Ética a Nicômaco - Livro IX 6
A amizade aprofundada: o amor-próprio, a benevolência e o amigo como um outro eu
A concórdia como amizade política
A concórdia também parece ser uma relação de amizade. Por isso ela não é simplesmente ter a mesma opinião, pois isso pode acontecer até entre pessoas que nem se conhecem. E não dizemos que estão em concórdia as pessoas que pensam igual sobre qualquer assunto, como as que concordam a respeito dos corpos celestes (concordar sobre essas coisas não é uma relação de amizade). Dizemos, sim, que uma cidade está em concórdia quando os cidadãos têm a mesma opinião sobre o que é do interesse deles, escolhem as mesmas ações e fazem o que decidiram em conjunto.
É sobre coisas a fazer, portanto, que se diz que as pessoas estão em concórdia, e, dentre essas, sobre questões importantes nas quais é possível que ambas as partes, ou todas, consigam o que querem. Por exemplo, uma cidade está em concórdia quando todos os cidadãos acham que os cargos públicos devem ser eletivos, ou que se deve fazer uma aliança com Esparta, ou que Pítaco deve governá-los, numa época em que ele próprio também estava disposto a governar.
Mas quando cada uma de duas pessoas quer a coisa em questão só para si, como os dois comandantes na peça As Fenícias, elas estão em conflito. Pois não há concórdia quando cada uma das duas partes pensa na mesma coisa, seja ela qual for, e sim apenas quando pensam na mesma coisa nas mesmas mãos. Por exemplo, quando tanto o povo comum quanto os de classe melhor querem que os melhores homens governem. Só assim é que todos conseguem aquilo a que aspiram.
A concórdia parece ser, então, uma amizade política, como de fato costumam dizer que ela é, pois diz respeito a coisas que são do nosso interesse e que têm influência sobre a nossa vida.
Ora, essa concórdia se encontra entre os homens bons, pois eles estão em harmonia tanto consigo mesmos quanto uns com os outros, sendo, por assim dizer, de um só pensamento. Os desejos desses homens são firmes e não ficam à mercê de correntes contrárias como um estreito de mar, e eles querem o que é justo e o que é vantajoso, e essas são também as metas que buscam em comum.
Mas os homens maus não conseguem estar em concórdia a não ser em pequena medida, assim como não conseguem ser amigos, já que buscam ficar com mais do que a sua parte das vantagens, enquanto no trabalho e no serviço público ficam abaixo da sua parte. E cada um, querendo vantagem para si, critica o vizinho e atrapalha o seu caminho, pois, se as pessoas não cuidam disso com atenção, o bem comum logo se destrói.
O resultado é que ficam em conflito, forçando uns aos outros, mas sem disposição de fazer eles próprios o que é justo.