Contra as Heresias - Livro V 6
A ressurreicao da carne e o reino
A ressurreição dos corpos e o reino
Como também alguns que se contam entre os ortodoxos vão além do plano previamente estabelecido para a exaltação dos justos, e ignoram os métodos pelos quais eles são disciplinados de antemão para a incorrupção, eles acabam abraçando opiniões heréticas. Pois os hereges, desprezando a obra das mãos de Deus e não admitindo a salvação de sua própria carne, ao mesmo tempo em que tratam com desprezo a promessa de Deus e ultrapassam a Deus por completo nas ideias que formam, afirmam que, imediatamente após a morte, hão de passar acima dos céus e do Demiurgo, e ir até a Mãe (Acamot) ou até aquele Pai que eles inventaram. Essas pessoas, portanto, que negam uma ressurreição que afeta o homem inteiro (universam reprobant resurrectionem) e, na medida do que está ao seu alcance, a removem do meio [do plano cristão], como podemos nos espantar se, por sua vez, nada sabem a respeito do plano da ressurreição? Pois não querem compreender que, se as coisas fossem como eles dizem, o próprio Senhor, em quem professam crer, não teria ressuscitado ao terceiro dia, mas, imediatamente após expirar na cruz, sem dúvida teria partido para o alto, deixando o seu corpo na terra. Mas o caso foi que, por três dias, ele habitou no lugar onde estavam os mortos, como diz o profeta a respeito dele: E o Senhor se lembrou dos seus santos mortos, que outrora dormiam na terra do sepulcro; e desceu até eles, para resgatá-los e salvá-los. E o próprio Senhor diz: Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem no coração da terra. Então também o apóstolo diz: Mas isto de ter subido, que é, senão que também havia descido primeiro às partes mais baixas da terra? Isto também diz Davi, ao profetizar a respeito dele: E livraste a minha alma do inferno mais profundo; e, ao ressuscitar no terceiro dia, ele disse a Maria, que foi a primeira a vê-lo e a adorá-lo: Não me toques, porque ainda não subi para o Pai; mas vai aos discípulos e dize-lhes: Subo para o meu Pai e vosso Pai. Se, então, o Senhor observou a lei dos mortos, para tornar-se o primogênito dentre os mortos, e permaneceu até o terceiro dia nas partes mais baixas da terra; e se depois ressuscitou na carne, de modo que até mostrou aos seus discípulos as marcas dos cravos, e assim subiu para o Pai; se todas essas coisas aconteceram, eu pergunto: como não ficariam confundidos esses homens, que alegam que as partes mais baixas se referem a este nosso mundo, mas que o homem interior deles, deixando o corpo aqui, sobe ao lugar supraceleste? Pois, assim como o Senhor partiu para o meio da sombra da morte, onde estavam as almas dos mortos, mas depois ressuscitou no corpo, e após a ressurreição foi elevado [ao céu], fica claro que as almas dos seus discípulos também, por causa de quem o Senhor passou por essas coisas, irão para o lugar invisível que Deus lhes designou, e ali permanecerão até a ressurreição, aguardando esse acontecimento; depois, recebendo de volta os seus corpos e ressuscitando por inteiro, isto é, corporalmente, tal como o Senhor ressuscitou, hão de chegar assim à presença de Deus. Pois nenhum discípulo está acima do Mestre, mas todo aquele que é perfeito será como o seu Mestre. Assim como o nosso Mestre, portanto, não partiu de imediato, tomando voo [para o céu], mas aguardou o tempo da sua ressurreição prescrito pelo Pai, o qual também havia sido mostrado por meio de Jonas, e, ressuscitando depois de três dias, foi elevado [ao céu]; assim também nós devemos aguardar o tempo da nossa ressurreição prescrito por Deus e predito pelos profetas, e assim, ressuscitando, ser elevados, todos quantos o Senhor julgar dignos desse [privilégio].
