Antiguidades Judaicas - Livro XV 3

Livro XV: Herodes, Mariane e o novo Templo

Como Herodes, depois de fazer Aristóbulo sumo sacerdote, providenciou para que ele fosse assassinado em pouco tempo. E que defesa apresentou a Marco Antônio a respeito de Aristóbulo. Também sobre José e Mariane.

O rei Herodes imediatamente tirou o sumo sacerdócio de Ananel, que, como dissemos antes, não era natural deste país, mas um daqueles judeus que tinham sido levados cativos para além do Eufrates. Havia muitas dezenas de milhares desse povo que tinham sido deportados e moravam na região da Babilônia, de onde veio Ananel. Ele era da linhagem dos sumos sacerdotes e havia sido, desde muito tempo, amigo pessoal de Herodes. Quando foi feito rei pela primeira vez, Herodes lhe concedeu aquela dignidade, e agora a tirava de novo, para acalmar os conflitos em sua família, embora o que fez fosse claramente ilegal. Em nenhum outro momento [no passado] alguém que tinha ocupado aquela dignidade fora privado dela. Foi Antíoco Epifânio quem primeiro quebrou essa lei: destituiu Jesus e pôs o irmão dele, Onias, como sumo sacerdote em seu lugar. Aristóbulo foi o segundo a fazer isso, tirando aquela dignidade de seu irmão [Hircano]. E este Herodes foi o terceiro, que tirou aquele alto cargo [de Ananel] e o entregou a este jovem, Aristóbulo, em seu lugar.
Agora parecia que Herodes tinha sanado as divisões em sua família. Mesmo assim, não estava livre de suspeita, como costuma acontecer com pessoas que aparentemente se reconciliaram. Ele pensava que, assim como Alexandra tinha feito tentativas de mudanças, também temia que ela continuasse nisso se encontrasse uma boa oportunidade. Por isso deu ordem para que ela morasse no palácio e não se metesse em nenhum assunto público. Os guardas dela eram tão atentos que nada do que ela fazia em sua vida privada, dia após dia, ficava oculto. Todas essas privações foram esgotando a paciência dela aos poucos, e ela começou a odiar Herodes. Como tinha o orgulho de mulher ao mais alto grau, sentia grande indignação com aquela guarda desconfiada ao seu redor, preferindo enfrentar qualquer coisa que pudesse lhe acontecer a ser privada da liberdade de falar e, sob o pretexto de uma guarda honorária, viver em estado de escravidão e terror. Por isso mandou mensagem a Cleópatra e fez uma longa queixa da situação em que se encontrava, suplicando que ela fizesse o máximo para ajudá-la. Cleópatra então a aconselhou a levar o filho consigo e vir imediatamente para junto dela, no Egito. Esse conselho a agradou, e ela bolou o seguinte plano de fuga. Mandou fazer dois caixões, como se fossem para transportar dois cadáveres, colocou-se em um e o filho no outro, e deu ordens aos servos que sabiam de suas intenções para levá-los embora durante a noite. O caminho dali ia até a beira-mar, e havia um navio pronto para levá-los ao Egito. Aconteceu que Esopo, um dos servos dela, topou com Sabião, um dos amigos dela, e falou desse assunto com ele, pensando que ele sabia de tudo. Quando Sabião soube disso (ele tinha sido antes inimigo de Herodes e era considerado um daqueles que armaram ciladas e deram o veneno a [seu pai] Antípater), esperou que essa revelação transformasse o ódio de Herodes em benevolência. Por isso contou ao rei sobre essa estratégia secreta de Alexandra. Herodes então permitiu que ela seguisse com a execução de seu plano e a pegou em flagrante. Mesmo assim, deixou passar a ofensa dela. Embora tivesse grande vontade de punir, não se atreveu a infligir nada severo a ela, pois sabia que Cleópatra não toleraria que ele a acusasse, por causa do ódio que tinha contra ele. Em vez disso, ele fingiu que era antes a generosidade de sua alma e sua grande moderação que o levavam a perdoá-las. No entanto, propôs-se firmemente a tirar esse jovem do caminho por um meio ou por outro. Mas calculou que, provavelmente, conseguiria esconder melhor isso se não o fizesse logo, nem imediatamente depois do que tinha acontecido havia pouco.
