Ética a Nicômaco - Livro IX 5

A amizade aprofundada: o amor-próprio, a benevolência e o amigo como um outro eu

A boa vontade: a semente da amizade, mas ainda não a amizade

A boa vontade é uma espécie de relação amistosa, mas não é a mesma coisa que a amizade. Você pode ter boa vontade por pessoas que não conhece, e sem que elas saibam disso, e isso não acontece com a amizade. dissemos isso antes.
Mas a boa vontade não chega a ser nem mesmo afeto. Ela não envolve intensidade nem desejo, e esses sentimentos acompanham o afeto. Além disso, o afeto pressupõe intimidade, enquanto a boa vontade pode surgir de repente, como acontece com os competidores numa disputa: passamos a ter boa vontade por eles e a torcer pelo que desejam, mas não faríamos nada junto com eles, porque, como dissemos, sentimos essa boa vontade de modo súbito e os apreciamos de leve.
A boa vontade parece ser, então, um começo de amizade, assim como o prazer de olhar é o começo do amor. Ninguém ama se antes não se encantou com a aparência da pessoa amada, mas quem se encanta com a aparência de alguém nem por isso o ama: ele ama quando também sente falta dele na ausência e anseia pela sua presença. Do mesmo modo, não é possível que as pessoas sejam amigas se antes não passaram a ter boa vontade uma pela outra, mas as que sentem boa vontade nem por isso são amigas.
Elas apenas desejam o bem àqueles por quem sentem boa vontade, e não fariam nada junto com eles nem se dariam ao trabalho por eles. Por isso, alargando o sentido da palavra amizade, para dizer que a boa vontade é uma amizade inativa. Quando ela se prolonga e chega ao ponto da intimidade, vira amizade, e não a amizade baseada na utilidade nem a baseada no prazer, porque a própria boa vontade também não nasce nesses termos.
Quem recebeu um benefício oferece boa vontade em troca pelo que fizeram por ele, mas, ao fazer isso, está apenas sendo justo. quem deseja que alguém prospere porque espera enriquecer por meio dele parece ter boa vontade não por essa pessoa, e sim por si mesmo, do mesmo jeito que um homem não é amigo de outro se o estima por causa de algum proveito que pretende tirar dele.
Em geral, a boa vontade surge por causa de alguma excelência e algum valor, quando uma pessoa parece a outra bela ou corajosa ou algo do tipo, como apontamos no caso dos competidores numa disputa.