Capítulos

Antiguidades Judaicas - Livro XII

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.

O Livro XII na Obra

O Livro XII cobre cerca de 170 anos, da morte de Alexandre, o Grande, e da partilha de seu império entre os generais (os diádocos) até a morte de Judas Macabeu, por volta de 160 a.C. É o período em que a Judeia passa do domínio ptolemaico do Egito ao domínio selêucida da Síria, sofre a perseguição de Antíoco IV Epifânio e reage com a revolta dos Macabeus. Aqui a narrativa de Josefo deixa de seguir a Bíblia hebraica e passa a se apoiar em fontes do judaísmo helenístico, sobretudo a Carta de Aristeias e o Primeiro Livro dos Macabeus.

Conteúdo do Livro

    Os judeus sob os Ptolomeus

  • Após a morte de Alexandre e a partilha do império entre seus generais, Ptolomeu, filho de Lago, toma Jerusalém por engano num dia de sábado e transfere muitos judeus para o Egito(Antiguidades Judaicas - Livro XII 1)
  • Ptolomeu Filadelfo manda traduzir a Lei dos judeus para o grego, liberta cativos e envia presentes ao Templo, no episódio que Josefo extrai da Carta de Aristeias (origem da tradição sobre a Septuaginta)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 2)
  • Os reis selêucidas e ptolemaicos honram a nação judaica e concedem cidadania aos judeus nas cidades que fundam, com documentos citados em apoio (Antíoco III sobre Jerusalém)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 3)
  • A disputa entre selêucidas e ptolemaicos pela Coele-Síria, a ofensa do sumo sacerdote Onias a Ptolomeu Evérgeta, e a ascensão de José, o tobíada, e de seu filho Hircano como coletores de impostos(Antiguidades Judaicas - Livro XII 4)
  • A perseguição de Antíoco Epifânio

  • As intrigas pelo sumo sacerdócio levam Antíoco IV Epifânio a tomar Jerusalém, saquear o Templo e proibir a Lei; muitos judeus apostatam e os samaritanos rebatizam o santuário do monte Gerizim como templo de Júpiter Helênio (paralelo a 1Mc 1 e 2Mc 5 e 6)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 5)
  • Matatias, filho de Asmoneu, desafia o decreto real, dá início à revolta, derrota generais de Antíoco e, ao morrer, deixa a liderança a seu filho Judas (1Mc 2)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 6)
  • As campanhas de Judas Macabeu

  • Judas derrota Apolônio e Serom, vence Lísias e Górgias, sobe a Jerusalém e purifica o Templo, instituindo a festa anual de oito dias (origem da Hanucá; 1Mc 3 e 4)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 7)
  • Judas submete povos vizinhos, Simão socorre os judeus da Galileia contra Tiro e Ptolemaida, e Judas obriga Timóteo a fugir, depois da derrota de José e Azarias (1Mc 5)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 8)
  • A morte de Antíoco Epifânio, a campanha de Antíoco V Eupátor que sitia Judas no Templo e depois faz a paz, e as figuras do sumo sacerdote Alcimo e de Onias, fundador do templo judaico em Leontópolis no Egito (1Mc 6)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 9)
  • A expedição frustrada de Báquides, a aliança de Judas com Roma, e a derrota e morte do general Nicanor, com a morte de Alcimo logo depois (1Mc 7 e 8)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 10)
  • Báquides é enviado outra vez, e Judas cai em combate lutando com coragem contra forças muito superiores (1Mc 9)(Antiguidades Judaicas - Livro XII 11)

Fontes e Método

Para este livro Josefo não reconta mais a Bíblia hebraica, que se encerrara no período persa. A primeira metade depende da Carta de Aristeias, um texto judaico-helenístico que Josefo parafraseia de perto para narrar a tradução grega da Lei. A segunda metade segue o Primeiro Livro dos Macabeus, capítulos 1 a 9, que Josefo resume e adapta para contar a perseguição de Antíoco e as campanhas de Judas. Ele intercala documentos oficiais, cartas e decretos atribuídos a reis selêucidas e ptolemaicos; a autenticidade de vários desses documentos é debatida pelos estudiosos. Josefo também usa o historiador Polibio e outras fontes gregas para o pano de fundo dos reinos helenísticos.

A Septuaginta e a Carta de Aristeias

O relato sobre a tradução da Lei no reinado de Ptolomeu II Filadelfo, no qual setenta e dois anciãos judeus traduzem o texto em Alexandria a pedido do rei, é a base da tradição cristã e judaica sobre a origem da Septuaginta. Josefo o tira quase inteiro da Carta de Aristeias, obra hoje datada de cerca do século II a.C. e atribuída por consenso a um autor judeu que se faz passar por funcionário grego da corte. Trata-se portanto de um relato legendário, não de um registro contemporâneo da tradução; seu valor está no que revela sobre como o judaísmo de Alexandria via as próprias Escrituras, não como prova documental do processo histórico.

A Revolta dos Macabeus e a Hanucá

A segunda parte do livro narra a crise sob Antíoco IV: a profanação do Templo, a proibição da Lei, a revolta iniciada por Matatias e levada adiante por Judas Macabeu, e a purificação e rededicação do Templo. Josefo associa a essa rededicação a festa anual de oito dias que veio a ser conhecida como Hanucá, que ele chama de festa das "luzes". O relato corre paralelo a 1 Macabeus 1 a 9, livro deuterocanônico aceito por católicos e ortodoxos e tido como apócrifo por judeus e protestantes. Onde 1 Macabeus e 2 Macabeus divergem nos detalhes, Josefo costuma seguir 1 Macabeus.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.

Valor Histórico e Cautelas

Para o período helenístico Josefo é uma fonte mais valiosa do que nos livros que apenas recontam a Bíblia, porque preserva material que de outro modo se perderia e porque corre em paralelo a 1 Macabeus, permitindo comparação. A leitura exige cautela com a Carta de Aristeias, que é legendária, e com os documentos régios que Josefo cita, de autenticidade discutida. Suas datas e números nem sempre coincidem com os de 1 Macabeus, e ele harmoniza e embeleza o relato segundo seu programa apologético. Ainda assim, o Livro XII é uma das principais pontes para entender a transição que produziu a dinastia asmoneia e o pano de fundo do judaísmo do período do Segundo Templo.