Capítulos

Antiguidades Judaicas - Livro XV

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.

O Livro XV na Obra

O Livro XV abre o grande bloco dedicado a Herodes, o Grande, e cobre cerca de duas décadas, da consolidação do poder após a queda de Antígono, por volta de 37 a.C., até a reconstrução do Templo, iniciada em torno de 20 ou 19 a.C. Esse período já não tem paralelo na Bíblia hebraica, que se encerra séculos antes. A narrativa entrelaça dois planos: a política externa de Herodes, equilibrando-se entre Marco Antônio, Cleópatra e o vencedor de Ácio, Otávio, futuro Augusto, e a tragédia doméstica que destrói a família real, com a eliminação sistemática da casa hasmoneia, incluindo a própria esposa Mariane.

Conteúdo do Livro

    Herodes assume o poder

  • Os fariseus Pólio e Sameas, a execução dos partidários de Antígono, o confisco da riqueza de Jerusalém e a decapitação de Antígono por Marco Antônio, que encerra a dinastia hasmoneia(Antiguidades Judaicas - Livro XV 1)
  • O retorno do ex sumo sacerdote Hircano, libertado pelos partos, e a reação de Alexandra ao ver Ananel empossado no sumo sacerdócio em lugar de seu filho Aristóbulo(Antiguidades Judaicas - Livro XV 2)
  • A casa hasmoneia e Mariane

  • Herodes nomeia o jovem Aristóbulo sumo sacerdote e logo manda afogá-lo, a defesa que apresenta a Marco Antônio e o início da tensão com a esposa Mariane e o tio José(Antiguidades Judaicas - Livro XV 3)
  • Cleópatra obtém de Antônio territórios da Judeia e da Arábia, visita a Judeia e recebe presentes de Herodes, que a escolta de volta ao Egito(Antiguidades Judaicas - Livro XV 4)
  • Guerra com a Arábia e morte de Hircano

  • A guerra de Herodes contra o rei da Arábia, as muitas batalhas até a vitória final e o relato de um grande terremoto na Judeia(Antiguidades Judaicas - Livro XV 5)
  • A execução do velho Hircano, a viagem de Herodes ao encontro de Otávio depois da derrota de Antônio em Ácio e a confirmação de seu reino por César(Antiguidades Judaicas - Livro XV 6)
  • A tragédia doméstica

  • A execução do guarda Soemo e da rainha Mariane, seguida pela morte de Alexandra, de Costobaro e de outros próximos, e por fim dos filhos de Babas(Antiguidades Judaicas - Livro XV 7)
  • Roma, helenização e revolta

  • A conspiração de dez cidadãos contra Herodes, indignados com os costumes estrangeiros e os jogos introduzidos por ele, e a construção de Sebaste, de Cesareia e de outras obras(Antiguidades Judaicas - Livro XV 8)
  • A fome que atinge a Judeia e a Síria, o socorro de Herodes com trigo do Egito, seu novo casamento e a reconstrução de cidades de modelo grego(Antiguidades Judaicas - Livro XV 9)
  • Os filhos de Herodes enviados a Roma, as acusações de Zenodoro e dos gadarenos das quais ele se livra, e o tratamento dado aos fariseus, aos essênios e ao essênio Mênaem(Antiguidades Judaicas - Livro XV 10)
  • O novo Templo

  • A reconstrução do Templo de Jerusalém por Herodes, mais alto e mais amplo do que o anterior, e a fortaleza militar que ele ergueu ao lado e batizou de Antônia em honra a Marco Antônio(Antiguidades Judaicas - Livro XV 11)

Fontes e Método

Para a história de Herodes, os estudiosos concordam que a fonte principal de Josefo foi Nicolau de Damasco, historiador e conselheiro da corte do próprio rei. Isso explica o nível de detalhe e o acesso a episódios privados do palácio que aparecem no relato. Josefo, no entanto, não copia Nicolau de modo acrítico. Ele mesmo acusa Nicolau de adular Herodes, de pintar com cores favoráveis ações brutais e de caluniar Mariane para justificar o rei. Onde o material de corte distorce, Josefo às vezes corrige, ainda que sua própria reconstrução não seja neutra.

A Queda da Casa Hasmoneia

Boa parte do Livro XV narra como Herodes, idumeu casado com a hasmoneia Mariane, elimina um a um os herdeiros da antiga dinastia sacerdotal: o cunhado Aristóbulo, afogado numa piscina sob a aparência de acidente, o velho Hircano, a sogra Alexandra e a própria Mariane. Josefo apresenta a história como um drama de ciúme, intriga e remorso, em chave que lembra a tragédia grega. Convém ler com cautela: o relato vem em última instância de fontes ligadas à corte, e a psicologia atribuída aos personagens é, em boa medida, construção literária.

O Templo de Herodes

O capítulo final descreve a obra pela qual Herodes ficou mais conhecido entre os judeus: a reconstrução do Templo de Jerusalém. Josefo diz que o rei refez o santuário do segundo Templo numa escala muito maior, ampliando a esplanada e elevando a estrutura, num projeto que prosseguiu por décadas depois dele. É esse Templo herodiano que aparece nos Evangelhos e que seria destruído pelos romanos em 70 d.C. Ao seu lado, na esquina noroeste, Herodes ergueu uma fortaleza que chamou de Antônia, em honra a Marco Antônio, guarnição militar que dominava a área sagrada e que reaparece nos Atos dos Apóstolos como a cidadela de onde Paulo é resgatado de uma multidão em Jerusalém.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.

Valor Histórico e Cautelas

Para o reinado de Herodes, Josefo deixa de ser um simples parafraseador da Bíblia e passa a ser a principal fonte literária que temos. Seu relato é precioso justamente por isso, mas exige duas cautelas. A primeira é a dependência de Nicolau de Damasco, voz da própria corte herodiana, que Josefo recebe e revisa sem nunca substituir por testemunho independente. A segunda é o gosto de Josefo pelo drama, que molda episódios como a morte de Mariane mais como tragédia exemplar do que como crônica fria. A arqueologia confirma a escala das obras de Herodes, sobretudo a plataforma do Templo e as fundações da Antônia, ainda hoje visíveis em Jerusalém, o que dá ancoragem material ao núcleo do relato.