Visto, portanto, que as opiniões de certas [pessoas ortodoxas] derivam de discursos heréticos, elas ignoram tanto as dispensações de Deus quanto o mistério da ressurreição dos justos e do reino [terreno] que é o começo da incorrupção, reino por meio do qual aqueles que forem dignos se acostumam a participar gradualmente da natureza divina (capere Deum); e é preciso dizer-lhes, a respeito dessas coisas, que convém que os justos primeiro recebam a promessa da herança que Deus prometeu aos pais, e nela reinem, quando ressuscitarem para contemplar a Deus nesta criação que é renovada, e que o juízo aconteça depois disso. Pois é justo que, naquela mesma criação em que se esforçaram ou foram afligidos, sendo provados de todas as maneiras pelo sofrimento, recebam a recompensa do seu sofrimento; e que, na criação em que foram mortos por causa do seu amor a Deus, nela sejam novamente revividos; e que, na criação em que suportaram a servidão, nela reinem. Pois Deus é rico em todas as coisas, e todas as coisas são dele. É justo, portanto, que a própria criação, restaurada à sua condição original, esteja sem restrição sob o domínio dos justos; e o apóstolo deixou isso claro na Epístola aos Romanos, quando assim fala: Pois a expectativa da criatura aguarda a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criatura ficou sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criatura será libertada da escravidão da corrupção, para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Assim, então, a promessa de Deus, que ele fez a Abraão, permanece firme. Pois ele disse assim: Levanta os teus olhos e olha, desde o lugar onde agora estás, para o norte e para o sul, para o oriente e para o ocidente. Porque toda a terra que vês, eu a darei a ti e à tua descendência, para sempre. E novamente ele diz: Levanta-te e percorre a terra no seu comprimento e na sua largura, porque eu a darei a ti; e [contudo] ele não recebeu nela uma herança, nem mesmo o espaço de um passo, mas foi sempre estrangeiro e peregrino naquela terra. E, por ocasião da morte de Sara, sua esposa, quando os hititas se dispuseram a conceder-lhe um lugar onde a pudesse sepultar, ele o recusou como dádiva, mas comprou o lugar de sepultura (pagando por ele quatrocentos talentos de prata) de Efrom, filho de Zoar, o hitita. Assim ele aguardou pacientemente a promessa de Deus, e não quis aparentar receber dos homens o que Deus havia prometido dar-lhe, quando lhe disse novamente o seguinte: Darei esta terra à tua descendência, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates. Se, então, Deus lhe prometeu a herança da terra, e ainda assim ele não a recebeu durante todo o tempo da sua peregrinação ali, segue-se que, juntamente com a sua descendência, isto é, aqueles que temem a Deus e creem nele, ele a receberá na ressurreição dos justos. Pois a sua descendência é a Igreja, que recebe a adoção por Deus mediante o Senhor, como disse João Batista: Pois Deus é poderoso para das pedras suscitar filhos a Abraão. Assim também o apóstolo diz, na Epístola aos Gálatas: Mas vós, irmãos, à semelhança de Isaque, sois filhos da promessa. E novamente, na mesma Epístola, ele declara claramente que os que creram em Cristo recebem Cristo, a promessa feita a Abraão, dizendo assim: As promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Ora, ele não diz: E às descendências, como se [falasse] de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo. E novamente, confirmando as suas palavras anteriores, ele diz: Assim como Abraão creu em Deus, e isto lhe foi imputado como justiça. Sabei, portanto, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão. Mas a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou de antemão a Abraão: Em ti serão abençoadas todas as nações. De modo que os que são da fé serão abençoados com o crente Abraão. Assim, então, os que são da fé serão abençoados com o crente Abraão, e estes são os filhos de Abraão. Ora, Deus fez a Abraão e à sua descendência a promessa da terra; contudo, nem Abraão nem a sua descendência, isto é, os que são justificados pela fé, recebem agora qualquer herança nela; mas a receberão na ressurreição dos justos. Pois Deus é verdadeiro e fiel; e por isso ele disse: Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Por essa razão, estando prestes a sofrer a sua paixão, para anunciar a Abraão e aos que estavam com ele a boa nova de que a herança estava sendo aberta, [Cristo], depois de ter dado graças enquanto segurava o cálice, e de