Ética a Nicômaco - Livro IX 7
A amizade aprofundada: o amor-próprio, a benevolência e o amigo como um outro eu
Por que quem faz o bem ama mais do que é amado
Pensa-se que quem faz o bem ama mais aqueles a quem beneficiou do que essas pessoas amam quem as tratou bem, e isso é discutido como se fosse um paradoxo.
A maioria acha que a razão é a seguinte: quem recebeu o favor fica na posição de devedor, e quem fez o favor, na de credor. E assim como, no caso dos empréstimos, os devedores preferiam que seus credores não existissem, enquanto os credores na verdade cuidam da segurança de seus devedores, do mesmo modo se imagina que quem faz o bem deseja que continuem existindo as pessoas que beneficiou, porque delas receberá gratidão, enquanto os beneficiados não têm interesse algum em retribuir.
Epicarmo talvez dissesse que as pessoas falam assim porque 'olham as coisas pelo lado ruim', mas isso combina bastante com a natureza humana, pois a maioria das pessoas é esquecida e se preocupa mais em ser bem tratada do que em tratar bem os outros.
Mas a causa, ao que parece, tem raiz mais profunda na natureza das coisas. O caso de quem emprestou dinheiro nem é comparável, pois essas pessoas não têm sentimento de amizade pelos devedores, e sim apenas o desejo de mantê-los seguros para receber o que lhes é devido. Já quem prestou um serviço a outros sente amizade e amor por aqueles a quem serviu, mesmo que essas pessoas não lhe sejam úteis em nada e nunca venham a ser.
É o que acontece também com os artesãos, pois todo homem ama a própria obra mais do que seria amado por ela se ela ganhasse vida. E isso acontece talvez sobretudo com os poetas, pois eles amam de forma exagerada os próprios poemas, dedicando-se a eles como se fossem seus filhos.
A posição de quem faz o bem é parecida com essa, pois aquilo que beneficiou é obra sua, e por isso ama essa obra mais do que a obra ama quem a fez.
A razão disso é que a existência é, para todos os homens, algo digno de ser escolhido e amado, e que existimos pela atividade (ou seja, vivendo e agindo), e que a obra é, em certo sentido, quem a produziu em plena atividade. Quem fez algo ama, então, a própria obra, porque ama a própria existência. E isso tem raiz na natureza das coisas, pois aquilo que a pessoa é em potencial, a obra dela manifesta em ato.
Ao mesmo tempo, para quem faz o bem há algo nobre ligado à própria ação, de modo que ele se alegra com aquilo que beneficiou. Já para quem recebe o benefício não há nada de nobre em quem o fez, no máximo algo vantajoso, e isso é menos agradável e menos amável.
O que é agradável é a atividade do presente, a esperança do futuro, a lembrança do passado. Mas o mais agradável é aquilo que depende da atividade, e do mesmo modo é isso o que mais se ama.
Para quem fez alguma coisa, a obra permanece (pois o que é nobre dura), mas para quem recebeu o benefício a utilidade logo se esgota. E a lembrança das coisas nobres é agradável, enquanto a das coisas úteis não costuma ser agradável, ou é menos. Com a expectativa, parece valer o contrário.
Além disso, amar é como agir, e ser amado é como sofrer a ação. Amar e o que vem junto com isso são qualidades de quem é mais ativo.
De novo, todos os homens amam mais aquilo que conquistaram com esforço. Por exemplo, quem fez o próprio dinheiro o ama mais do que quem o herdou. E ser bem tratado parece não exigir nenhum esforço, enquanto tratar bem os outros é uma tarefa trabalhosa.
São também essas as razões pelas quais as mães amam os filhos mais do que os pais, pois trazê-los ao mundo lhes custa mais dores, e elas sabem com mais certeza que os filhos são seus. Esse último ponto também parece se aplicar a quem faz o bem.