Antiguidades Judaicas - Livro XV 6

Livro XV: Herodes, Mariane e o novo Templo

Como Herodes matou Hircano e depois se apressou a ir ao encontro de César e dele obteve também o reino. E como, pouco tempo depois, recebeu César do modo mais honroso.

Os demais assuntos de Herodes iam muito bem, e ele não podia ser atacado com facilidade por nenhum lado. Ainda assim, surgiu para ele um perigo capaz de pôr em risco todo o seu domínio, depois que Marco Antônio foi derrotado na batalha de Áccio por César [Otávio]. Naquele momento, tanto os inimigos quanto os amigos de Herodes ficaram sem esperança quanto à situação dele, pois não era provável que ficasse sem castigo alguém que demonstrara tamanha amizade por Marco Antônio. Assim aconteceu que seus amigos se desesperaram e não tinham nenhuma esperança de que ele escapasse. os inimigos, todos fingiam por fora estar preocupados com o caso dele, mas por dentro se alegravam muito, na esperança de obter uma mudança para melhor. Quanto a Herodes, ele via que não restava ninguém de dignidade real a não ser Hircano, e por isso julgou que seria vantajoso não permitir que ele continuasse a ser um obstáculo no seu caminho. Pois, caso ele próprio sobrevivesse e escapasse do perigo em que estava, achava mais seguro tirar de tal homem qualquer poder de tramar algo contra ele em momentos críticos como aquele, que Hircano era mais digno do reino do que ele mesmo. E, caso ele viesse a ser morto por César, a inveja o levava a querer matar antes aquele que, de outro modo, reinaria depois dele.
Enquanto Herodes pensava nessas coisas, surgiu uma certa oportunidade. Hircano tinha um temperamento tão pacato, tanto então quanto em outras ocasiões, que não desejava se meter em assuntos públicos nem se envolver com mudanças políticas, mas deixava tudo entregue à sorte e se contentava com o que ela lhe oferecia. Sua filha Alexandra, no entanto, era amante de conflitos e tinha enorme desejo de mudar o governo. Ela dizia ao pai que não suportasse para sempre o tratamento injurioso de Herodes contra a família, mas que se antecipasse para garantir suas esperanças futuras enquanto ainda podia fazê-lo com segurança. Pediu que ele escrevesse sobre esses assuntos a Malco, que era então governador da Arábia, para que os recebesse e os protegesse [de Herodes]. Pois, se partissem e os negócios de Herodes acabassem indo mal, como era provável que fosse por causa da inimizade de César contra ele, eles seriam então as únicas pessoas capazes de assumir o governo, tanto por pertencerem à família real quanto pela boa disposição do povo para com eles. Enquanto ela usava esses argumentos, Hircano adiava o pedido. Mas, como ela se mostrava mulher, e mulher dada a brigas, e não desistia nem de dia nem de noite, falando sempre com ele sobre esses assuntos e sobre os planos traiçoeiros de Herodes, acabou por convencê-lo a confiar a Dositeu, um de seus amigos, uma carta na qual declarava sua decisão. Nela, ele pedia ao governador árabe que lhe enviasse alguns cavaleiros para recebê-lo e conduzi-lo até o lago Asfaltite, que fica a trezentos estádios das fronteiras de Jerusalém. Confiou essa carta a Dositeu porque este o servia com dedicação, a ele e a Alexandra, e tinha não poucos motivos para guardar rancor de Herodes. Dositeu era parente de um certo José, que Herodes mandara matar, e irmão dos que antes haviam sido mortos em Tiro por Marco Antônio. Ainda assim, esses motivos não conseguiram levar Dositeu a servir Hircano nesse plano. Preferindo as esperanças que tinha do rei atual às que tinha de Hircano, ele entregou a carta a Herodes. Herodes aceitou de bom grado essa gentileza e ainda lhe pediu que fizesse o que havia começado, ou seja, continuasse a servi-lo: enrolasse a carta de novo, voltasse a selá-la e a entregasse a Malco, e depois trouxesse de volta a carta de resposta, pois seria muito melhor se ele pudesse conhecer também as intenções de Malco. Como Dositeu estava bem disposto a servi-lo também nesse ponto, o governador árabe respondeu que receberia Hircano e todos os que viessem com ele, e até todos os judeus que fossem do partido dele; que, além disso, enviaria tropas suficientes para protegê-los na viagem, e que nada lhe faltaria do que desejasse. Assim que Herodes recebeu essa carta, mandou chamar Hircano imediatamente e o interrogou sobre o acordo que fizera com Malco. Quando Hircano negou, Herodes mostrou a carta ao Sinédrio e mandou executá-lo na hora.
