um dos demais ou derramava lágrimas ou ao menos se entristecia com eles, um deles, chamado Alexandre, dirigiu-se ao pai e tentou responder à acusação, dizendo: pai, a benevolência que você mostrou para conosco fica evidente até neste próprio procedimento judicial. Pois, se você tivesse intenções nocivas a nosso respeito, não nos teria trazido aqui diante do salvador comum de todos. Estava em seu poder, tanto como rei quanto como pai, punir os culpados. Mas, ao nos trazer assim a Roma e fazer do próprio César uma testemunha do que se faz, você a entender que pretende nos salvar. Pois ninguém que tenha o plano de matar um homem o leva aos templos e aos altares. Mesmo assim, nossa situação é ainda pior. Pois não suportamos continuar a viver, se acreditarem que prejudicamos um pai assim. E talvez fosse pior para nós viver com essa suspeita sobre nós, de que o prejudicamos, do que morrer sem essa culpa. Se nossa defesa aberta for tida por verdadeira, seremos felizes, tanto por apaziguar você quanto por escapar do perigo em que estamos. Mas, se essa calúnia prevalecer, é mais que suficiente para nós ter visto o sol neste dia. E por que deveríamos vê-lo, se essa suspeita ficar fixada sobre nós? Ora, é fácil dizer de jovens que desejam reinar, e dizer ainda que esse mal procede do caso de nossa infeliz mãe. Isso basta de sobra para gerar a desgraça presente a partir da anterior. Mas considere bem se tal acusação não cabe a todos os jovens assim e não poderia ser dita de todos eles indistintamente. Pois nada impede que aquele que reina, se tem filhos e a mãe deles está morta, tenha suspeita sobre todos os filhos, como se planejassem alguma traição contra ele. Mas uma suspeita não basta para provar uma prática tão ímpia. Que alguém diga, então, se de fato e com insolência tentamos algo desse tipo, pelo qual ações de outro modo inacreditáveis costumam tornar-se críveis. Pode alguém provar que se preparou veneno? Ou provar uma conspiração de gente do nosso meio, ou a corrupção de criados, ou cartas escritas contra você? Embora, de fato, nenhuma dessas coisas exista que às vezes não tenha sido alegada por calúnia, quando nunca foi feita. Pois uma família real em discórdia consigo mesma é coisa terrível; e aquilo que você chama de recompensa da lealdade muitas vezes se torna, entre homens muito perversos, um fundamento de esperança tal que os leva a não deixar de tentar nenhum tipo de maldade. No entanto, ninguém nos imputa qualquer prática perversa. Mas, quanto a calúnias de boca em boca, como pode pôr-lhes fim aquele que não quer ouvir o que temos a dizer? Falamos com liberdade demais? Sim; mas não contra você, pois isso seria injusto, e sim contra aqueles que nunca escondem nada do que lhes dizem. Algum de nós lamentou nossa mãe? Sim; mas não porque ela está morta, e sim porque dela falaram mal pessoas que não tinham razão para fazê-lo. Desejamos aquele domínio que sabemos estar em poder de nosso pai? Por que razão o faríamos? Se temos honras reais, como temos, não estaríamos nos esforçando em vão? E, se não as temos, não estamos na esperança de tê-las? Ou, supondo que tivéssemos matado você, poderíamos esperar obter o seu reino, quando nem a terra nos deixaria pisar sobre ela, nem o mar nos deixaria navegar sobre ele, depois de um ato como esse? E mais: a religião de todos os seus súditos e a lealdade de toda a nação teriam proibido parricidas de assumir o governo e de entrar naquele santíssimo templo que foi construído por você. Mas, suponhamos que tivéssemos feito pouco caso de outros perigos: pode algum assassino sair impune enquanto César está vivo? Somos seus filhos, e não tão ímpios nem tão irrefletidos a ponto de chegar a isso, ainda que talvez mais infelizes do que convém a você. Mas, se você não encontra nenhum motivo de queixa nem qualquer plano traiçoeiro, que prova suficiente você tem para tornar crível uma maldade nossa dessas? Nossa mãe está morta, é verdade; mas, então, o que lhe sucedeu poderia ser para nós uma instrução de cautela, e não um incitamento à maldade. Estamos dispostos a fazer uma defesa mais longa de nós mesmos, mas ações que nunca foram feitas não admitem discurso. Mais ainda: faremos com você este acordo, e isso diante de César, o Senhor de tudo, que agora é mediador entre nós. Se você, ó pai, conseguir, pela evidência da verdade, ter a mente livre de suspeita a nosso respeito, deixe-nos viver; ainda que mesmo então vivamos de modo infeliz, pois ser acusado de grandes atos de maldade, mesmo que falsamente, é coisa terrível. Mas, se resta a você algum medo, continue em sua vida piedosa; quanto a nós, daremos esta razão para nossa conduta: nossa vida não nos é tão desejável a ponto de querermos tê-la, se ela tender ao mal de nosso pai, que nos deu essa vida."