ter bebido dele, e de o ter dado aos discípulos, disse-lhes: Bebei dele todos: este é o meu sangue da nova aliança, que será derramado por muitos para a remissão dos pecados. Mas digo-vos que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que o beberei convosco, novo, no reino de meu Pai. Assim, então, ele mesmo renovará a herança da terra e reorganizará o mistério da glória dos [seus] filhos; como diz Davi: Aquele que renovou a face da terra. Ele prometeu beber do fruto da videira com os seus discípulos, indicando com isso ambos os pontos: a herança da terra na qual se bebe o novo fruto da videira, e a ressurreição dos seus discípulos na carne. Pois a carne nova que ressuscita é a mesma que também recebeu o cálice novo. E de modo algum se pode entender que ele bebe do fruto da videira estando estabelecido com os seus [discípulos] no alto, num lugar supraceleste; nem, por outro lado, são desprovidos de carne aqueles que o bebem, pois beber daquilo que escorre da videira pertence à carne, e não ao espírito. E por essa razão o Senhor declarou: Quando deres um jantar ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus vizinhos, nem os teus parentes, para que não suceda que eles te convidem em retribuição e assim te paguem. Mas chama os coxos, os cegos e os pobres, e serás bem-aventurado, porque não te podem retribuir, mas a recompensa te será feita na ressurreição dos justos. E novamente ele diz: Todo aquele que tiver deixado terras, ou casas, ou pais, ou irmãos, ou filhos por causa de mim, receberá neste mundo cem vezes mais, e no mundo vindouro herdará a vida eterna. Pois o que são as recompensas cem vezes maiores neste mundo, as recepções dadas aos pobres e as ceias pelas quais se faz uma retribuição? Essas coisas [hão de acontecer] nos tempos do reino, isto é, no sétimo dia, que foi santificado, no qual Deus descansou de todas as obras que criou, e que é o verdadeiro sábado dos justos, no qual eles não se ocuparão de nenhum trabalho terreno, mas terão à mão uma mesa preparada para eles por Deus, que os abastecerá com todo tipo de iguaria. A bênção de Isaque, com a qual ele abençoou o seu filho mais novo, Jacó, tem o mesmo sentido, quando diz: Eis que o cheiro de meu filho é como o cheiro de um campo cheio, que o Senhor abençoou. Ora, o campo é o mundo. E por isso ele acrescentou: Deus te dê do orvalho do céu e da fertilidade da terra, abundância de trigo e de vinho. E que as nações te sirvam, e os reis se inclinem diante de ti; e sê senhor sobre o teu irmão, e os filhos de teu pai se inclinarão diante de ti: maldito seja aquele que te amaldiçoar, e bendito seja aquele que te abençoar. Se alguém, então, não aceita essas coisas como referentes ao reino prometido, terá de cair em muita contradição e incoerência, como é o caso dos judeus, que estão envolvidos em absoluta perplexidade. Pois não só as nações não serviram a esse Jacó nesta vida, mas, mesmo depois de ter recebido a bênção, ele próprio, saindo [de casa], serviu ao seu tio Labão, o sírio, por vinte anos; e não só não foi feito senhor do seu irmão, como ele próprio se inclinou diante do seu irmão Esaú, ao retornar da Mesopotâmia para junto do seu pai, e lhe ofereceu muitos presentes. Além disso, de que modo herdou ele aqui muito trigo e vinho, ele que emigrou para o Egito por causa da fome que assolou a terra em que habitava, e ficou sujeito ao faraó, que então reinava sobre o Egito? A bênção predita, portanto, pertence sem dúvida aos tempos do reino, quando os justos hão de governar ao ressuscitarem dentre os mortos; quando também a criação, tendo sido renovada e libertada, frutificará com abundância de todo tipo de alimento, do orvalho do céu e da fertilidade da terra: como os anciãos que viram João, o discípulo do Senhor, contaram que dele tinham ouvido como o Senhor costumava ensinar a respeito desses tempos, dizendo: Virão dias em que crescerão videiras, cada uma com dez mil ramos, e em cada ramo dez mil galhos, e em cada galho verdadeiro dez mil rebentos, e em cada um dos rebentos dez mil cachos, e em cada um dos cachos dez mil uvas, e cada uva, quando espremida, dará vinte e cinco metretas de vinho. E quando algum dos santos pegar um cacho, outro clamará: Eu sou um cacho melhor, pega-me; bendize o Senhor por meu intermédio. De igual modo [o Senhor declarou] que um grão de trigo produziria dez mil espigas, e que cada espiga teria dez mil grãos, e cada grão renderia dez libras (quinque bilibres) de farinha clara, pura e fina; e que todas as demais