Capítulos

Atos de João

Autoria e Data de Composição

Os Atos de João são um escrito apócrifo do século II, em geral datado entre cerca de 150 e 200 d.C. A tradição antiga atribui a obra a um certo Leúcio (Leucius Charinus), figura sobre a qual quase nada se sabe. Essa atribuição vem de fontes tardias, como o patriarca Fócio no século IX, e os especialistas a tratam mais como uma classificação posterior do que como prova de autoria direta. O texto chegou até nós de forma fragmentária. O início se perdeu, e a narrativa preservada começa por volta da seção 18. As divisões em onze capítulos usadas aqui organizam o material para leitura, não correspondem a uma estrutura original fixa.

Conteúdo Principal

Cristologia Docética

A marca teológica mais forte dos Atos de João é o docetismo, a ideia de que Cristo apenas parecia ter um corpo material e não sofreu de fato na carne. A cena central está na chamada "cruz de luz" e na paixão na caverna (seções 97 a 101). Enquanto a multidão pensa estar crucificando Jesus, o próprio Cristo aparece a João num monte e declara não estar sofrendo na cruz. A obra também descreve a polimorfiade Cristo, que se mostra sob várias formas a diferentes pessoas. Antes disso, na seção 94 a 96, vem a "dança em roda", um hino em que os discípulos respondem em coro ao redor de Jesus. Vale lembrar que esse docetismo é teologia tardia, do século II, e não uma memória histórica concorrente sobre os fatos da vida de Jesus.

Recepção e Condenação

Os Atos de João nunca foram aceitos no cânon cristão. A obra apresenta também tendências encratitas, com forte valorização da renúncia sexual e da abstinência. Por causa de sua cristologia, o texto foi condenado no Segundo Concílio de Niceia, em 787. Nesse contexto, a obra havia sido citada antes por defensores da destruição de imagens, e o concílio que restaurou o uso dos ícones rejeitou tanto o escrito quanto seu uso iconoclasta. Apesar de marginal para a fé das igrejas, o texto é uma fonte importante para entender a diversidade dos primeiros séculos cristãos e a circulação de ideias docéticas no século II.