Damos esse relato ao leitor tal como consta nos comentários do rei Herodes. Mas outros historiadores não concordam com eles, pois supõem que Herodes não encontrou, mas antes fabricou esse pretexto para matá-lo, armando-lhe traiçoeiramente uma cilada. Eles escrevem o seguinte: que Herodes e Hircano estavam certa vez num banquete, e que Herodes não dera nenhum motivo para se suspeitar [de que estivesse irritado com ele], mas fez a Hircano esta pergunta: se ele havia recebido alguma carta de Malco. Hircano respondeu que recebera cartas, mas apenas de saudação. Quando Herodes perguntou ainda se ele não recebera nenhum presente de Malco, Hircano respondeu que recebera apenas quatro cavalos de montaria que Malco lhe enviara. Eles alegam que Herodes lhe imputou isso como crimes de suborno e traição, e deu ordem para que o levassem embora e o matassem. E, para demonstrar que ele não cometera ofensa alguma quando foi morto desse modo, esses historiadores lembram como seu temperamento sempre fora brando, e que mesmo na juventude ele nunca dera nenhuma mostra de ousadia ou imprudência, e que foi assim também quando chegou a ser rei, deixando que Antípater administrasse a maior parte dos assuntos públicos. Lembram ainda que ele tinha mais de oitenta anos e sabia que o governo de Herodes estava em situação segura. Hircano também atravessara o Eufrates e deixara para trás os que muito o honravam além daquele rio, embora fosse ficar inteiramente sob o governo de Herodes. Era algo totalmente inacreditável que ele empreendesse qualquer mudança política, e nada compatível com seu temperamento, mas tudo aquilo foi uma trama urdida por Herodes.
Esse foi o destino de Hircano, e assim ele encerrou a vida, depois de ter passado por reviravoltas variadas e múltiplas ao longo de sua existência. Ele foi feito sumo sacerdote da nação judaica no início do reinado de sua mãe Alexandra, que governou nove anos. Quando, após a morte da mãe, ele próprio assumiu o reino e o manteve por três meses, perdeu-o por causa de seu irmão Aristóbulo. Foi então restabelecido por Pompeu, recebeu dele toda sorte de honras e as desfrutou por quarenta anos. Mas, quando foi de novo destituído por Antígono e mutilado no corpo, foi feito cativo pelos partos. De voltou para casa algum tempo depois, por causa das esperanças que Herodes lhe dera. Nada disso se realizou conforme suas expectativas, e ele continuou a enfrentar muitos infortúnios ao longo de toda a vida. E, o que foi a mais pesada de todas as calamidades, como relatamos, teve um fim que não merecia. Seu caráter parecia ser o de um homem de disposição branda e moderada, e ele deixava que a administração dos assuntos fosse em geral conduzida por outros sob suas ordens. Era avesso a se meter muito nos assuntos públicos e não tinha sagacidade suficiente para governar um reino. Tanto Antípater quanto Herodes chegaram à grandeza por causa da brandura dele, e no fim ele teve, por parte deles, um destino que não estava de acordo nem com a justiça nem com a piedade.
Logo que tirou Hircano do caminho, Herodes apressou-se a ir ao encontro de César. E, como não podia ter esperança alguma de bondade da parte dele por causa da amizade que tivera com Marco Antônio, suspeitou de Alexandra, com receio de que ela aproveitasse a ocasião para levar o povo à revolta e provocar uma sedição nos assuntos do reino. Por isso confiou o cuidado de tudo a seu irmão Feroras e instalou sua mãe Cipros, sua irmã [Salomé] e toda a família em Masada, dando-lhe a ordem de que, se ouvisse alguma notícia triste a seu respeito, cuidasse do governo. Quanto a sua esposa Mariane, por causa do desentendimento entre ela e a irmã de Herodes e a mãe dessa irmã, que tornava impossível viverem juntas, ele a instalou em Alexandrium, com sua mãe Alexandra, e deixou seu tesoureiro José e Soemo de Itureia encarregados de cuidar daquela fortaleza. Esses dois lhe haviam sido muito fiéis desde o início e foram então deixados como guarda das mulheres. Tinham também a incumbência de que, se ouvissem que algum mal lhe acontecera, matassem as duas e, na medida do possível, preservassem o reino para os filhos dele e para seu irmão Feroras.