árvores frutíferas, e as sementes e as ervas, produziriam em proporções semelhantes (secundum congruentiam iis consequentem); e que todos os animais que se alimentam [apenas] dos produtos da terra se tornariam, [naqueles dias], pacíficos e harmoniosos uns com os outros, e estariam em perfeita sujeição ao homem. E essas coisas são atestadas por escrito por Pápias, ouvinte de João e companheiro de Policarpo, no seu quarto livro; pois foram cinco os livros compilados (συντεταγμένα) por ele. E ele acrescenta: Ora, essas coisas são críveis para os que creem. E diz que, quando o traidor Judas não lhes deu crédito e fez a pergunta: Como, então, podem ser realizadas pelo Senhor coisas tão abundantes em frutos?, o Senhor declarou: Os que chegarem a esses [tempos] hão de ver. Profetizando, portanto, a respeito desses tempos, Isaías diz: Também o lobo pastará com o cordeiro, e o leopardo descansará com o cabrito; também o bezerro, o touro e o leão comerão juntos, e um menino pequeno os conduzirá. A vaca e a ursa pastarão juntas, e os seus filhotes ficarão juntos; e o leão comerá palha como o boi. E o menino de peito meterá a mão na cova da áspide, e também no ninho da cria da víbora; e não farão dano nem terão poder de prejudicar coisa alguma no meu santo monte. E novamente ele diz, em recapitulação: Lobos e cordeiros então pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi, e a serpente comerá terra como se fosse pão; e nada hão de ferir nem incomodar no meu santo monte, diz o Senhor. Sei muito bem que algumas pessoas se esforçam por referir essas palavras ao caso de homens selvagens, de diferentes nações e variados costumes, que vêm a crer e que, tendo crido, agem em harmonia com os justos. Mas, embora isso seja [verdade] agora a respeito de alguns homens que vêm de diversas nações para a harmonia da fé, ainda assim, na ressurreição dos justos, [as palavras hão de aplicar-se] também àqueles animais mencionados. Pois Deus é rico em todas as coisas. E é justo que, quando a criação for restaurada, todos os animais obedeçam e estejam em sujeição ao homem, e voltem ao alimento originalmente dado por Deus (pois haviam sido originalmente sujeitados em obediência a Adão), isto é, aos produtos da terra. Mas há de buscar-se outra ocasião, e não a presente, para mostrar que o leão [então] se alimentará de palha. E isso indica o grande tamanho e a rica qualidade dos frutos. Pois, se aquele animal, o leão, se alimenta de palha [naquele período], de que qualidade deve ser o próprio trigo cuja palha servirá de alimento adequado aos leões?
Então, também o próprio Isaías declarou claramente que haverá alegria desta natureza na ressurreição dos justos, quando diz: Os mortos ressuscitarão; também os que estão nos túmulos se levantarão, e os que estão na terra se alegrarão. Pois o orvalho que vem de ti é saúde para eles. E isto também diz Ezequiel: Eis que abrirei os vossos túmulos e vos farei sair das vossas sepulturas; quando eu retirar o meu povo dos sepulcros, e puser fôlego em vós, e vivereis; e vos colocarei na vossa própria terra, e sabereis que eu sou o Senhor. E novamente fala assim o mesmo: Assim diz o Senhor: Reunirei Israel de todas as nações para onde foram expulsos, e serei santificado entre eles à vista dos filhos das nações; e habitarão na sua própria terra, que dei ao meu servo Jacó. E habitarão nela em paz; e construirão casas, e plantarão vinhas, e habitarão em esperança, quando eu fizer cair o juízo sobre todos os que os desonraram, sobre os que os cercam em derredor; e saberão que eu sou o Senhor, o seu Deus, e o Deus de seus pais. Ora, mostrei há pouco que a Igreja é a descendência de Abraão; e por essa razão, para que saibamos que aquele que, no Novo Testamento, suscita das pedras filhos a Abraão é aquele que reunirá, segundo o Antigo Testamento, os que serão salvos dentre todas as nações, Jeremias diz: Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que não dirão mais: Vive o Senhor, que conduziu os filhos de Israel desde o norte e desde toda região para onde tinham sido expulsos; ele os restaurará à sua própria terra, que deu a seus pais. Que toda a criação, segundo a vontade de Deus, há de obter um vasto aumento, de modo a produzir e sustentar frutos como [os que mencionamos], Isaías o declara: E haverá sobre todo monte alto, e sobre todo outeiro elevado, águas correndo por toda parte naquele dia, quando muitos perecerem, quando os muros caírem. E a luz da lua será como a luz do sol, sete vezes mais que a do