A Consolação da Filosofia 3
Escrita na prisão, à espera da execução (c. 524), a obra-prima de Boécio é um diálogo entre o filósofo condenado e a Dama Filosofia: a roda da Fortuna, a verdadeira felicidade e o sumo Bem, o problema do mal e da providência, e a conciliação entre a presciência divina e o livre-arbítrio. Ponte entre a Antiguidade e a Idade Média, foi um dos livros mais lidos do Ocidente medieval
'Pois bem, então: a soberania e a intimidade dos reis provam-se capazes de conferir poder? Ora, por certo a felicidade dos reis não dura para sempre? E, no entanto, a antiguidade está cheia de exemplos, e também estes dias, de reis cuja felicidade se converteu em calamidade. Que glorioso poder, aquele que nem para a sua própria preservação se mostra eficaz! Mas, se a felicidade tem a sua fonte no poder soberano, não fica a felicidade diminuída, e a miséria infligida em seu lugar, na medida em que esse poder fica aquém da plenitude? Contudo, por mais amplamente que se estenda a soberania humana, deverão restar ainda mais povos sobre os quais cada rei em particular não exerce domínio. Ora, em qualquer ponto em que cessa o poder de que depende a felicidade, ali se insinua a impotência e produz a desventura; assim, por esse modo de contar, deverá haver forçosamente um saldo de desventura no quinhão do rei. O tirano que experimentara os perigos da sua condição figurou os temores que assediam um trono sob a imagem de uma espada suspensa sobre a cabeça de um homem. Que espécie de poder, então, é este que não pode afastar as roeduras da ansiedade nem esquivar-se das ferroadas do terror? De bom grado teriam eles próprios vivido em segurança, mas não podem; e então se gabam do seu poder! Contas tu que possui poder aquele que vês desejar o que não pode realizar? Contas tu que possui poder aquele que se cerca de uma guarda pessoal, que teme mais os que aterroriza do que estes o temem, que, para manter a aparência de poder, está ele próprio à mercê dos seus escravos? Preciso dizer algo dos amigos dos reis, quando mostro o próprio domínio régio tão completa e miseravelmente débil? Por que tantas vezes o poder régio, na sua plenitude, os derruba; tantas vezes os envolve na sua queda? Nero forçou o seu amigo e preceptor, Sêneca, a escolher o modo da sua morte. Antonino expôs Papiniano, que por muito tempo fora poderoso na corte, às espadas da soldadesca. Contudo, cada um deles estava disposto a renunciar ao seu poder. Sêneca tentou render também a sua riqueza a Nero, e retirar-se para a vida privada; mas nenhum dos dois alcançou o seu intento. Quando vacilaram, a própria grandeza os arrastou para baixo. Que espécie de coisa, então, é este poder que mantém os homens no medo enquanto o possuem, que, quando o queres guardar, não estás seguro, e quando o desejas pôr de lado, não consegues livrar-te dele? São os amigos alguma proteção, quando foram ligados pela fortuna, não pela virtude? Não; aquele a quem a boa fortuna fez amigo, a má fortuna fará inimigo. E que praga é mais eficaz para fazer mal do que um inimigo da própria casa?'
NOTAS DE RODAPÉ:
A espada de Dâmocles.