Com a aproximação da festa dos tabernáculos, que é uma festividade muito observada entre nós, ele deixou esses dias passarem, e tanto ele quanto o restante do povo estiveram muito alegres nela. Mesmo assim, a inveja que então surgiu nele o levou a apressar o que estava planejando, e o instigou a isso. Pois quando este jovem Aristóbulo, que estava agora no décimo sétimo ano de idade, subiu ao altar, conforme a lei, para oferecer os sacrifícios, e fez isso com os ornamentos de seu sumo sacerdócio, ao realizar os ofícios sagrados ele parecia extremamente belo, mais alto do que os homens costumam ser naquela idade, e exibia no rosto muito daquela alta linhagem de que descendia. Um zelo caloroso e uma afeição por ele surgiram entre o povo, e a memória das ações de seu avô Aristóbulo estava viva em suas mentes. A afeição os dominou a tal ponto que não conseguiram conter a inclinação que sentiam por ele. Ao mesmo tempo se alegravam e ficavam perturbados, e misturavam bons votos com as aclamações de júbilo que lhe dirigiam, até que a simpatia da multidão ficou evidente demais, e eles proclamaram, de forma mais imprudente do que era apropriado sob uma monarquia, a felicidade que tinham recebido da família dele. Diante de tudo isso, Herodes resolveu concluir o que tinha planejado contra o jovem. Por isso, quando a festa terminou e ele estava banqueteando em Jericó com Alexandra, que os recebia ali, mostrou-se muito agradável com o jovem e o atraiu para um lugar isolado, ao mesmo tempo brincando com ele de modo juvenil e divertido. O clima daquele lugar era mais quente do que o normal, então saíram todos juntos, de repente, num arroubo de loucura, e como estavam perto dos viveiros de peixes, dos quais havia grandes próximos da casa, foram se refrescar [tomando banho], porque era em pleno calor do dia. No início, eram apenas espectadores dos servos e conhecidos de Herodes, enquanto estes nadavam. Mas, depois de um tempo, o jovem, por instigação de Herodes, entrou na água junto deles, e os conhecidos de Herodes que ele tinha designado para isso o mergulharam enquanto ele nadava e o afundaram debaixo da água, no escurecer da tarde, como se fosse de brincadeira. E não pararam até ele ficar completamente sufocado. E assim foi assassinado Aristóbulo, tendo vivido ao todo apenas dezoito anos e ocupado o sumo sacerdócio por apenas um ano. Esse sumo sacerdócio Ananel agora recuperou de novo.
Quando esse triste acidente foi contado às mulheres, a alegria delas logo se transformou em lamento diante do corpo morto que jazia à sua frente, e a dor delas foi imensa. A cidade [de Jerusalém] também, ao se espalhar a notícia, mergulhou em grande tristeza, cada família encarando essa calamidade como se não pertencesse a outro, mas como se um dos seus tivesse sido morto. Mas Alexandra foi afetada mais profundamente, ao saber que ele tinha sido morto [de propósito]. A dor dela foi maior que a dos outros, porque sabia como o assassinato tinha sido cometido. Mas ela se viu obrigada a suportar, em vista de um mal maior que de outro modo poderia se seguir. Muitas vezes chegou a sentir o impulso de se matar com as próprias mãos. Mesmo assim se conteve, na esperança de viver tempo suficiente para vingar o assassinato injusto, cometido assim em segredo. Mais ainda, resolveu esforçar-se para viver por mais tempo e não dar nenhuma ocasião de pensar que suspeitava que o filho fora morto de propósito, supondo que assim poderia estar em condições de vingá-lo numa oportunidade apropriada. Foi assim que ela se conteve, para não ser notada por alimentar tal suspeita. Herodes, por sua vez, esforçava-se para que ninguém de fora acreditasse que a morte do menino tinha sido causada por algum plano dele. Para esse fim, não usou os sinais comuns de luto, mas também caiu em pranto e demonstrou uma genuína perturbação de alma. E talvez seus sentimentos tenham sido de fato vencidos nessa ocasião, ao ver o rosto do menino tão jovem e tão belo, embora se supusesse que a morte dele servia à própria segurança de Herodes. Ao menos nesse ponto, esse pesar serviu para fazer alguma desculpa por ele. Quanto ao funeral, ele cuidou para que fosse muito suntuoso, fazendo grandes preparativos para um sepulcro onde colocar o corpo, providenciando grande quantidade de especiarias e enterrando muitos ornamentos junto com ele, a ponto de as próprias mulheres, que estavam em tão profunda tristeza, ficarem espantadas com isso e receberem, dessa forma, algum consolo.
