A Consolação da Filosofia 2

Escrita na prisão, à espera da execução (c. 524), a obra-prima de Boécio é um diálogo entre o filósofo condenado e a Dama Filosofia: a roda da Fortuna, a verdadeira felicidade e o sumo Bem, o problema do mal e da providência, e a conciliação entre a presciência divina e o livre-arbítrio. Ponte entre a Antiguidade e a Idade Média, foi um dos livros mais lidos do Ocidente medieval

'Mas, para que não penses que travo guerra implacável contra a Fortuna, reconheço que um tempo em que a deusa enganadora serve bem aos homens, isto é, quando ela se revela, descobre o rosto e confessa o seu verdadeiro caráter. Talvez ainda não captes o meu sentido. Estranha é a coisa que tento exprimir e, por essa causa, mal consigo achar palavras para tornar claro o meu pensamento. Pois em verdade creio que a Fortuna é de mais utilidade aos homens do que a Boa Fortuna. Pois a Boa Fortuna, quando veste o disfarce da felicidade e mais parece acariciar, está sempre mentindo; a Fortuna é sempre verídica, que, ao mudar, mostra a sua inconstância. Uma engana, a outra ensina; uma acorrenta as mentes dos que gozam do seu favor pela aparência de um bem ilusório, a outra os liberta pelo conhecimento da frágil natureza da felicidade. Por conseguinte, podes ver uma volúvel, mudando como a brisa, e sempre iludindo a si mesma; a outra sóbria de mente, alerta e cautelosa, em razão da própria disciplina da adversidade. Por fim, a Boa Fortuna, com os seus atrativos, afasta os homens para longe do verdadeiro bem; a Fortuna muitas vezes traz os homens de volta ao verdadeiro bem com ganchos de abordagem. De novo, deve ser estimada bênção de pouca monta, julgas tu, que esta cruel, esta odiosa Fortuna te tenha revelado os corações dos teus amigos fiéis? Aquela outra escondeu de ti, por igual, os rostos dos amigos verdadeiros e dos falsos, mas, ao partir, levou embora os amigos dela e te deixou os teus. Que preço não terias dado por esse serviço na plenitude da tua prosperidade, quando te parecias afortunado a ti mesmo? Cessa, então, de buscar a riqueza que perdeste, que, em amigos verdadeiros, encontraste a mais preciosa de todas as riquezas.'