Capítulos

A Consolação da Filosofia
Autoria e Data
A obra é de Anício Mânlio Severino Boécio (c. 477-524), senador e filósofo romano de família aristocrática, que chegou ao consulado e a chefe dos serviços da corte de Teodorico, o rei ostrogodo que governava a Itália. Acusado de traição e de conspirar com o imperador de Constantinopla, Boécio foi preso, condenado sem defesa real e executado por volta de 524. Foi na prisão, à espera da morte, que escreveu "A Consolação da Filosofia" (De Consolatione Philosophiae). Boécio é com frequência chamado de o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos: seu projeto de traduzir e comentar Platão e Aristóteles fez dele a principal ponte entre a filosofia da Antiguidade clássica e o Ocidente latino medieval.
A Estrutura e a Tese
O livro é um diálogo em prosa alternada com poemas, no formato chamado de sátira menipeia. Na cela, Boécio se lamenta, e lhe aparece a Filosofia personificada como uma mulher, que toma o lugar das Musas e o conduz, em cinco livros, da queixa à serenidade. O argumento sobe por degraus: a Fortuna é por natureza instável e os seus bens nunca foram de fato nossos (Livro 2), a verdadeira felicidade coincide com o sumo Bem, que é Deus (Livro 3), o mal não desfaz a ordem porque Deus governa tudo pela providência (Livro 4), e a presciência divina não destrói a liberdade humana (Livro 5). A medicina da Filosofia é a razão, que reconduz o preso do que é passageiro para o que é eterno.
Conteúdo Principal
- O prisioneiro abre a obra com um lamento em verso, cercado pelas Musas da poesia — (A Consolação da Filosofia 1:1)
- Uma mulher de estatura mutável aparece, expulsa as Musas e se revela como a Filosofia — (A Consolação da Filosofia 1:2)
- Boécio narra a sua carreira pública, as acusações de traição e a injustiça do julgamento — (A Consolação da Filosofia 1:8)
- A Filosofia diagnostica o mal: ele esqueceu a sua própria natureza e o fim de todas as coisas — (A Consolação da Filosofia 1:12)
- A Fortuna é inconstante por natureza: tirar é tão próprio dela quanto dar — (A Consolação da Filosofia 2:1)
- A Filosofia argumenta com as palavras da própria Fortuna: nada do que ela deu pertencia a Boécio — (A Consolação da Filosofia 2:3)
- Os bens da fortuna (riqueza, honras, poder, fama, prazer) não tornam ninguém feliz de verdade — (A Consolação da Filosofia 2:9)
- A má fortuna é mais útil que a boa, porque ensina onde está o bem verdadeiro — (A Consolação da Filosofia 2:15)
- Todos os homens buscam a felicidade, mas tomam por ela bens parciais e falsos — (A Consolação da Filosofia 3:3)
- Riqueza, cargos, reinos, glória e prazer fracassam, cada um, em dar a felicidade plena — (A Consolação da Filosofia 3:9)
- A felicidade perfeita e o sumo Bem coincidem, e ambos coincidem com Deus — (A Consolação da Filosofia 3:10)
- Deus governa o universo pela bondade, e tudo busca o bem como o seu fim — (A Consolação da Filosofia 3:12)
- A objeção decisiva: se Deus é bom e governa tudo, por que o mal prospera e o bem sofre? — (A Consolação da Filosofia 4:1)
- Os bons sempre têm poder e recompensa, os maus sempre são fracos e punidos pelo próprio vício — (A Consolação da Filosofia 4:3)
- A distinção entre providência (o plano simples de Deus) e destino (a sua execução no tempo) — (A Consolação da Filosofia 4:11)
- A conclusão paradoxal: toda fortuna, agradável ou adversa, é boa porque serve à justiça — (A Consolação da Filosofia 4:13)
- A vontade humana é livre, embora exista uma cadeia de causas regida pela providência — (A Consolação da Filosofia 5:3)
- O problema mais difícil: se Deus sabe de antemão tudo, como o futuro ainda pode ser livre? — (A Consolação da Filosofia 5:5)
- A solução: Deus não prevê o futuro, ele o vê num presente eterno, e isso não impõe necessidade — (A Consolação da Filosofia 5:11)
Livro 1: a prisão e a aparição da Filosofia
Livro 2: a Fortuna e a sua roda
Livro 3: a verdadeira felicidade e o sumo Bem
Livro 4: o problema do mal e a providência
Livro 5: a presciência divina e o livre-arbítrio
A Conexão Cristã
Boécio era cristão. Além da Consolação, escreveu cinco tratados teológicos, os Opuscula Sacra, entre eles um sobre a Trindade e outro sobre as duas naturezas de Cristo, redigidos com a precisão técnica de quem usa as categorias filosóficas a serviço do dogma. A autenticidade desses tratados foi posta em dúvida por algum tempo, mas a descoberta de um testemunho de Cassiodoro, contemporâneo de Boécio, que os atribui a ele, confirmou tanto a sua autoria quanto a fé cristã do autor.
A Consolação tornou-se um dos livros mais lidos do Ocidente cristão medieval, copiado, comentado e traduzido por séculos. O rei Alfredo, o Grande, verteu-a para o inglês antigo no século IX, e Geoffrey Chaucer fez uma tradução para o inglês médio no século XIV. Dante leu Boécio e o colocou no Paraíso da sua Comédia, ao lado de Tomás de Aquino. A herança mais técnica está na solução do Livro 5 para o problema da presciência e da liberdade. Boécio define a eternidade como a posse total e simultânea de uma vida sem fim, e conclui que Deus não conhece o futuro de antemão, mas o vê num presente eterno, do mesmo modo que ver um homem andar não o obriga a andar. Tomás de Aquino retomou essa definição e essa distinção entre necessidade simples e necessidade condicionada e as incorporou ao seu tratamento da onisciência divina e do livre-arbítrio na Suma Teológica.
“A eternidade é a posse total e simultânea de uma vida sem fim, plena e perfeita.”Boécio, A Consolação da Filosofia 5:11
A Tensão Honesta
Apesar de o autor ser cristão, a Consolação não menciona Cristo, a Bíblia nem nenhum dogma cristão em parte alguma. Quem consola o preso é a Dama Filosofia, não a Teologia, e o consolo vem inteiramente da razão, com argumentos tirados de Platão, de Aristóteles e dos estoicos. Esse silêncio gerou séculos de debate. Houve quem concluísse que Boécio não era cristão, ou que teria abandonado a fé diante da morte. A posição hoje predominante é que ele permaneceu cristão, e que a obra é por escolha um exercício de filosofia natural, mostrando até onde a razão sozinha pode chegar diante do sofrimento e da morte. O ganho está justamente nesse limite assumido. A questão honesta que o livro deixa aberta, e que não se resolve com apologética, é por que um cristão a caminho do martírio buscou a sua consolação última na razão dos antigos, e não no Evangelho.
Status
"A Consolação da Filosofia" não é Escritura nem texto teológico cristão no sentido próprio. É uma obra de filosofia escrita por um autor cristão do início do século VI, sem conteúdo doutrinal explícito. Pela influência que exerceu sobre Tomás de Aquino, Dante e toda a cultura letrada medieval, é uma das pontes mais importantes entre o pensamento clássico e a teologia cristã do Ocidente.