dia, quando ele curar a angústia do seu povo e fizer cessar a dor do seu golpe. Ora, a dor do golpe significa aquela infligida no princípio ao homem desobediente em Adão, isto é, a morte; golpe que o Senhor curará quando nos ressuscitar dentre os mortos e restaurar a herança dos pais, como diz novamente Isaías: E confiarás no Senhor, e ele te fará passar por toda a terra, e te alimentará com a herança de Jacó, teu pai. Isto foi o que o Senhor declarou: Bem-aventurados aqueles servos a quem o Senhor, quando vier, achar vigiando. Em verdade vos digo que ele se cingirá, e os fará sentar-se [à mesa], e virá servi-los. E, se vier na segunda vigília, e os achar assim, bem-aventurados são eles, porque ele os fará sentar-se, e os servirá; ou, se isto for na segunda vigília, ou se for na terceira, bem-aventurados são eles. Também João diz exatamente o mesmo no Apocalipse: Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição. Então, também Isaías declarou o tempo em que esses acontecimentos hão de ocorrer; ele diz: E eu disse: Senhor, até quando? Até que as cidades fiquem assoladas, sem habitante, e as casas sem homens, e a terra seja deixada deserta. E, depois dessas coisas, o Senhor afastará para longe a nós, homens (longe nos faciet Deus homines), e os que restarem se multiplicarão sobre a terra. Então, também Daniel diz exatamente isto: E o reino, e o domínio, e a grandeza daqueles que estão debaixo do céu são dados aos santos do Deus Altíssimo, cujo reino é eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão. E, para que a promessa mencionada não fosse entendida como referente a este tempo, foi declarado ao profeta: E vai, e fica no teu lugar na consumação dos dias. Ora, para mostrar que as promessas não foram anunciadas apenas aos profetas e aos pais, mas também às Igrejas reunidas a estes dentre as nações, as quais o Espírito chama também de ilhas (tanto porque estão estabelecidas no meio da turbulência, suportam a tempestade das blasfêmias, existem como porto seguro para os que estão em perigo, e são refúgio dos que amam a altura [do céu] e se esforçam por evitar Bythos, isto é, o abismo do erro), assim declara Jeremias: Ouvi a palavra do Senhor, ó nações, e anunciai-a nas ilhas longínquas; dizei que o Senhor dispersará Israel, ele o reunirá e o guardará, como aquele que apascenta o seu rebanho de ovelhas. Pois o Senhor remiu a Jacó e o resgatou da mão de quem era mais forte do que ele. E eles virão e se alegrarão no monte Sião, e virão para o que é bom, e para uma terra de trigo, de vinho e de frutos, de animais e de ovelhas; e a sua alma será como uma árvore que dá fruto, e nunca mais terão fome. Naquele tempo também as virgens se alegrarão na companhia dos jovens; também os velhos ficarão contentes, e eu transformarei a sua tristeza em alegria; e os farei exultar, e os engrandecerei, e fartarei as almas dos sacerdotes, os filhos de Levi; e o meu povo se fartará da minha bondade. Ora, no livro anterior mostrei que todos os discípulos do Senhor são levitas e sacerdotes, eles que no templo costumavam profanar o sábado, mas são irrepreensíveis. Promessas desta natureza, portanto, indicam da maneira mais clara o banquete daquela criação no reino dos justos, banquete que Deus promete servir ele mesmo. Então, novamente, falando de Jerusalém e daquele que ali reina, Isaías declara: Assim diz o Senhor: Bem-aventurado é aquele que tem descendência em Sião e servos em Jerusalém. Eis que um rei justo reinará, e príncipes governarão com juízo. E, quanto ao fundamento sobre o qual ela será reconstruída, ele diz: Eis que porei em ordem para ti uma pedra de carbúnculo, e safira para os teus fundamentos; e farei as tuas muralhas de jaspe, e as tuas portas de cristal, e o teu muro de pedras escolhidas; e todos os teus filhos serão ensinados por Deus, e grande será a paz dos teus filhos; e em justiça serás edificada. E ainda diz a mesma coisa: Eis que faço de Jerusalém um regozijo, e do meu povo [uma alegria]; pois nela não se ouvirá mais voz de choro, nem voz de clamor. Também não haverá ali nenhuma criança que viva poucos dias, nem velho que não cumpra o seu tempo: pois o jovem terá cem anos; e o pecador morrerá com cem anos de idade, mas será amaldiçoado. E construirão casas e nelas habitarão; e plantarão vinhas e comerão o fruto delas. E não construirão para que outros habitem; nem plantarão para que outros comam. Pois como os dias da árvore da vida serão os dias do povo em ti; pois as obras das suas mãos hão de durar.
