Antiguidades Judaicas - Livro XV 8

Livro XV: Herodes, Mariane e o novo Templo

Como dez cidadãos [de Jerusalém] tramaram uma conspiração contra Herodes, por causa dos costumes estrangeiros que ele havia introduzido, o que era uma transgressão das leis de seu país. Sobre a construção de Sebaste e Cesareia e outras edificações de Herodes.

Foi por essa razão que Herodes se afastou das leis de seu país e corrompeu a antiga constituição ao introduzir costumes estrangeiros, embora essa constituição devesse ter sido preservada inviolável. Por causa disso, tornamo-nos culpados de grande maldade depois, enquanto as observâncias religiosas que costumavam levar o povo à piedade passaram a ser negligenciadas. Em primeiro lugar, ele instituiu jogos solenes para serem celebrados a cada cinco anos, em honra a César, e construiu um teatro em Jerusalém, bem como um anfiteatro enorme na planície. Ambas eram de fato obras dispendiosas, mas contrárias aos costumes judaicos. Não recebemos da tradição espetáculos desse tipo como apropriados para serem praticados ou exibidos por nós. Ainda assim, ele celebrava esses jogos a cada cinco anos, da maneira mais solene e esplêndida. Ele também enviou proclamações às regiões vizinhas e reuniu homens de toda nação. Os lutadores e os demais que disputavam os prêmios nesse tipo de jogos foram convidados de toda parte, tanto pela esperança das recompensas que seriam concedidas quanto pela glória da vitória que ali poderia ser conquistada. Assim, juntaram-se as figuras mais destacadas nesse gênero de competições, pois havia prêmios muito grandes oferecidos pela vitória, não para os que faziam seus exercícios nus, mas também para os que se apresentavam como músicos, chamados timélicos. E ele não poupou esforços para induzir todas as pessoas mais célebres nesse tipo de exercício a virem a essa disputa pela vitória. Ofereceu também recompensas nada modestas aos que corriam pelos prêmios nas corridas de carros, fossem eles puxados por quatro, três ou dois pares de cavalos. Ele imitava tudo o que houvesse de mais dispendioso ou magnífico em outras nações, movido pela ambição de dar a mais pública demonstração de sua grandeza. Inscrições dos grandes feitos de César, troféus das nações que ele havia conquistado em suas guerras, tudo feito do ouro e da prata mais puros, cercavam o próprio teatro. Não havia nada que pudesse servir a seu propósito, fossem vestes preciosas ou pedras preciosas dispostas em ordem, que não fosse igualmente exibido nesses jogos. Ele havia também preparado uma grande quantidade de feras selvagens, leões em abundância e outros animais de força incomum ou raramente vistos. Esses eram preparados ou para lutar entre si ou para enfrentar homens condenados à morte. Os estrangeiros de fato ficavam muito surpresos e encantados com a enormidade das despesas ali exibidas e com os grandes perigos que ali se viam. Mas para os judeus de nascimento isso não passava de uma dissolução dos costumes que tanto veneravam. Parecia também não passar de um exemplo de impiedade descarada lançar homens às feras para deleite dos espectadores. E parecia um exemplo de impiedade não menor mudar as próprias leis por causa de exercícios estrangeiros. Mas, acima de tudo, foram os troféus que mais desagradaram os judeus, pois, ao imaginarem que se tratava de imagens escondidas dentro das armaduras que pendiam ao redor deles, ficaram profundamente descontentes, porque não era costume de seu país prestar honras a imagens desse tipo.
