Antiguidades Judaicas - Livro XV 9
Livro XV: Herodes, Mariane e o novo Templo
Sobre a fome que aconteceu na Judeia e na Síria. E como Herodes, depois de se casar com outra esposa, reconstruiu Cesareia e outras cidades gregas.
Naquele mesmo ano, que foi o décimo terceiro do reinado de Herodes, grandes calamidades atingiram o país, fossem elas derivadas da ira de Deus ou fosse essa desgraça algo que retorna naturalmente em certos períodos de tempo. Em primeiro lugar, houve secas contínuas, e por isso a terra ficou estéril e não produziu a mesma quantidade de frutos que costumava produzir. Depois dessa esterilidade do solo, a mudança de alimentação imposta pela falta de cereais provocou doenças no corpo das pessoas, e uma epidemia se espalhou, uma desgraça seguindo logo após a outra. E como faltavam tanto formas de cura quanto comida, a doença epidêmica, que começou de maneira violenta, durou ainda mais. A morte das pessoas dessa forma também privou os sobreviventes de toda a coragem, porque não tinham como prover remédios suficientes para o sofrimento em que viviam. Quando, portanto, os frutos daquele ano se perderam e tudo o que haviam guardado de antemão se esgotou, não restava nenhuma base de esperança de alívio, mas a desgraça, ao contrário do que esperavam, continuava a aumentar sobre eles. E isso não só naquele ano, em que nada sobrou para si mesmos [ao final dele], mas também a semente que haviam plantado pereceu, porque a terra não deu seus frutos no segundo ano. Essa aflição em que viviam os obrigou também, por necessidade, a comer muitas coisas que não costumavam ser comidas. Nem mesmo o próprio rei escapou dessa aflição, assim como os demais, pois ficou privado do tributo que costumava receber dos frutos da terra e já tinha gastado todo o dinheiro que possuía na generosidade com aqueles cujas cidades havia construído. Tampouco tinha um povo digno de sua ajuda, já que esse estado miserável das coisas lhe havia rendido o ódio de seus súditos. Pois é regra constante que os infortúnios são sempre atribuídos à conta de quem governa.
Nessas circunstâncias, ele considerou consigo mesmo como conseguir alguma ajuda oportuna. Mas isso era difícil de fazer, já que os vizinhos não tinham comida para vender e o dinheiro também havia acabado, ainda que fosse possível comprar um pouco de alimento por um preço alto. No entanto, ele julgou que sua melhor opção, de todo modo, era não desistir dos esforços para socorrer seu povo. Então retirou os móveis ricos que havia em seu palácio, tanto de prata quanto de ouro, a ponto de não poupar nem os vasos mais finos que possuía nem os feitos com a habilidade mais apurada dos artesãos, e enviou o dinheiro a Petrônio, que havia sido nomeado prefeito do Egito por César. E como não poucos já tinham recorrido a ele em suas necessidades, e como ele era especialmente amigo de Herodes e desejava que os súditos dele fossem preservados, deu-lhes permissão, em primeiro lugar, de exportar cereais e os ajudou de todas as formas, tanto na compra quanto na exportação deles. De modo que ele foi o principal, se não o único, responsável por toda a ajuda que receberam. E Herodes, cuidando para que o povo entendesse que essa ajuda vinha dele mesmo, com isso não só removeu de si a má opinião dos que antes o odiavam, mas também lhes deu a maior demonstração possível de sua boa vontade e de seu cuidado por eles. Pois, em primeiro lugar, quanto aos que eram capazes de prover o próprio alimento, ele distribuiu a cada um sua porção de cereais da maneira mais exata. Mas, quanto aos muitos que não eram capazes de prover comida para si mesmos, fosse por causa da velhice ou de qualquer outra fraqueza, ele tomou esta providência: que os padeiros lhes preparassem o pão. Cuidou também para que não fossem prejudicados pelos perigos do inverno, já que sofriam grande falta de roupas, por causa da total destruição e do consumo de suas ovelhas e cabras, até que não tinham mais lã para usar nem qualquer outra coisa com que se cobrir. E depois de prover essas coisas para seus próprios súditos, ele foi além, a fim de prover o necessário aos vizinhos, e deu sementes aos sírios, o que também se reverteu grandemente em vantagem para ele mesmo, pois essa ajuda caridosa foi oferecida no momento mais oportuno ao solo fértil deles, de modo que todos passaram a ter farto suprimento de alimento. No geral, quando se aproximava a colheita da terra, ele enviou não menos de cinquenta mil homens, que tinha sustentado, para o campo. Com isso, ele reparou a condição aflita de seu próprio reino, com grande generosidade e diligência, e aliviou as aflições dos vizinhos, que estavam sob as mesmas calamidades. Pois não houve ninguém que estivesse em necessidade e ficasse sem a ajuda adequada da parte dele. Mais ainda: não houve nenhum povo, nenhuma cidade, nenhum particular que tivesse de prover sustento a multidões e por isso estivesse em necessidade e recorresse a ele sem receber aquilo de que precisava. A tal ponto que, segundo um cálculo, o número de coros de trigo, de dez medimnos áticos cada, dados aos estrangeiros chegou a dez mil, e o número dado em seu próprio reino foi de cerca de oitenta mil. Aconteceu, então, que esse cuidado dele e essa generosidade oportuna tiveram tal influência sobre os judeus e foram tão elogiados entre outras nações, que apagaram aquele antigo ódio que a violação de alguns de seus costumes, durante o reinado, lhe havia rendido em toda a nação. E essa liberalidade de sua ajuda nessa maior das necessidades foi plena compensação por tudo o que ele havia feito daquela natureza, além de lhe render grande fama entre os estrangeiros. E parecia que essas calamidades, que afligiram sua terra a um grau francamente inacreditável, vieram para elevar sua glória e para sua grande vantagem. Pois a grandeza de sua liberalidade nessas aflições, que ele agora demonstrou além de toda expectativa, mudou de tal modo a disposição da multidão em relação a ele, que estavam prontos a supor que, desde o início, ele não tinha sido aquele que haviam descoberto ser pela experiência, mas o que o cuidado que ele teve em suprir as necessidades deles agora provava que era.