Se, contudo, alguns se esforçarem por alegorizar [profecias] deste tipo, não serão achados coerentes consigo mesmos em todos os pontos, e serão refutados pelo próprio ensino das expressões [em questão]. Por exemplo: Quando as cidades dos gentios estiverem desoladas, de modo que não sejam habitadas, e as casas de modo que não haja homens nelas, e a terra for deixada desolada. Pois, eis que, diz Isaías, vem o dia do Senhor, sem remédio, cheio de furor e de ira, para assolar a cidade da terra e exterminar dela os pecadores. E novamente ele diz: Seja afastado, para que não veja a glória de Deus. E, quando essas coisas forem feitas, ele diz: Deus afastará os homens para longe, e os que restarem se multiplicarão na terra. E construirão casas e nelas habitarão; e plantarão vinhas e comerão delas. Pois todas essas e outras palavras foram sem dúvida ditas em referência à ressurreição dos justos, a qual ocorre depois da vinda do Anticristo e da destruição de todas as nações sob o seu domínio; [nos tempos da] qual [ressurreição] os justos reinarão sobre a terra, fortalecendo-se pela visão do Senhor; e, por meio dele, hão de acostumar-se a participar da glória de Deus Pai, e gozarão no reino do convívio e da comunhão com os santos anjos, e da união com os seres espirituais; e [a respeito] daqueles a quem o Senhor achar na carne, aguardando-o dos céus, e que tiverem passado por tribulação, bem como escapado das mãos do Maligno. Pois é em referência a eles que o profeta diz: E os que restarem se multiplicarão sobre a terra. E o profeta Jeremias mostrou que tantos crentes quantos Deus tiver preparado para este propósito, para multiplicar os que restarem sobre a terra, hão de estar tanto sob o governo dos santos para servir a esta Jerusalém, quanto que o reino [dele] estará nela, dizendo: Olha ao redor de Jerusalém para o oriente, e contempla a alegria que te vem do próprio Deus. Eis que virão os teus filhos, que enviaste para longe: virão em grupo, do oriente até o ocidente, pela palavra daquele Santo, alegrando-se naquele esplendor que vem do teu Deus. Ó Jerusalém, despe a tua veste de luto e de aflição, e veste aquela formosura do esplendor eterno que vem do teu Deus. Cinge-te com a dupla veste daquela justiça que procede do teu Deus; põe a mitra de glória eterna sobre a tua cabeça. Pois Deus mostrará a tua glória a toda a terra debaixo do céu. Pois o teu nome será para sempre chamado pelo próprio Deus: a paz da justiça e a glória daquele que adora a Deus. Levanta-te, Jerusalém, fica no alto, e olha para o oriente, e contempla os teus filhos desde o nascer do sol até o poente, pela Palavra daquele Santo, alegrando-se na própria lembrança de Deus. Pois os que iam a pé saíram de ti, enquanto eram arrastados pelo inimigo. Deus os trará de volta a ti, sendo levados com glória, como o trono de um reino. Pois Deus decretou que todo monte alto seja rebaixado, e os outeiros eternos, e que os vales sejam preenchidos, de modo que a superfície da terra fique plana, para que Israel, a glória de Deus, ande em segurança. As florestas também farão lugares sombreados, e toda árvore de cheiro suave será para o próprio Israel, por ordem de Deus. Pois Deus irá adiante com alegria, na luz do seu esplendor, com a misericórdia e a justiça que dele procedem. Ora, sendo todas essas coisas tais como são, não podem ser entendidas em referência a assuntos supracelestes; pois Deus, está dito, mostrará a toda a terra que está debaixo do céu a tua glória. Mas, nos tempos do reino, a terra será novamente chamada por Cristo [à sua condição primitiva], e Jerusalém reconstruída