Contra as Heresias - Livro V 1
A ressurreicao da carne e o reino
Pois de nenhum outro modo poderíamos ter aprendido as coisas de Deus, a não ser que o nosso Mestre, existindo como o Verbo, se tivesse feito homem. Pois nenhum outro ser tinha o poder de nos revelar as coisas do Pai, exceto o seu próprio Verbo. Pois quem mais conheceu a mente do Senhor, ou quem mais se tornou seu conselheiro? E, de novo, de nenhum outro modo poderíamos ter aprendido senão vendo o nosso Mestre e ouvindo a sua voz com os nossos próprios ouvidos, para que, tornando-nos imitadores das suas obras e cumpridores das suas palavras, tivéssemos comunhão com ele, recebendo crescimento daquele que é perfeito e anterior a toda a criação. Nós, que há pouco fomos criados pelo único Ser bom e excelente, por aquele que tem o dom da imortalidade, formados à sua semelhança (predestinados, segundo a presciência do Pai, para que nós, que ainda não existíamos, viéssemos a existir) e feitos as primícias da criação, recebemos, nos tempos previamente conhecidos, as bênçãos da salvação, segundo a ministração do Verbo, que é perfeito em todas as coisas, como o poderoso Verbo e verdadeiro homem, que, resgatando-nos com o próprio sangue de modo conforme à razão, deu-se a si mesmo como resgate por aqueles que tinham sido levados ao cativeiro. E visto que a apostasia tiranizava injustamente sobre nós e, embora fôssemos por natureza propriedade do Deus onipotente, nos alienava contra a natureza, tornando-nos seus próprios discípulos, o Verbo de Deus, poderoso em todas as coisas e em nada falho quanto à sua própria justiça, voltou-se com justiça contra essa apostasia e resgatou dela a sua própria propriedade; não por meios violentos, como a apostasia obtivera domínio sobre nós no princípio, quando insaciavelmente arrebatou o que não era seu, mas por meio da persuasão, como convinha a um Deus de conselho, que não usa meios violentos para obter o que deseja. Assim, nem a justiça foi violada, nem a antiga obra de Deus foi à destruição. Visto que o Senhor nos resgatou desse modo por seu próprio sangue, dando a sua alma por nossas almas e a sua carne por nossa carne, e visto que também derramou o Espírito do Pai para a união e comunhão de Deus e do homem, comunicando de fato Deus aos homens por meio do Espírito e, por outro lado, ligando o homem a Deus por sua própria encarnação, e concedendo-nos em sua vinda a imortalidade de modo duradouro e verdadeiro, por meio da comunhão com Deus, todas as doutrinas dos hereges ruem. Vãos, de fato, são os que afirmam que ele apareceu apenas em aparência. Pois essas coisas não foram feitas só na aparência, mas em realidade efetiva. Mas se ele apareceu como homem sem ser homem, então nem o Espírito Santo poderia ter repousado sobre ele, fato que de fato ocorreu, pois o Espírito é invisível; nem, nesse caso, haveria nele grau algum de verdade, pois ele não seria aquilo que parecia ser. Mas já observei que Abraão e os outros profetas o contemplaram de modo profético, predizendo em visão o que haveria de acontecer. Se, então, tal ser apareceu agora em aparência exterior diferente do que era em realidade, houve uma certa visão profética dada aos homens, e deve-se aguardar outra vinda sua, na qual ele será tal como agora foi visto de modo profético. E já provei que dizer que ele apareceu apenas em aparência exterior é o mesmo que afirmar que ele nada recebeu de Maria. Pois ele não teria possuído verdadeiramente carne e sangue, pelos quais nos resgatou, se não tivesse recapitulado em si mesmo a antiga formação de Adão. Vãos, portanto, são os discípulos de Valentim que sustentam essa opinião, a fim de excluir a carne da salvação e rejeitar o que Deus formou. Vãos também são os ebionitas, que não recebem pela fé em sua alma a união de Deus e do homem, mas permanecem no velho fermento do nascimento natural e não querem entender que o Espírito Santo veio sobre Maria e o poder do Altíssimo a cobriu com sua sombra; por isso também o que foi gerado é uma coisa santa, e o Filho do Deus Altíssimo, o Pai de todos, é quem efetuou a encarnação desse ser e manifestou um novo tipo de geração; para que, assim como pela geração anterior herdamos a morte, por esta nova geração herdássemos a vida. Por isso esses homens rejeitam a mistura do vinho celestial e desejam que ela seja apenas água deste mundo, não recebendo Deus de modo a ter união com ele, mas permanecendo naquele Adão que foi vencido e expulso do Paraíso; sem considerar que, assim como no princípio da nossa formação em Adão aquele sopro de vida que procedeu de Deus, unido ao que tinha sido formado, animou o homem e o manifestou como ser dotado de razão, assim também, nos tempos do fim, o Verbo do Pai e o Espírito de Deus, unidos à antiga substância da formação de Adão, tornaram o homem vivo e perfeito, capaz de receber o Pai perfeito; para que, assim como no Adão natural todos morremos, no espiritual todos sejamos vivificados. Pois nunca, em tempo algum, Adão escapou das mãos de Deus, a quem o Pai, falando, disse: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. E por essa razão, nos últimos tempos, não pela vontade da carne, nem pela vontade do homem, mas pelo beneplácito do Pai, as suas mãos formaram um homem vivo, para que Adão fosse criado de novo segundo a imagem e semelhança de Deus.