Por essa época, ele enviou quinhentos homens escolhidos dentre os guardas de seu corpo como auxiliares a César, homens que Élio Galo levou ao mar Vermelho e que lhe prestaram grande serviço ali. Quando, portanto, seus negócios melhoraram assim e voltaram a uma condição próspera, ele construiu para si um palácio na cidade alta, erguendo os aposentos a uma altura muito grande e adornando-os com a mobília mais cara de ouro, com assentos e leitos de mármore, e estes eram tão grandes que podiam acomodar muitos grupos de pessoas. Esses aposentos também tinham tamanhos distintos e nomes próprios. Pois um aposento se chamava de César e outro de Agripa. Ele também se apaixonou de novo e casou-se com outra esposa, não deixando que a razão o impedisse de viver como quisesse. A ocasião desse casamento foi a seguinte. Havia um certo Simão, cidadão de Jerusalém, filho de um tal Boeto, cidadão de Alexandria e sacerdote de grande destaque ali. Esse homem tinha uma filha que era considerada a mulher mais bela daquele tempo. E quando o povo de Jerusalém começou a falar muito em seu louvor, aconteceu que Herodes ficou muito impressionado com o que diziam dela. E quando viu a moça, foi tomado por sua beleza. Mesmo assim, ele rejeitou por completo a ideia de usar sua autoridade para abusar dela, por acreditar, o que era verdade, que ao fazer isso seria marcado como violento e tirano. Então julgou que o melhor era tomar a moça por esposa. E como Simão tinha posição baixa demais para se aliar a ele, mas ainda assim importante demais para ser desprezado, ele governou suas inclinações da maneira mais prudente, aumentando a dignidade da família e tornando-a mais honrada. Assim, ele imediatamente destituiu Jesus, filho de Fabes, do sumo sacerdócio e conferiu essa dignidade a Simão, ligando-se a ele por parentesco [ao casar-se com sua filha].
Quando esse casamento terminou, ele construiu outra fortaleza, no lugar onde havia derrotado os judeus, quando foi expulso de seu governo e Antígono o ocupava. Essa fortaleza fica a cerca de sessenta estádios de Jerusalém. Era forte por natureza e adequada a tal construção. É uma espécie de colina de altura moderada, elevada a uma altura maior pela mão do homem, até ficar com o formato de um seio de mulher. É cercada por torres circulares e tem uma subida íngreme até o topo, subida composta por degraus de pedras polidas, em número de duzentos. Dentro dela há aposentos régios e muito ricos, de uma estrutura que provia tanto a segurança quanto a beleza. Em torno da base há habitações de uma estrutura que vale bem a pena ver, tanto por outros motivos quanto por causa da água que é trazida para lá de muito longe e a custos enormes. Pois o próprio lugar é desprovido de água. A planície ao redor dessa fortaleza está cheia de edifícios, não inferiores em tamanho a nenhuma cidade, e tem a colina acima dela à maneira de um castelo.