No entanto, nada disso conseguiu vencer a dor de Alexandra. A lembrança daquele caso miserável tornava sua dor profunda e obstinada. Por isso escreveu a Cleópatra um relato dessa cena traiçoeira e de como seu filho fora assassinado. Cleópatra, que antes desejava lhe dar toda a satisfação que pudesse, e compadecida da sorte de Alexandra, fez da causa dela a sua própria, e não deixava Marco Antônio em paz, mas o incitava a punir o assassinato do menino. Argumentava que era indigno que Herodes, a quem ele tinha feito rei de um reino que de modo algum lhe pertencia, fosse culpado de crimes tão horríveis contra pessoas que de fato eram do sangue real. Marco Antônio se deixou convencer por esses argumentos. Quando chegou a Laodiceia, mandou ordem para que Herodes viesse e fizesse sua defesa quanto ao que tinha feito a Aristóbulo, pois um plano tão traiçoeiro não tinha sido coisa boa, se ele tivesse tido alguma participação nisso. Herodes estava agora temeroso, tanto da acusação quanto da vontade de Cleópatra contra ele, que era tamanha que ela vivia tentando fazer Marco Antônio odiá-lo. Por isso resolveu obedecer à convocação, pois não havia nenhum jeito possível de evitá-la. Então deixou seu tio José como administrador de seu governo e dos assuntos públicos, e lhe deu uma ordem secreta: se Marco Antônio o matasse, José também deveria matar Mariane imediatamente. Pois ele tinha uma terna afeição por essa sua esposa, e temia a ofensa que lhe seria feita se, depois de sua morte, ela, por causa de sua beleza, fosse entregue a algum outro homem. Mas, no fundo, sua insinuação era apenas esta: que Marco Antônio tinha se apaixonado por ela, ao ouvir antes algo sobre sua beleza. Assim, depois de dar a José essa ordem, e sem ter nenhuma esperança segura de escapar com vida, Herodes partiu para junto de Marco Antônio.
Mas, como José administrava os assuntos públicos do reino e por essa razão estava muito frequentemente com Mariane, tanto porque seu cargo exigia quanto pelo respeito que devia à rainha, ele caía com frequência em conversas sobre a bondade e a grande afeição de Herodes por ela. E quando as mulheres, especialmente Alexandra, transformavam suas conversas em zombaria feminina, José ficava tão ansioso por demonstrar as inclinações do rei que chegou ao ponto de mencionar a ordem que tinha recebido, e dela tirou sua prova de que Herodes não conseguia viver sem ela, e de que, se ele chegasse a algum fim ruim, não suportaria uma separação dela nem mesmo depois de morto. Assim falou José. Mas as mulheres, como era natural, não tomaram isso como prova da forte afeição de Herodes por elas, e sim de seu tratamento severo: que não conseguiriam escapar da destruição, nem de uma morte tirânica, mesmo quando ele estivesse morto. E essa fala [de José] foi a base para as graves suspeitas das mulheres a respeito dele depois.
Nessa época, correu pela cidade de Jerusalém, entre os inimigos de Herodes, o rumor de que Marco Antônio tinha torturado Herodes e o tinha matado. Esse rumor, como era natural, perturbou os que estavam no palácio, mas principalmente as mulheres. Diante disso, Alexandra tentou persuadir José a sair do palácio e fugir com elas para os estandartes da legião romana, que então estava acampada ao redor da cidade, como guarda do reino, sob o comando de Júlio. Pois, por esse meio, se acontecesse alguma perturbação no palácio, elas estariam em maior segurança, tendo os romanos a seu favor. E, além disso, esperavam obter a mais alta autoridade se Marco Antônio apenas visse Mariane, por cujo meio recuperariam o reino e não lhes faltaria nada do que era razoável esperar, por causa de sua descendência real.
