Antiguidades Judaicas - Livro XV 4

Livro XV: Herodes, Mariane e o novo Templo

Como Cleópatra, depois de obter de Antônio algumas partes da Judeia e da Arábia, foi à Judeia. E como Herodes lhe deu muitos presentes e a acompanhou no caminho de volta ao Egito.

Naquela época os assuntos da Síria estavam em confusão, por causa das insistências constantes de Cleópatra para que Antônio investisse contra os domínios de todos. Ela o convenceu a tirar esses territórios dos respectivos príncipes e a concedê-los a ela. E exercia enorme influência sobre ele, porque o tinha escravizado por suas paixões. Era também, por natureza, muito gananciosa, e não recuava diante de nenhuma maldade. havia envenenado o próprio irmão, porque sabia que ele seria rei do Egito, e fez isso quando o garoto tinha apenas quinze anos. Também conseguiu que sua irmã Arsínoe fosse morta por intermédio de Antônio, quando ela estava como suplicante no templo de Diana, em Éfeso. Se houvesse a menor esperança de conseguir dinheiro, ela violava tanto templos quanto sepulcros. Não havia lugar sagrado, por mais inviolável que fosse considerado, do qual ela não retirasse os ornamentos que ali existiam, nem lugar tão profano que não sofresse o tratamento mais infame possível de suas mãos, se isso pudesse contribuir de algum modo para a cobiça dessa criatura perversa. Mesmo assim, nada disso bastava a uma mulher tão desmedida, escrava de seus desejos. Ela continuava imaginando que lhe faltava tudo o que pudesse conceber, e fazia o máximo para obtê-lo. Por isso pressionava Antônio sem cessar a privar os outros de seus domínios e dá-los a ela. E enquanto atravessava a Síria em sua companhia, tramou para tomar a região para si. Assim ele matou Lisânias, filho de Ptolomeu, acusando-o de ter trazido os partos contra aqueles países. Ela também pediu a Antônio que lhe desse a Judeia e a Arábia, e, para isso, pediu que ele tirasse esses territórios de seus atuais governantes. Quanto a Antônio, estava tão completamente dominado por essa mulher que ninguém pensaria que apenas a convivência com ela conseguisse tal coisa, mas que ele estava de algum modo enfeitiçado a fazer tudo o que ela quisesse. Ainda assim, as partes mais grosseiras de sua injustiça o envergonhavam tanto que ele nem sempre a atendia em todos os crimes flagrantes que ela tentava lhe sugerir. Por isso, para não lhe negar totalmente, nem, ao fazer tudo o que ela ordenava, parecer abertamente um homem mau, ele tirou algumas partes de cada um daqueles países de seus antigos governantes e as deu a ela. Assim lhe entregou as cidades situadas dentro do rio Eleutério, até o Egito, com exceção de Tiro e Sidom, que ele sabia serem cidades livres desde os antepassados, embora ela muitas vezes insistisse para que ele lhe concedesse essas também.
Depois de obter tudo isso, e de ter acompanhado Antônio em sua expedição à Armênia até o Eufrates, Cleópatra voltou, chegou a Apameia e a Damasco, e seguiu para a Judeia. Ali Herodes a recebeu, e arrendou dela suas partes da Arábia e as rendas que lhe vinham da região de Jericó. Essa terra produz aquele bálsamo, a droga mais preciosa que existe lá, e que cresce ali sozinha. O lugar também tem palmeiras, muitas em número e excelentes em qualidade. Enquanto esteve ali, e estando muitas vezes com Herodes, ela tentou ter relações ilícitas com o rei. E não fazia segredo desse tipo de prazer. Talvez tivesse, em certa medida, alguma paixão por ele, ou, o que é mais provável, armava-lhe uma cilada traiçoeira, ao tentar obter dele tal relação adúltera. De todo modo, no conjunto, ela parecia tomada de amor por ele. Herodes, havia muito tempo, não nutria simpatia por Cleópatra, pois sabia que ela era uma mulher detestável para todos. E naquele momento a considerava especialmente digna de seu ódio, se aquela investida vinha da luxúria. Pensou também em frustrar suas intrigas, matando-a, se de fato fossem essas as suas intenções. No entanto, recusou-se a ceder às propostas dela, e convocou um conselho de amigos para deliberar com eles se não deveria matá-la, agora que a tinha em seu poder. Pois assim livraria de uma multidão de males todos aqueles a quem ela se tornara odiosa e continuaria a sê-lo no futuro. E isso seria muito vantajoso até para o próprio Antônio, que ela certamente não lhe seria fiel caso surgisse alguma ocasião ou necessidade em que ele precisasse de sua lealdade. Mas, quando pensou em seguir esse plano, os amigos não permitiram, e lhe disseram que, em primeiro lugar, não era acertado tentar algo tão grave e, com isso, lançar-se no maior perigo. Insistiram muito com ele e lhe imploraram que não empreendesse nada de modo precipitado. Pois Antônio jamais toleraria aquilo, nem mesmo que alguém lhe demonstrasse com clareza que era para o próprio bem dele. E a aparência de privá-lo da convivência com ela por esse método violento e traiçoeiro provavelmente inflamaria ainda mais suas paixões do que antes. Além disso, não parecia que Herodes pudesse apresentar nada de peso razoável em sua defesa, sendo essa investida contra uma mulher que era, na época, a de maior dignidade entre todas as de seu sexo no mundo. E, quanto a qualquer vantagem que se pudesse esperar de tal empreendimento, se é que se podia supor alguma nesse caso, ela mereceria condenação, por causa da insolência que ele teria de assumir ao fazê-lo. Essas considerações tornavam muito claro que, agindo assim, ele veria seu governo cheio de desgraças, grandes e duradouras, tanto para si quanto para seus descendentes. Ao passo que ainda estava em seu poder rejeitar a maldade a que ela tentava convencê-lo e, ao mesmo tempo, sair-se com honra. Assim, atemorizando Herodes e mostrando-lhe o risco que muito provavelmente correria com tal empreendimento, eles o impediram de levá-lo adiante. Então ele tratou Cleópatra com gentileza, deu-lhe presentes e a acompanhou no caminho de volta ao Egito.
Antônio, por sua vez, subjugou a Armênia e enviou Artabazes, filho de Tigranes, acorrentado, junto com os filhos e procuradores, ao Egito. E os presenteou a Cleópatra, junto com todos os ornamentos reais que tinha tomado daquele reino. E Artáxias, o mais velho de seus filhos, que havia escapado naquela ocasião, assumiu o reino da Armênia. Ele, contudo, foi expulso por Arquelau e por Nero César, quando estes restituíram a esse reino seu irmão mais novo, Tigranes. Mas isso aconteceu bastante tempo depois.
Quanto aos tributos que Herodes devia pagar a Cleópatra por aquele território que Antônio lhe dera, ele agiu corretamente com ela, por julgar que não era seguro dar a Cleópatra qualquer motivo para odiá-lo. o rei da Arábia, cujo tributo Herodes se comprometera a pagar a ela, por algum tempo pagou de fato a quantia de duzentos talentos. Mas depois tornou-se muito mesquinho e lento nos pagamentos, e dificilmente se deixava convencer a pagar sequer parte deles, e nem mesmo essas parcelas queria pagar sem alguns descontos.