E então, quando todos os planos de Herodes deram certo conforme suas esperanças, ele não tinha a menor suspeita de que pudessem surgir problemas em seu reino, porque mantinha seu povo obediente tanto pelo medo que tinham dele, pois era implacável na aplicação de seus castigos, quanto pelo cuidado providente que havia mostrado por eles da maneira mais magnânima, quando estavam em suas aflições. Mesmo assim, ele cuidou de ter segurança externa para o seu governo, como uma fortaleza, contra os próprios súditos. Pois os discursos que fazia às cidades eram muito refinados e cheios de gentileza, e ele cultivava um bom entendimento oportuno com os governantes delas e dava presentes a cada um deles, induzindo-os assim a serem mais amistosos com ele e usando sua disposição magnífica de modo que seu reino ficasse mais bem assegurado para ele, e isso até que todos os seus negócios se ampliassem cada vez mais por todos os lados. Mas então esse temperamento magnífico dele, e aquele comportamento submisso e a liberalidade que exercia para com César e os homens mais poderosos de Roma, o obrigaram a transgredir os costumes de sua nação e a deixar de lado muitas de suas leis, construindo cidades de maneira extravagante e erguendo templos, não na Judeia de fato, pois isso não teria sido tolerado, já que nos é proibido prestar qualquer honra a imagens ou representações de animais, à maneira dos gregos, mas ele fazia isso no território [propriamente] fora de nossas fronteiras e nas cidades dele. A justificativa que ele dava aos judeus para essas coisas era esta: que tudo era feito não por inclinação própria, mas por ordens e imposições de outros, a fim de agradar a César e aos romanos, como se ele não tivesse os costumes judaicos tanto em vista quanto a honra daqueles romanos, enquanto na verdade ele tinha a si mesmo inteiramente em vista o tempo todo. E de fato era muito ambicioso em deixar grandes monumentos de seu governo à posteridade. Daí ser tão zeloso em construir cidades tão belas e gastar somas tão imensas de dinheiro com elas.
Ao observar um lugar perto do mar, muito apropriado para abrigar uma cidade, e que antes se chamava Torre de Estratão, ele tratou de obter um projeto para uma cidade magnífica ali e ergueu muitos edifícios com grande diligência por toda ela, e isso em pedra branca. Adornou-a também com palácios suntuosos e grandes edifícios para abrigar a população, e o que foi a maior e mais trabalhosa obra de todas, adornou-a com um porto que ficava sempre livre das ondas do mar. Seu tamanho não era menor que o do Pireu [em Atenas], e tinha, voltada para a cidade, uma dupla estação para os navios. Era de excelente acabamento, e isso era ainda mais notável por ter sido construído num lugar que por si só não era adequado a estruturas tão nobres, mas precisava ser levado à perfeição com materiais de outros lugares e a custos altíssimos. Essa cidade fica na Fenícia, na passagem por mar para o Egito, entre Jope e Dora, que são cidades marítimas menores e não adequadas a portos, por causa dos impetuosos ventos sul que batem nelas, os quais, rolando contra a costa as areias que vêm do mar, não permitem que os navios fiquem ancorados em sua estação, de modo que os mercadores em geral são forçados a ficar ancorados ali no próprio mar aberto. Então Herodes tentou corrigir esse inconveniente e demarcou um espaço em direção à terra que fosse suficiente para um porto onde os grandes navios pudessem ficar em segurança. E isso ele conseguiu lançando pedras enormes, de mais de cinquenta pés de comprimento, não menos de dezoito de largura e nove de profundidade, em águas de vinte braças, e algumas eram menores, enquanto outras eram maiores que essas dimensões. Esse molhe que ele construiu à beira do mar tinha duzentos pés de largura, e metade dele estava voltada contra a corrente das ondas, de modo a deter as ondas que iriam quebrar sobre ele, e por isso foi chamado de Procimácia, ou o primeiro quebrador das ondas. Mas a outra metade tinha sobre ela um muro, com várias torres, a maior das quais se chamava Druso, obra de grande excelência, que recebeu esse nome de Druso, genro de César, que morreu jovem. Havia também grande número de arcos onde os marinheiros moravam. Diante deles havia ainda um cais [ou ancoradouro] que dava a volta em todo o porto e era um passeio muito agradável para quem desejava esse exercício. Mas a entrada ou boca do porto foi feita do lado norte, lado de onde vinha o mais calmo de todos os ventos daquele lugar. E a base de todo o contorno, à esquerda de quem entra no porto, sustentava uma torre redonda, feita muito forte a fim de resistir às maiores ondas, enquanto à direita de quem entra estavam duas pedras enormes, cada uma delas maior que a torre que ficava à sua frente. Elas estavam de pé e unidas uma à outra. Havia edifícios ao longo de todo o porto circular, feitos da pedra mais refinada, com certa elevação sobre a qual se erguia um templo, que era visto de longe por quem navegava rumo àquele porto, e que tinha em seu interior duas estátuas, uma de Roma e outra de César. A própria cidade foi chamada de Cesareia, e ela mesma também foi construída com bons materiais e tinha uma bela estrutura. Aliás, até os subterrâneos e os porões abobadados receberam não menos arquitetura que a construção acima do solo. Alguns desses subterrâneos levavam as coisas, a distâncias regulares, até o porto e até o mar, mas um deles corria de forma oblíqua e ligava todos os demais, de modo que tanto a chuva quanto a sujeira dos cidadãos eram levadas embora com facilidade, e o próprio mar, com o fluxo da maré de fora, entrava na cidade e a lavava toda. Herodes também construiu ali um teatro de pedra e, no lado sul, atrás do porto, um anfiteatro, capaz de comportar um grande número de pessoas e convenientemente situado para uma vista do mar. Assim, essa cidade foi concluída em doze anos, tempo durante o qual o rei não deixou de prosseguir com a obra nem de arcar com as despesas necessárias.