Antiguidades Judaicas - Livro XV 10
Livro XV: Herodes, Mariane e o novo Templo
Como Herodes enviou os filhos a Roma; como também foi acusado por Zenodoro e pelos gadarenos, mas foi inocentado das acusações e ainda conquistou a boa vontade de César. A respeito dos fariseus, dos essênios e de Mênaem.
Enquanto Herodes estava ocupado com esses assuntos, e depois de já ter reconstruído Sebaste [Samaria], decidiu enviar os filhos Alexandre e Aristóbulo a Roma, para que desfrutassem da companhia de César. Ao chegarem lá, hospedaram-se na casa de Pólio, que tinha grande apreço pela amizade de Herodes. Também receberam permissão para se hospedar no próprio palácio de César, pois ele acolheu esses filhos de Herodes com toda a cortesia e concedeu a Herodes liberdade para entregar o reino ao filho que preferisse. Além de tudo isso, presenteou-o com Tracon, Bataneia e Auranítis. Concedeu-lhe essas regiões pela seguinte razão. Certo Zenodoro havia arrendado o que se chamava a propriedade de Lisânias. Como não se contentava com as rendas dela, associou-se aos salteadores que habitavam os Tracones e assim obteve uma renda maior. Os habitantes daquelas regiões viviam de modo desvairado e saqueavam o território dos damascenos, enquanto Zenodoro não os refreava, mas participava do espólio que eles conseguiam. Como os povos vizinhos sofriam muito com isso, queixaram-se a Varrão, que era então governador [da Síria], e pediram que ele escrevesse a César sobre essa injustiça de Zenodoro. Quando esses fatos foram apresentados a César, ele respondeu a Varrão por escrito, ordenando que destruísse aqueles ninhos de salteadores e entregasse a terra a Herodes, para que, sob o cuidado dele, os territórios vizinhos não fossem mais perturbados por esses atos dos traconitas. Refreá-los não era tarefa fácil, pois esse modo de viver do roubo já era prática habitual deles, e não tinham outra forma de sustento, porque não possuíam cidade própria nem terras, apenas alguns abrigos e tocas escavados na terra, onde viviam juntos com o gado. Mesmo assim, haviam criado meios de obter reservatórios de água e armazenavam trigo em celeiros para si, e eram capazes de grande resistência, lançando-se de repente contra qualquer um que os atacasse. As entradas das cavernas eram estreitas, de modo que só uma pessoa podia passar de cada vez, mas os espaços internos eram incrivelmente amplos e muito largos. O terreno acima das habitações não era muito elevado, mas plano, enquanto as rochas eram totalmente duras e difíceis de transpor, a menos que alguém entrasse pela trilha aberta sob a orientação de outra pessoa. Essas trilhas não eram retas, mas tinham várias curvas. E quando esses homens ficam impedidos de saquear de forma criminosa os vizinhos, o costume deles é saquear uns aos outros, de modo que nenhum tipo de injustiça lhes parece estranho. Mas, depois que Herodes recebeu essa concessão de César e chegou àquela região, conseguiu guias experientes, pôs fim àqueles roubos criminosos e garantiu paz e tranquilidade aos povos vizinhos.
Diante disso, Zenodoro ficou aflito, em primeiro lugar porque seu principado lhe fora tirado, e ainda mais porque tinha inveja de Herodes, que o obtivera. Por isso foi a Roma para acusá-lo, mas voltou sem sucesso. Por essa época, Agripa foi enviado para suceder a César no governo das regiões além do mar Jônio. Herodes o encontrou quando passava o inverno perto de Mitilene, pois Agripa era seu amigo e companheiro próximo, e então retornou de novo à Judeia. No entanto, alguns dos gadarenos foram a Agripa e acusaram Herodes. Mas Agripa mandou que fossem devolvidos acorrentados ao rei, sem lhes dar audiência. Mas os árabes, que de longa data nutriam má vontade contra o governo de Herodes, ficaram irritados e naquele momento tentaram provocar uma revolta nos domínios dele, e, como pensavam, com motivo mais justificável. Pois Zenodoro, já desesperando do sucesso de seus próprios assuntos, antecipou-se [aos inimigos] vendendo a esses árabes uma parte de seu principado, chamada Auranítis, pelo valor de cinquenta talentos. Mas, como essa região estava incluída na doação de César, eles disputaram a questão com Herodes, alegando ter sido injustamente privados do que haviam comprado. Faziam isso ora promovendo incursões contra ele, ora tentando o uso da força contra ele, ora movendo processos contra ele. Além disso, persuadiram os soldados mais pobres a ajudá-los e perturbavam Herodes, na esperança constante de levar o povo a uma revolta. Nesses planos, os que vivem nas condições mais miseráveis são sempre os mais empenhados. E, embora Herodes há muito estivesse a par dessas tentativas, não usou de nenhuma severidade contra eles, mas, por meios racionais, procurou amenizar a situação, pois não queria dar pretexto para tumultos.