Mas enquanto estavam no meio dessas deliberações, chegaram cartas de Herodes sobre todos os seus assuntos, e que se mostraram contrárias ao rumor e ao que antes esperavam. Pois, ao chegar a Marco Antônio, ele logo recuperou seu prestígio com ele, por meio dos presentes que lhe fez, que tinha trazido consigo de Jerusalém, e logo o induziu, ao conversar com ele, a abandonar a indignação que tinha contra ele. De modo que as persuasões de Cleópatra tiveram menos força do que os argumentos e os presentes que ele trouxe para reconquistar sua amizade. Pois Marco Antônio disse que "não era bom exigir prestação de contas de um rei quanto aos assuntos de seu governo, pois desse jeito ele não poderia ser rei de modo algum, mas que aqueles que lhe tinham dado essa autoridade deviam permitir que ele a usasse". Disse também as mesmas coisas a Cleópatra, que o melhor para ela seria não se intrometer nos atos do governo do rei. Herodes escreveu um relato dessas coisas, e "estendeu-se sobre as demais honras que tinha recebido de Marco Antônio: como sentava ao lado dele quando ele julgava as causas, e fazia suas refeições com ele todos os dias, e que desfrutava desses favores apesar das censuras que Cleópatra tão duramente lançava contra ele, ela que, tendo grande desejo por seu país e suplicando com insistência a Marco Antônio que o reino lhe fosse dado, trabalhava com toda a sua diligência para tirá-lo do caminho. Mas que ele ainda assim encontrara Marco Antônio justo com ele, e não tinha mais nenhum receio de mau tratamento da parte dele. E que estaria logo de volta, com uma garantia ainda mais firme do favor de Marco Antônio para reinar e administrar os assuntos públicos, e que não havia mais nenhuma esperança para a ambição de Cleópatra, que Marco Antônio lhe tinha dado a Celessíria em vez do que ela tinha pedido, com o que, de uma vez, a apaziguou e se livrou das súplicas que ela lhe fazia para que a Judeia lhe fosse concedida".
Quando essas cartas chegaram, as mulheres desistiram de sua tentativa de fugir para os romanos, plano que tinham cogitado enquanto se supunha que Herodes estava morto. Mesmo assim, esse propósito delas não ficou em segredo. Quando o rei tinha acompanhado Marco Antônio em sua marcha contra os partos, voltou para a Judeia. Então, tanto sua irmã Salomé quanto sua mãe o informaram das intenções de Alexandra. Salomé acrescentou ainda algo mais contra José, embora não passasse de uma calúnia: que ele tinha tido frequentemente relações criminosas com Mariane. A razão de ela dizer isso era que, havia muito tempo, nutria vontade contra Mariane, pois quando elas tinham desavenças, Mariane se permitia grandes liberdades e censurava as outras pela baixeza de seu nascimento. Mas Herodes, cuja afeição por Mariane sempre foi muito calorosa, ficou imediatamente perturbado com isso e não conseguia suportar os tormentos do ciúme, embora o amor que sentia por ela ainda o contivesse de fazer qualquer coisa precipitada contra ela. Mesmo assim, sua afeição intensa e seu ciúme, juntos, fizeram-no perguntar a Mariane, a sós, sobre esse assunto de José. Mas ela negou sob juramento, e disse tudo o que uma mulher inocente poderia possivelmente dizer em sua própria defesa, de modo que, aos poucos, o rei foi convencido a abandonar a suspeita e deixou de lado a raiva contra ela. Vencido pela paixão por sua esposa, ele se desculpou com ela por ter parecido acreditar no que tinha ouvido a seu respeito, e lhe expressou muitos reconhecimentos por seu comportamento recatado, e declarou a afeição e a bondade extraordinárias que sentia por ela. Até que, por fim, como é comum entre amantes, ambos caíram em lágrimas e se abraçaram com a mais terna afeição. Mas, à medida que o rei dava cada vez mais garantias de que acreditava em sua fidelidade, e tentava levá-la a uma confiança semelhante nele, Mariane disse: "Mas aquela ordem que você deu, de que, se algum mal lhe acontecesse da parte de Marco Antônio, eu, que não tinha sido causa de nada, deveria perecer com você, não foi sinal de seu amor por mim." Quando essas palavras saíram dela, o rei ficou chocado, e na mesma hora a soltou de seus braços, gritou, arrancou os próprios cabelos com as mãos e disse que "agora tinha prova evidente de que José tivera relações criminosas com sua esposa, pois ele nunca teria revelado o que lhe contara a sós, a menos que houvesse uma grande intimidade e firme confiança entre os dois". E enquanto estava nesse acesso, quase matou a esposa. Mas, ainda vencido pelo amor que tinha por ela, conteve esse seu arroubo, embora não sem um pesar duradouro e uma inquietação de espírito. No entanto, deu ordem para matar José, sem permitir que ele chegasse à sua presença. Quanto a Alexandra, ele a prendeu e a manteve sob custódia, como a causa de toda essa desgraça.