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Contra as Heresias - Livro V

Autoria e Data

O Contra as Heresias foi escrito em grego por Irineu, bispo de Lugduno (a atual Lyon, na Gália), contra o gnosticismo e outras correntes que ele considerava heréticas. A obra tem cinco livros. A datação mais aceita é por volta de 180 d.C.: a lista dos bispos de Roma que Irineu fornece inclui Eleutério, mas não o sucessor Vítor, o que situa o texto entre os anos 174 e 189. O grego original sobreviveu apenas em fragmentos e citações; o texto completo chegou até nós por uma tradução latina antiga, com partes preservadas também em armênio e siríaco. Este quinto livro fecha a obra e é o mais escatológico: trata da ressurreição da carne, do Anticristo e do reino dos justos.

O Argumento do Livro V

O Livro V defende uma tese que os adversários de Irineu negavam: a salvação alcança a carne, não só a alma. Os gnósticos valentinianos e os ebionitas, por motivos opostos, separavam a matéria da redenção. Irineu responde com a doutrina da recapitulação: o Verbo se fez verdadeiramente homem, assumiu carne e sangue da formação de Adão, e por isso pôde restaurar em si mesmo aquilo que havia perecido. Dessa premissa ele extrai dois argumentos repetidos ao longo do livro. O primeiro é a Eucaristia: se o pão e o cálice da terra se tornam corpo e sangue de Cristo e nutrem os nossos corpos, então a carne é capaz de receber a incorrupção. O segundo é a leitura do apóstolo Paulo: a frase "a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus", citada pelos hereges, é interpretada por Irineu como referência às obras carnais, e não à substância do corpo.

Na segunda metade, o livro vira para o fim dos tempos. Irineu lê o Anticristo a partir de Daniel, de 2 Tessalonicenses e do Apocalipse de João, descrevendo-o como um apóstata que concentra em si toda a iniquidade e se assenta no templo. Ele trata do número 666, examina os manuscritos do Apocalipse e discute candidatos a nome da besta. É também aqui que Irineu expõe seu milenarismo: ele defende um reino terreno e literal dos justos ressuscitados antes do juízo final, recusando expressamente a leitura alegórica. Para sustentar isso, ele cita os presbíteros que conheceram João e atribui a Papias a célebre descrição da terra hiperfecunda do reino, com videiras de dez mil ramos. As seções finais do livro, francamente milenaristas, faltavam em muitos manuscritos latinos; editores modernos as restituíram a partir de outras testemunhas do texto.

O Livro V tem um peso documental que vai além da teologia. Ao discutir o 666, Irineu registra que a visão apocalíptica de João "foi vista não há muito tempo, mas quase em nossos dias, para o fim do reinado de Domiciano". Essa frase é a principal testemunha externa antiga em favor da chamada datação tardia do Apocalipse, por volta de 95 d.C., no governo de Domiciano. A datação tardia é uma das posições majoritárias, tanto na cultura profética evangélica quanto na crítica acadêmica, mas é debatida: outros estudiosos defendem uma datação anterior, sob Nero, e questionam a leitura que se faz dessa passagem de Irineu. Convém registrar que o testemunho de Irineu é a base, não a prova final, dessa discussão.

Conteúdo Principal

“Pois ela foi vista não há muito tempo, mas quase em nossos dias, para o fim do reinado de Domiciano.”

Irineu de Lyon, Contra as Heresias - Livro V 5:6