Contra as Heresias - Livro V 1
A ressurreicao da carne e o reino
E igualmente vãos são os que dizem que Deus veio às coisas que não lhe pertenciam, como que cobiçoso da propriedade alheia, a fim de entregar aquele homem, que tinha sido criado por outro, ao Deus que nada havia feito nem formado, mas que também estava privado desde o princípio da sua própria formação dos homens. A vinda, portanto, daquele que esses homens representam como vindo às coisas alheias não foi justa; nem ele realmente nos resgatou com o próprio sangue, se não se tornou verdadeiramente homem, restituindo à sua própria obra o que dela foi dito no princípio, que o homem foi feito segundo a imagem e semelhança de Deus; não arrebatando por estratagema a propriedade alheia, mas tomando posse do que era seu de modo justo e gracioso. No que dizia respeito à apostasia, de fato, ele nos resgata dela com justiça por seu próprio sangue; mas quanto a nós, que fomos resgatados, ele o faz graciosamente. Pois nada lhe demos previamente, nem ele deseja algo de nós, como se tivesse necessidade disso; mas nós é que temos necessidade de comunhão com ele. E por essa razão ele graciosamente se derramou, para nos reunir no seio do Pai. Mas vãos em todos os aspectos são os que desprezam toda a dispensação de Deus, negam a salvação da carne e tratam com desprezo a sua regeneração, sustentando que ela não é capaz de incorrupção. Mas se ela de fato não alcança a salvação, então nem o Senhor nos resgatou com o seu sangue, nem o cálice da Eucaristia é a comunhão do seu sangue, nem o pão que partimos é a comunhão do seu corpo. Pois o sangue só pode vir das veias e da carne, e de tudo o mais que compõe a substância do homem, tal como o Verbo de Deus realmente se tornou. Por seu próprio sangue ele nos resgatou, como também declara o seu apóstolo: Nele temos a redenção por seu sangue, a remissão dos pecados. E, como somos membros seus, somos também nutridos por meio da criação (e ele mesmo nos concede a criação, pois faz nascer o seu sol e envia a chuva quando quer). Ele reconheceu o cálice (que é parte da criação) como seu próprio sangue, do qual rega o nosso sangue; e o pão (também parte da criação) ele estabeleceu como seu próprio corpo, do qual dá crescimento aos nossos corpos. Quando, portanto, o cálice misturado e o pão preparado recebem o Verbo de Deus, e a Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo se realiza, e com essas coisas a substância da nossa carne é aumentada e sustentada, como podem afirmar que a carne é incapaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, ela que é nutrida do corpo e sangue do Senhor e é membro dele? Como também declara o bem-aventurado Paulo em sua Carta aos Efésios: que somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. Ele não diz essas palavras de algum homem espiritual e invisível, pois um espírito não tem ossos nem carne; mas se refere àquela dispensação pela qual o Senhor se tornou homem real, constituído de carne, nervos e ossos, aquela carne que é nutrida pelo cálice que é seu sangue e recebe crescimento do pão que é seu corpo. E assim como um sarmento da videira plantada na terra frutifica em sua estação, ou como um grão de trigo que cai na terra e se decompõe ressurge com crescimento multiplicado pelo Espírito de Deus, que contém todas as coisas, e então, pela sabedoria de Deus, serve para o uso dos homens e, recebendo o Verbo de Deus, torna-se a Eucaristia, que é o corpo e o sangue de Cristo; assim também os nossos corpos, nutridos por ela e depositados na terra, e ali sofrendo decomposição, ressuscitarão no tempo determinado, concedendo-lhes o Verbo de Deus a ressurreição para a glória de Deus, o Pai, que de graça dá a este mortal a imortalidade e a este corruptível a incorrupção, porque a força de Deus se aperfeiçoa na fraqueza; para que nunca nos enchamos de orgulho, como se tivéssemos a vida de nós mesmos, e nos exaltemos contra Deus, tornando-se ingratas as nossas mentes; mas, aprendendo pela experiência que possuímos duração eterna do poder superior deste Ser, e não da nossa própria natureza, não subestimemos a glória que envolve Deus tal como ele é, nem ignoremos a nossa própria natureza, mas saibamos o que Deus pode realizar e que benefícios o homem recebe, e assim nunca nos afastemos da verdadeira compreensão das coisas como elas são, isto é, tanto a respeito de Deus quanto a respeito do homem. E não poderia ser, talvez, como já observei, que para esse fim Deus permitiu a nossa dissolução no pó comum da mortalidade, para que nós, instruídos por todos os meios, fôssemos exatos em tudo no futuro, não ignorando nem a Deus nem a nós mesmos?