segundo o modelo da Jerusalém de cima, da qual o profeta Isaías diz: Eis que gravei os teus muros nas minhas mãos, e estás sempre diante dos meus olhos. E o apóstolo, também, escrevendo aos gálatas, diz de igual modo: Mas a Jerusalém que é de cima é livre, a qual é a mãe de todos nós. Ele não diz isto com nenhum pensamento de um Éon errante, nem de algum outro poder que tenha se apartado do Pleroma, nem de Prúnico, mas da Jerusalém que foi gravada nas mãos [de Deus]. E, no Apocalipse, João viu esta nova [Jerusalém] descendo sobre a nova terra. Pois, depois dos tempos do reino, ele diz: Vi um grande trono branco, e aquele que estava assentado sobre ele, de cuja face fugiram a terra e os céus; e não houve mais lugar para eles. E ele apresenta também as coisas ligadas à ressurreição geral e ao juízo, mencionando os mortos, grandes e pequenos. O mar, diz ele, entregou os mortos que nele havia, e a morte e o inferno entregaram os mortos que continham; e os livros foram abertos. Além disso, diz ele, o livro da vida foi aberto, e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras; e a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo, a segunda morte. Ora, isto é o que se chama Geena, à qual o Senhor chamou de fogo eterno. E se alguém, está dito, não foi achado escrito no livro da vida, foi lançado no lago de fogo. E depois disto, diz ele: Vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram; também não havia mais mar. E vi a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do céu, como uma noiva enfeitada para o seu esposo. E ouvi, está dito, uma grande voz vinda do trono, que dizia: Eis o tabernáculo de Deus com os homens, e ele habitará com eles; e eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles como seu Deus. E ele enxugará toda lágrima dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem tristeza, nem clamor, nem haverá mais dor, porque as primeiras coisas passaram. Isaías também declara exatamente o mesmo: Pois haverá um novo céu e uma nova terra; e não haverá lembrança das primeiras coisas, nem o coração pensará nelas, mas nela acharão alegria e exultação. Ora, isto é o que foi dito pelo apóstolo: Pois a aparência deste mundo passa. Com o mesmo propósito também declarou o Senhor: O céu e a terra passarão. Quando essas coisas, portanto, passarem acima da terra, João, o discípulo do Senhor, diz que a nova Jerusalém de cima [então] descerá, como uma noiva enfeitada para o seu esposo; e que este é o tabernáculo de Deus, no qual Deus habitará com os homens. Desta Jerusalém, a primeira é uma imagem: aquela Jerusalém da primeira terra, na qual os justos são disciplinados de antemão para a incorrupção e preparados para a salvação. E deste tabernáculo Moisés recebeu o modelo no monte; e nada pode ser alegorizado, mas todas as coisas são firmes, e verdadeiras, e substanciais, tendo sido feitas por Deus para a fruição dos homens justos. Pois, assim como é verdadeiramente Deus quem ressuscita o homem, assim também o homem verdadeiramente ressuscita dentre os mortos, e não alegoricamente, como mostrei repetidas vezes. E, assim como ele ressuscita de fato, assim também será de fato disciplinado de antemão para a incorrupção, e avançará e florescerá nos tempos do reino, a fim de tornar-se capaz de receber a glória do Pai. Então, quando todas as coisas forem feitas novas, ele verdadeiramente habitará na cidade de Deus. Pois está dito: Aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E o Senhor diz: Escreve tudo isto; pois estas palavras são fiéis e verdadeiras. E ele me disse: Está feito. E esta é a verdade da questão.