Herodes não ignorava a perturbação em que se encontravam. E, como achou inoportuno usar de violência com eles, falou a alguns deles em tom de consolação, a fim de livrá-los daquele temor supersticioso. Mesmo assim, não conseguiu satisfazê-los, e eles gritaram em uníssono, num grande mal-estar pelas ofensas que julgavam ter ele cometido, dizendo que, embora pudessem pensar em suportar todo o resto, jamais tolerariam imagens de homens em sua cidade, referindo-se aos troféus, pois isso contrariava as leis de seu país. Quando Herodes os viu naquela agitação e percebeu que não mudariam facilmente de resolução a menos que recebessem satisfação nesse ponto, chamou os homens mais eminentes entre eles, levou-os ao teatro, mostrou-lhes os troféus e perguntou que tipo de coisa eles julgavam que aqueles troféus fossem. E quando gritaram que eram imagens de homens, ele ordenou que fossem despojados dos ornamentos exteriores que os cobriam e mostrou-lhes os pedaços de madeira nus. Esses pedaços de madeira, agora sem qualquer ornamento, tornaram-se motivo de grande divertimento e riso para eles, porque antes sempre haviam considerado risíveis os próprios ornamentos das imagens.
Tendo Herodes assim se livrado da multidão e dissipado a intensidade da paixão que os dominava, a maior parte do povo se dispôs a mudar de atitude e a não ficar mais descontente com ele. Ainda assim, alguns deles continuaram em seu desagrado contra ele, por causa da introdução de novos costumes, e consideravam a violação das leis de seu país como provável origem de grandes males para eles. Por isso julgavam ser mais um ato de piedade arriscar-se [a serem mortos] do que parecer que não davam importância a Herodes, que, com a mudança que fizera em seu governo, introduzira tais costumes, e isso de modo violento, costumes a que nunca antes haviam se acostumado. De fato, ele era na aparência um rei, mas na realidade alguém que se mostrava inimigo de toda a sua nação. Por essa razão, dez homens, cidadãos [de Jerusalém], conspiraram juntos contra ele e juraram uns aos outros enfrentar quaisquer perigos na empreitada, e levaram punhais sob as vestes [com o propósito de matar Herodes]. Havia entre esses conspiradores, que assim haviam jurado uns aos outros, um certo homem cego, movido pela indignação que sentia pelo que ouvira ter sido feito. Ele de fato não era capaz de prestar grande ajuda aos demais nessa empreitada, mas estava pronto a enfrentar qualquer sofrimento com eles, caso viessem a sofrer algum mal. A tal ponto que se tornou um grande encorajador dos demais participantes.
Quando tomaram essa resolução, e isso por consenso comum, foram ao teatro, esperando que, em primeiro lugar, o próprio Herodes não conseguisse escapar deles, que o atacariam tão de surpresa, e supondo, ainda, que, se errassem o golpe contra ele, matariam muitos dos que estavam ao seu redor. E tomaram essa resolução, mesmo que tivessem de morrer por ela, a fim de mostrar ao rei quantos males havia causado ao povo. Esses conspiradores, portanto, assim preparados de antemão, foram cumprir seu plano com grande entusiasmo. Mas havia um dos espiões de Herodes, designados para esse tipo de tarefa, para farejar e informá-lo de quaisquer conspirações que se tramassem contra ele, que descobriu todo o caso e contou ao rei, quando ele estava prestes a entrar no teatro. Então, ao refletir sobre o ódio que sabia ser nutrido contra ele pela maior parte do povo e sobre as perturbações que surgiam a cada ocasião, ele considerou que esse complô contra si não era improvável. Por isso recolheu-se ao seu palácio e chamou diante de si, pelos respectivos nomes, os acusados dessa conspiração. E como, ao cair sobre eles a guarda, foram apanhados em flagrante e perceberam que não podiam escapar, prepararam-se para o fim com toda a dignidade possível, de modo a não recuar em nada de sua conduta resoluta. Pois não mostraram vergonha do que faziam, nem o negaram, mas, ao serem detidos, exibiram seus punhais e declararam que "a conspiração que haviam jurado era um ato santo e piedoso; que o que pretendiam fazer não era por ganho, nem por qualquer condescendência com suas paixões, mas principalmente pelos costumes comuns de seu país, que todos os judeus eram obrigados a observar, ou a morrer por eles". Foi isso que esses homens disseram, com a coragem destemida que tinham nessa conspiração. Então foram levados à execução pelos guardas do rei, que os cercavam, e suportaram pacientemente todos os tormentos que lhes infligiram, até morrerem. E não demorou muito para que o espião que os havia descoberto fosse capturado por algumas pessoas, pelo ódio que lhe tinham, e não foi morto por elas, mas despedaçado membro a membro e atirado aos cães. Essa execução foi vista por muitos dos cidadãos. Ainda assim, nenhum deles denunciou os autores, até que, ao fazer Herodes uma busca rigorosa atrás deles, por meio de torturas amargas e severas, certas mulheres que foram torturadas confessaram o que tinham visto fazer. Os autores desse ato foram tão terrivelmente punidos pelo rei que suas famílias inteiras foram destruídas, por causa dessa tentativa temerária. Mesmo assim, a obstinação do povo e a constância destemida que mostraram na defesa de suas leis não tornaram Herodes mais brando com eles, mas ele continuou a se fortalecer de modo ainda mais seguro e resolveu cercar a multidão por todos os lados, para que tais inovações não terminassem em rebelião aberta.