Quando Herodes já reinava havia dezessete anos, César veio à Síria. Nessa ocasião, a maior parte dos habitantes de Gadara clamou contra Herodes, acusando-o de ser severo em suas ordens e tirânico. Eles ousaram essas críticas sobretudo por incentivo de Zenodoro, que jurou nunca abandonar Herodes até conseguir que os gadarenos fossem separados do reino de Herodes e anexados à província de César. Os gadarenos foram induzidos por isso e ergueram grande clamor contra ele, e com tanto mais ousadia porque aqueles que haviam sido entregues por Agripa não tinham sido punidos por Herodes, que os soltou e não lhes fez mal algum. De fato, ele era o homem mais conhecido do mundo por se mostrar quase inflexível ao punir crimes na própria família, mas muito generoso ao perdoar as ofensas cometidas em outros lugares. E, enquanto o acusavam de injúrias, saques e destruição de templos, Herodes permanecia tranquilo e pronto para se defender. Mas César estendeu a mão direita a ele e não diminuiu em nada sua afeição por ele, apesar dessa agitação da multidão. Essas acusações foram apresentadas no primeiro dia, mas a audiência não prosseguiu além disso. Pois, quando os gadarenos perceberam a inclinação de César e de seus assessores, e esperavam, como tinham razão para esperar, que seriam entregues ao rei, alguns deles, por temor dos tormentos que poderiam sofrer, cortaram a própria garganta durante a noite; outros se atiraram de precipícios; e outros se lançaram no rio e se mataram por vontade própria. Esses acontecimentos pareceram condenação suficiente da imprudência e dos crimes de que eram culpados. Diante disso, César não demorou mais e inocentou Herodes dos crimes de que era acusado. Houve ainda outro acontecimento feliz, que trouxe a Herodes nova grande vantagem nesse momento. Pois o ventre de Zenodoro se rompeu, e durante a doença saiu dele grande quantidade de sangue, e assim ele faleceu em Antioquia da Síria. Então César concedeu o território dele, que não era pequeno, a Herodes. Ficava entre Tracon e a Galileia e abrangia Ulata, Paneas e a região ao redor. César também o nomeou um dos procuradores da Síria e ordenou que tudo fosse feito com a aprovação dele. Em suma, Herodes alcançou tal grau de felicidade que, ao passo que havia apenas dois homens governando o vasto império romano, primeiro César e depois Agripa, que era seu principal favorito, César não preferia ninguém a Herodes, exceto Agripa, e Agripa não tinha amigo maior que Herodes, exceto César. E, tendo conquistado tamanha liberdade, Herodes pediu a César uma tetrarquia para seu irmão Feroras, e ele próprio lhe destinou uma renda de cem talentos, retirada de seu próprio reino, para que, caso lhe acontecesse algum mal, o irmão estivesse seguro e seus filhos não tivessem domínio sobre ele. Assim, depois de acompanhar César até o mar e ter voltado para casa, Herodes lhe construiu um templo belíssimo, da pedra mais branca, no território de Zenodoro, perto do lugar chamado Pânio. Trata-se de uma caverna muito bonita, numa montanha, sob a qual há uma grande cavidade na terra; a caverna é abrupta, prodigiosamente profunda e cheia de água parada. Sobre ela pende uma enorme montanha, e sob as cavernas brotam as nascentes do rio Jordão. Herodes embelezou ainda mais esse lugar, que já era muito notável, erguendo esse templo, que dedicou a César.
