A Consolação da Filosofia 1
Escrita na prisão, à espera da execução (c. 524), a obra-prima de Boécio é um diálogo entre o filósofo condenado e a Dama Filosofia: a roda da Fortuna, a verdadeira felicidade e o sumo Bem, o problema do mal e da providência, e a conciliação entre a presciência divina e o livre-arbítrio. Ponte entre a Antiguidade e a Idade Média, foi um dos livros mais lidos do Ocidente medieval
'Primeiro, então, permitirás que eu, por meio de algumas perguntas, faça uma tentativa de examinar o estado da tua mente, para que eu aprenda de que modo iniciar a tua cura?'
'Pergunta o que quiseres', disse eu, 'pois responderei a quaisquer perguntas que escolheres fazer.'
Então ela disse: 'Este nosso mundo, julgas que é governado ao acaso e fortuitamente, ou crês que há nele alguma orientação racional?'
'Não', disse eu, 'de modo algum posso achar que tais movimentos fixos possam ser determinados pelo acaso aleatório, mas sei que Deus, o Criador, preside à sua obra, e jamais virá o dia que me arranque de me apegar firmemente à verdade desta crença.'
'Sim', disse ela; 'tu mesmo agora há pouco o afirmaste em canto, lamentando que só o homem não tivesse parte no cuidado divino. Quanto ao restante, estavas inabalável na crença de que eram regidos pela razão. No entanto, admiro-me imensamente de como, apesar da tua firme adesão a essa opinião, caíste em doença. Mas examinemos mais a fundo: algo está faltando, eu penso. Ora, dize-me, já que não duvidas de que Deus governa o mundo, percebes por que meios Ele o rege?'
'Mal compreendo o que queres dizer', disse eu, 'muito menos posso responder à tua pergunta.'
'Não disse eu com razão que algo está faltando, pelo que, como por uma brecha nas muralhas, a doença se insinuou para perturbar a tua mente? Mas dize-me, lembras-te do fim universal para o qual se dirige o propósito de toda a natureza?'
'Ouvi-o certa vez', disse eu, 'mas o pesar embotou a minha lembrança.'
'E, contudo, sabes de onde todas as coisas procederam.'
'Sim, isso eu sei', disse eu, 'e respondi que é de Deus.'
'Como é possível, então, que não saibas qual é o fim da existência, quando compreendes a sua fonte e origem? Contudo, essas perturbações da mente têm força para abalar a posição de um homem, mas não podem arrancá-lo e desarraigá-lo inteiramente de si mesmo. Mas responde também a isto, peço-te: lembras-te de que és um homem?'
'Como não me lembraria?', disse eu.
'Então, podes dizer o que é o homem?'
'É esta a tua pergunta: se sei que sou um ser dotado de razão e sujeito à morte? Decerto reconheço ser eu tal coisa.'
Então ela: 'Nada mais sabes que és?'
'Nada.'
'Agora', disse ela, 'conheço outra causa da tua doença, e, ademais, de grave importância. Deixaste de conhecer a tua própria natureza. Assim, pois, fiz plena descoberta tanto das causas da tua doença quanto dos meios de restaurar a tua saúde. É porque o esquecimento de ti mesmo confundiu a tua mente que te lamentaste como um exilado, como alguém despojado das bênçãos que eram suas; é porque não conheces o fim da existência que julgas serem felizes e poderosos os homens abomináveis e perversos; ao passo que, porque esqueceste por que meios a terra é governada, julgas que as mudanças da fortuna fluem e refluem sem o freio de uma mão que guia. Estas coisas são graves o bastante para causar não só doença, mas até a morte; no entanto, graças ao Autor da nossa saúde, a luz da natureza ainda não te abandonou de todo. No teu verdadeiro juízo a respeito do governo do mundo, em que crês que ele está sujeito, não à deriva aleatória do acaso, mas à razão divina, temos a centelha divina da qual se pode esperar a tua recuperação. Não tenhas, então, temor algum; destas brasas fracas o calor vital será de novo aceso dentro de ti. Mas, visto que ainda não é tempo de remédios fortes, e que a mente está manifestamente constituída de tal modo que, quando rejeita opiniões verdadeiras, logo veste as falsas, do que surge uma nuvem de confusão que perturba a sua visão verdadeira, vou agora tentar dispersar essas névoas com uma aplicação branda e suave, para que assim a escuridão da paixão enganosa se dissipe, e tu possas chegar a discernir o esplendor da luz verdadeira.'