Como agora tinha a cidade fortificada pelo palácio em que morava e pelo templo, que tinha junto de si uma forte fortaleza chamada Antônia, reconstruída por ele mesmo, planejou fazer de Samaria também uma fortaleza para si contra todo o povo, e a chamou de Sebaste, supondo que esse lugar seria um baluarte contra a região, não inferior ao primeiro. Assim, fortificou aquele lugar, que ficava a um dia de viagem de Jerusalém, e que portanto lhe seria conveniente para manter sob controle tanto a região quanto a cidade. Ele construiu também outra fortaleza para toda a nação. Antigamente chamava-se Torre de Estratão, mas foi por ele nomeada Cesareia. Além disso, escolheu alguns cavaleiros seletos, instalou-os na grande planície e construiu [para eles] um lugar na Galileia, chamado Gaba, com Hesebonitis na Pereia. E foram esses os lugares que ele em particular construiu, enquanto sempre inventava algo mais para a sua própria segurança e cercava toda a nação com guardas, para que de modo algum escapassem de seu poder nem caíssem em tumultos, o que faziam continuamente a qualquer pequena agitação, e para que, se provocassem qualquer agitação, ele soubesse disso, que alguns de seus espiões estariam sobre eles a partir da vizinhança e seriam capazes tanto de saber o que tramavam quanto de impedi-lo. E quando ele se pôs a construir o muro de Samaria, planejou levar para muitos dos que o haviam auxiliado em suas guerras e muitos também do povo daquela vizinhança, a quem tornou concidadãos dos demais. Isso ele fez por um desejo ambicioso de construir um templo e pelo desejo de tornar a cidade mais notável do que era antes, mas principalmente porque planejou que ela ao mesmo tempo servisse para a sua própria segurança e fosse um monumento de sua magnificência. Ele também mudou o nome dela e a chamou de Sebaste. Além disso, repartiu entre os habitantes de Samaria a região vizinha, que era excelente em sua qualidade, para que estivessem em condição feliz logo na sua chegada para morar ali. Além de tudo isso, cercou a cidade com um muro de grande resistência e aproveitou a inclinação do terreno para tornar suas fortificações mais fortes. Tampouco a extensão do lugar foi feita agora tão reduzida como antes, mas foi tal que não a deixava inferior às cidades mais famosas, pois tinha vinte estádios de circunferência. Dentro dela, mais ou menos no meio, ele construiu um lugar sagrado de um estádio e meio [de circuito] e o adornou com todo tipo de decoração, e ali erigiu um templo, que era ilustre tanto por seu tamanho quanto por sua beleza. E quanto às várias partes da cidade, adornou-as também com decorações de todo tipo. E quanto ao que era necessário para prover a sua própria segurança, fez os muros muito fortes para esse fim e a transformou, em sua maior parte, numa cidadela. E quanto à elegância das edificações, também cuidou disso, para deixar às gerações futuras monumentos do refinamento de seu gosto e de sua generosidade.