Pois, visto que há homens reais, deve haver também um estabelecimento real (plantationem), para que eles não desapareçam entre coisas inexistentes, mas progridam entre as que têm existência efetiva. Pois nem a substância nem a essência da criação é aniquilada (porque fiel e verdadeiro é aquele que a estabeleceu), mas a aparência deste mundo passa; isto é, passam aquelas coisas em meio às quais ocorreu a transgressão, visto que nelas o homem envelheceu. E por isso esta [presente] aparência foi formada temporária, prevendo Deus todas as coisas; como apontei no livro anterior, e como também mostrei, na medida do possível, a causa da criação deste mundo de coisas temporais. Mas, quando esta [presente] aparência [das coisas] passar, e o homem tiver sido renovado, e florescer num estado incorruptível, de modo a excluir a possibilidade de envelhecer, [então] haverá o novo céu e a nova terra, nos quais o novo homem permanecerá [continuamente], sempre mantendo um convívio renovado com Deus. E que essas coisas hão de continuar para sempre, sem fim, Isaías o declara: Pois, assim como o novo céu e a nova terra que eu faço permanecem diante de mim, diz o Senhor, assim permanecerão a tua descendência e o teu nome. E, como dizem os presbíteros: Então, aqueles que forem julgados dignos de uma morada no céu irão para lá, outros gozarão das delícias do paraíso, e outros possuirão o esplendor da cidade; pois em toda parte o Salvador será visto, conforme forem dignos os que o virem. [Eles dizem, além disso] que há esta distinção entre a habitação dos que produzem cem por um, a dos que produzem sessenta por um, e a dos que produzem trinta por um: pois os primeiros serão elevados aos céus, os segundos habitarão no paraíso, e os últimos morarão na cidade; e que foi por essa razão que o Senhor declarou: Na casa de meu Pai há muitas moradas. Pois todas as coisas pertencem a Deus, que provê a todos um lugar de habitação conveniente; assim como diz o seu Verbo, que a cada um é designada uma porção pelo Pai, conforme cada pessoa for ou vier a ser digna. E este é o leito sobre o qual se reclinarão os convidados, tendo sido convidados para as bodas. Os presbíteros, discípulos dos apóstolos, afirmam que esta é a gradação e o arranjo dos que são salvos, e que eles avançam por degraus desta natureza; e também que sobem pelo Espírito ao Filho, e pelo Filho ao Pai, e que, no tempo devido, o Filho entregará a sua obra ao Pai, assim como diz o apóstolo: Pois é preciso que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. Pois, nos tempos do reino, o homem justo que estiver sobre a terra esquecerá então de morrer. Mas, quando ele diz: Todas as coisas lhe serão sujeitas, é manifesto que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o próprio Filho se sujeitará àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos. João, portanto, previu distintamente a primeira ressurreição dos justos e a herança no reino da terra; e o que os profetas profetizaram a respeito disso está em harmonia [com a sua visão]. Pois o Senhor também ensinou essas coisas, quando prometeu que teria o cálice misturado, novo, com os seus discípulos no reino. O apóstolo, também, confessou que a criação será libertada da escravidão da corrupção, [para passar] à liberdade dos filhos de Deus. E em todas essas coisas, e por meio de todas elas, manifesta-se o mesmo Deus Pai, que formou o homem, e fez a promessa da herança da terra aos pais, que a trouxe (a criatura) para fora [da escravidão] na ressurreição dos justos, e que cumpre as promessas para o reino do seu Filho; concedendo depois, de maneira paterna, aquelas coisas que nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem [pensamento a respeito delas] subiu ao coração do homem. Pois há um só Filho, que cumpriu a vontade de seu Pai; e há também uma só raça humana, na qual se realizam os mistérios de Deus, para os quais os anjos desejam atentar; e eles não são capazes de perscrutar a sabedoria de Deus, mediante a qual a obra das suas mãos, confirmada e incorporada ao seu Filho, é levada à perfeição; de modo que a sua descendência, o Verbo Primogênito, descesse à criatura (facturam), isto é, ao que havia sido moldado (plasma), e fosse contido por ela; e, por outro lado, a criatura contivesse o Verbo, e subisse até ele, ultrapassando os anjos, e fosse feita à imagem e semelhança de Deus.