Depois de lhes dar essa incumbência, apressou-se a ir a Rodes, ao encontro de César. Ao chegar de navio àquela cidade, tirou o diadema, mas não abriu mão de nenhum outro aspecto de sua dignidade habitual. E quando, no encontro, pediu permissão para falar com ele, deu ali uma demonstração ainda mais nobre de grandeza de alma. Pois não recorreu a súplicas, como os homens costumam fazer em tais ocasiões, nem lhe apresentou nenhuma petição, como se fosse um culpado, mas, de modo destemido, prestou contas do que havia feito. Falou assim a César: que tivera a maior amizade por Marco Antônio e fizera tudo o que pôde para que ele alcançasse o governo. Que de fato não estivera no exército com ele, porque os árabes o haviam desviado, mas que lhe enviara dinheiro e trigo, o que era ainda pouco em comparação com o que deveria ter feito por ele. Pois, se um homem se reconhece amigo de outro e o sabe seu benfeitor, é obrigado a arriscar tudo, a usar toda faculdade de sua alma, todo membro de seu corpo e toda a riqueza que possui por ele. "Nisso confesso que fui demasiado deficiente. No entanto, tenho consciência de que ao menos nisto agi corretamente: não o abandonei na derrota de Áccio, nem, diante da evidente mudança de sua fortuna, transferi minhas esperanças dele para outro, mas me mantive, se não como um valoroso companheiro de armas, ao menos como um conselheiro fiel a Marco Antônio, quando lhe demonstrei que o único modo de salvar a si mesmo e de não perder toda a sua autoridade era matar Cleópatra. Pois, uma vez morta ela, haveria espaço para ele conservar sua autoridade e, antes, levar você a um acordo com ele do que continuar inimigo por mais tempo. Ele não deu ouvidos a nenhum desses conselhos, mas preferiu suas próprias decisões precipitadas, que acabaram sendo desvantajosas para ele, mas vantajosas para você. Agora, portanto, caso você decida a meu respeito e quanto ao meu empenho em servir Marco Antônio segundo a ira que sente contra ele, reconheço que não tenho como negar o que fiz, nem terei vergonha de admitir, e publicamente, que tive grande afeição por ele. Mas, se você deixar o caso dele de lado e examinar apenas como me comporto com meus benfeitores em geral e que tipo de amigo eu sou, descobrirá pela experiência que faremos e seremos o mesmo para você. Pois basta trocar os nomes, e a firmeza da amizade que teremos por você não será desaprovada por você."
Com esse discurso e com seu comportamento, que mostrou a César a franqueza de sua mente, Herodes conquistou-o muito, pois César era ele próprio de temperamento generoso e magnânimo, a ponto de aquelas mesmas ações que serviam de base às acusações contra ele lhe renderem o favor de César. Assim, César devolveu-lhe o diadema e o encorajou a se mostrar tão grande amigo dele quanto fora de Marco Antônio, e passou a tê-lo em alta estima. Acrescentou ainda que Quinto Dídio lhe escrevera dizendo que Herodes o havia auxiliado de muito boa vontade no caso dos gladiadores. Depois de obter uma recepção tão amistosa e de conseguir, além de todas as suas esperanças, que sua coroa lhe fosse confirmada de modo mais pleno e firme do que nunca, tanto pela concessão de César quanto por aquele decreto dos romanos que César cuidou de obter para sua maior segurança, Herodes acompanhou César a caminho do Egito e fez presentes, até acima de suas posses, tanto a ele quanto a seus amigos, e em geral comportou-se com grande magnanimidade. Pediu também que César não mandasse executar um certo Alexandre, que fora companheiro de Marco Antônio, mas César havia jurado matá-lo, e por isso não pôde atender a esse pedido. Herodes então voltou à Judeia com maior honra e segurança do que nunca, e assustou os que esperavam o contrário, pois das próprias situações de perigo ele sempre adquiria mais esplendor do que antes, pelo favor de Deus para com ele. Assim, preparou-se para receber César, quando este saía da Síria para invadir o Egito. E, quando César chegou, Herodes o recebeu em Ptolemaida com toda a magnificência real. Distribuiu presentes ao exército e lhe trouxe mantimentos em abundância. Provou ser também um dos amigos mais sinceros de César: pôs o exército em formação, cavalgou ao lado de César e dispôs cento e cinquenta homens, bem equipados em todos os aspectos, de modo rico e suntuoso, para melhor recepção dele e de seus amigos. Providenciou também para eles o que precisariam ao atravessar o deserto árido, de modo que não lhes faltou nem vinho nem água, da qual os soldados tinham a maior necessidade. Além disso, presenteou César com oitocentos talentos e conquistou a boa vontade de todos eles, porque os auxiliava em grau muito maior e mais esplêndido do que o reino que possuía poderia permitir. Com isso, demonstrou cada vez mais a César a firmeza de sua amizade e sua prontidão em ajudá-lo. E o que lhe foi de maior vantagem foi que sua generosidade veio também em momento oportuno. E, quando voltaram de novo do Egito, suas ajudas não foram em nada inferiores aos bons serviços que antes lhes prestara.