Ética a Nicômaco - Livro IX 10
A amizade aprofundada: o amor-próprio, a benevolência e o amigo como um outro eu
Quantos amigos devemos ter?
Devemos, então, fazer o maior número possível de amigos? Ou, assim como no caso da hospitalidade se considera um bom conselho que a pessoa não seja nem alguém de muitos convidados nem alguém sem nenhum, isso também vale para a amizade? Quer dizer: ninguém deveria ficar sem amigos, nem ter um número exagerado deles?
No caso dos amigos que fazemos por interesse, esse ditado parece se aplicar perfeitamente. Retribuir favores a muita gente dá muito trabalho, e a vida não é longa o bastante para dar conta disso. Por isso, amigos em quantidade maior do que basta para a nossa própria vida são supérfluos e atrapalham a vida nobre, de modo que não precisamos deles. Quanto aos amigos que fazemos pelo prazer, também bastam poucos, do mesmo jeito que um pouco de tempero basta na comida.
Mas, quando se trata de bons amigos, devemos ter o maior número possível? Ou existe um limite para o número de amigos, assim como existe um limite para o tamanho de uma cidade? Você não consegue formar uma cidade com dez homens, e, se houver cem mil, já não é mais uma cidade. O número certo, ao que parece, não é um número único, e sim qualquer valor que caia entre certos pontos fixos.
Assim, também para os amigos existe um número fixo, talvez o maior número de pessoas com quem se consegue conviver de perto (pois isso, como vimos, é algo muito próprio da amizade). E é claro que ninguém consegue conviver com muita gente e se repartir entre todos. Além disso, esses amigos também precisam ser amigos uns dos outros, se todos vão passar os dias juntos, e é difícil que essa condição se cumpra com um grande número de pessoas.
Também é difícil se alegrar e se entristecer de modo íntimo com muita gente, pois pode acontecer de você ter, ao mesmo tempo, que ficar feliz com um amigo e de luto com outro. O melhor, então, talvez seja não buscar ter o maior número possível de amigos, mas apenas quantos bastem para o convívio, já que parece de fato impossível ser um grande amigo de muita gente.
É por isso que ninguém consegue amar várias pessoas. O amor é, em seu sentido ideal, uma espécie de excesso de amizade, e isso só se pode sentir por uma única pessoa. Por isso, a grande amizade também só pode ser sentida por poucas pessoas. Isso parece se confirmar na prática, pois não encontramos muita gente que seja amiga no sentido de companheirismo, e as amizades famosas desse tipo são sempre entre duas pessoas.
Aqueles que têm muitos amigos e convivem de perto com todos eles são vistos como amigos de ninguém, a não ser do jeito próprio dos concidadãos, e essas pessoas também são chamadas de bajuladoras. No modo próprio dos concidadãos, é possível, sim, ser amigo de muitos sem ser bajulador, e sim um homem genuinamente bom. Mas ninguém consegue ter com muita gente a amizade fundada na virtude e no caráter dos próprios amigos, e devemos nos dar por satisfeitos se encontrarmos ao menos uns poucos assim.