Quando Alexandre falou assim, César, que antes não acreditava em calúnia tão grosseira, ficou ainda mais comovido por ela; olhou fixamente para Herodes e percebeu que ele estava um pouco perturbado. Os presentes estavam ansiosos pelos jovens, e a fama que se espalhara tornava o rei odiado. Pois a própria incredibilidade da calúnia e a compaixão pela flor da juventude e pela beleza física que havia nos jovens pediam socorro em favor deles, ainda mais porque Alexandre fizera a defesa com destreza e prudência. E os próprios jovens não mantinham o semblante de antes, que estivera banhado em lágrimas e voltado para o chão, mas agora surgia neles a esperança do melhor. O próprio rei mostrou não ter tido base suficiente para construir tal acusação, pois não dispunha de nenhuma prova real com que condená-los; na verdade, faltava-lhe alguma desculpa para ter feito a acusação. Mas César, após alguma demora, disse que, embora os jovens fossem totalmente inocentes daquilo de que eram caluniados, ainda assim tinham culpa em certa medida, por não terem se comportado para com o pai de modo a evitar a suspeita que se espalhara a seu respeito. Exortou também Herodes a pôr de lado todas essas suspeitas e a se reconciliar com os filhos, pois não era justo dar crédito a tais relatos sobre os próprios filhos; e que esse arrependimento de ambos os lados ainda poderia curar as rupturas que tinham ocorrido entre eles e fortalecer a boa vontade mútua, de modo que, desculpando uns aos outros a precipitação das suspeitas, decidissem nutrir um grau de afeto maior do que antes. Depois de dar essa admoestação, César fez sinal aos jovens. Quando, então, eles se dispunham a se prostrar para interceder junto ao pai, Herodes os levantou e os abraçou, ainda em lágrimas, e tomou cada um deles separadamente nos braços, a ponto de não haver entre os presentes, fosse homem livre ou escravo, quem não ficasse profundamente comovido com o que viu.
Então deram graças a César e se retiraram juntos; com eles foi Antípater, com a fingida aparência de que se alegrava com aquela reconciliação. Nos últimos dias em que estiveram com César, Herodes lhe deu de presente trezentos talentos, que naquele momento César oferecia espetáculos e doações ao povo de Roma. E César deu a Herodes de presente metade da renda das minas de cobre de Chipre e lhe confiou o cuidado da outra metade, além de honrá-lo com outros presentes e rendimentos. Quanto ao seu próprio reino, César deixou em poder de Herodes nomear qual dos filhos quisesse para sucessor, ou dividi-lo em partes para cada um, de modo que a dignidade real chegasse a todos. E, quando Herodes quis fazer logo essa partilha, César disse que não lhe daria licença para se privar, ainda em vida, do poder sobre o reino ou sobre os filhos.
Depois disso, Herodes voltou de novo para a Judeia. Mas, durante a sua ausência, boa parte de seus domínios em torno de Tracon havia se revoltado; ainda assim, os comandantes que ele deixara ali os tinham vencido e os obrigado a se submeter de novo. Ora, enquanto Herodes navegava com os filhos e chegava defronte à Cilícia, à ilha de Eleusa, que agora mudou de nome para Sebaste, encontrou-se com Arquelau, rei da Capadócia, que o recebeu com gentileza, alegre por ele estar reconciliado com os filhos e por ter terminado a acusação contra Alexandre, que se casara com a filha dele. Trocaram entre si os presentes que convinha a reis trocar. Dali Herodes veio para a Judeia e para o templo, onde fez um discurso ao povo sobre o que se passara nessa sua viagem. Falou-lhes também da bondade de César para com ele e de tantos detalhes do que fizera quanto julgou ser vantajoso que os outros soubessem. Por fim, voltou o discurso para a admoestação dos filhos e exortou os que viviam na corte e o restante da multidão à concórdia, informando-lhes que seus filhos reinariam depois dele: Antípater primeiro, e depois Alexandre e Aristóbulo, os filhos de Mariane. Mas pediu que por ora todos tivessem consideração por ele e o estimassem como rei e senhor de tudo, que ainda não estava limitado pela velhice, mas se encontrava no período da vida em que devia ser o mais hábil em governar, e em que não lhe faltavam as demais artes de administração que o capacitavam a governar bem o reino e também a reger os filhos. Disse ainda aos governantes sob suas ordens e aos soldados que, caso olhassem somente para ele, sua vida transcorreria de modo pacífico e eles se fariam felizes uns aos outros. E, quando disse isso, dispensou a assembleia. Esse discurso foi bem recebido pela maior parte do público, mas não por todos. Pois a disputa entre os filhos e as esperanças que ele lhes dera provocaram entre eles pensamentos e desejos de novidades.