Nessa época, Herodes perdoou a seus súditos a terça parte dos impostos, sob o pretexto de aliviá-los após a fome que haviam passado, mas a razão principal era recuperar a boa vontade deles, da qual agora precisava. Pois estavam descontentes com ele por causa das inovações que introduzira em seus costumes, da dissolução de sua religião e do abandono de suas próprias tradições. E o povo em toda parte falava contra ele, como gente cada vez mais provocada e perturbada com sua conduta. Contra esse descontentamento, Herodes se precaveu bastante e suprimiu as oportunidades que poderiam ter de perturbá-lo, exigindo que estivessem sempre trabalhando. Tampouco permitia que os cidadãos se reunissem, andassem ou comessem juntos, mas vigiava tudo o que faziam, e, quando alguns eram apanhados, eram severamente punidos. E muitos foram levados à fortaleza de Hircânia, tanto abertamente quanto em segredo, e ali foram mortos. Havia espiões espalhados por toda parte, tanto na cidade quanto nas estradas, que vigiavam os que se reuniam. E consta que ele próprio não descuidava dessa precaução, mas muitas vezes vestia roupas de homem comum e se misturava à multidão durante a noite, para descobrir que opinião tinham de seu governo. E, quanto àqueles que de modo algum se deixavam conduzir a aceitar seu sistema de governo, ele os perseguia por todos os meios. Quanto ao restante da multidão, exigia que fossem obrigados a fazer um juramento de fidelidade a ele e, ao mesmo tempo, os forçava a jurar que lhe teriam boa vontade e que certamente continuariam assim em sua administração do governo. E, de fato, grande parte deles, fosse para agradá-lo, fosse por medo dele, cedeu ao que ele exigia. Mas, quanto aos de índole mais franca e generosa, que se indignavam com a coação que ele usava contra eles, ele os eliminava por um meio ou outro. Tentou também persuadir Pólio, o fariseu, e Sameas, e a maior parte de seus discípulos a fazer o juramento. Mas estes não se submeteram a isso, nem foram punidos junto com os demais, por causa do respeito que ele tinha por Pólio. Os essênios também, como chamamos uma seita nossa, foram dispensados dessa imposição. Esses homens levam o mesmo tipo de vida que aqueles a quem os gregos chamam de pitagóricos, sobre os quais falarei mais detalhadamente em outro lugar. No entanto, convém registrar aqui as razões pelas quais Herodes tinha esses essênios em tamanha honra e os considerava acima do que sua natureza mortal exigiria. E este relato não será inadequado à natureza desta história, pois mostrará a opinião que os homens tinham desses essênios.
Havia entre esses essênios um homem chamado Mênaem, que tinha a reputação não só de conduzir a vida de maneira excelente, mas também de ter recebido de Deus o conhecimento antecipado dos acontecimentos futuros. Esse homem, certa vez, viu Herodes quando ele era criança e ia para a escola, e o saudou como rei dos judeus. Mas Herodes, pensando que ele não o conhecia ou que estava brincando, lembrou-lhe que era apenas um homem comum. Mas Mênaem sorriu consigo mesmo e deu um tapa nas costas dele com a mão, e disse: "Seja como for, você será rei e começará seu reinado de modo feliz, pois Deus o considera digno disso. E lembre-se dos tapas que Mênaem lhe deu, como sinal da mudança de sua sorte. E este será o melhor raciocínio para você: que ame a justiça [para com os homens], a piedade para com Deus e a clemência para com seus cidadãos. Mas eu sei como será toda a sua conduta, que você não será assim. Pois superará todos os homens em felicidade e obterá reputação eterna, mas se esquecerá da piedade e da retidão. E esses crimes não ficarão ocultos de Deus ao fim de sua vida, quando você descobrirá que ele se lembrará deles e o punirá por isso." Naquele momento, Herodes não deu nenhuma atenção ao que Mênaem disse, pois não tinha esperança de tal ascensão. Mas, pouco depois, quando teve a fortuna de ser elevado à dignidade de rei e estava no auge de seu domínio, mandou chamar Mênaem e perguntou-lhe por quanto tempo reinaria. Mênaem não lhe disse a duração completa de seu reinado. Por isso, diante desse silêncio, Herodes perguntou-lhe ainda se reinaria dez anos ou não. Ele respondeu: "Sim, vinte anos, ou melhor, trinta anos", mas não fixou o limite exato de seu reinado. Herodes ficou satisfeito com essas respostas, estendeu a mão a Mênaem e o dispensou; e, desde então, passou a honrar todos os essênios. Achamos conveniente relatar esses fatos a nossos leitores, por mais estranhos que sejam, e declarar o que aconteceu entre nós, porque muitos desses essênios, por sua excelente virtude, foram considerados dignos desse conhecimento de revelações divinas.