Contra as Heresias - Livro V 1
A ressurreicao da carne e o reino
Cristo redentor e a salvação da carne
Nos quatro livros anteriores, meu caríssimo amigo, que apresentei a ti, todos os hereges foram expostos, suas doutrinas trazidas à luz, e refutados esses homens que inventaram opiniões ímpias. Fiz isso aduzindo algo da doutrina própria de cada um deles, aquilo que deixaram em seus escritos, e também usando argumentos de natureza mais geral, aplicáveis a todos eles. Em seguida apontei a verdade e mostrei a pregação da Igreja, que os profetas anunciaram (como já demonstrei), mas que Cristo levou à perfeição e os apóstolos transmitiram; deles a Igreja recebeu essas verdades e, sendo a única em todo o mundo a preservá-las íntegras, transmitiu-as a seus filhos. Depois também, tendo resolvido todas as questões que os hereges nos propõem, explicado a doutrina dos apóstolos e exposto com clareza muitas das coisas que o Senhor disse e fez em parábolas, vou me esforçar, neste quinto livro da obra inteira que trata da exposição e refutação do conhecimento falsamente assim chamado, por apresentar provas tiradas do resto da doutrina do Senhor e das cartas apostólicas. Assim atendo ao teu pedido, conforme me solicitaste (já que de fato me foi confiado um lugar no ministério da palavra), trabalhando por todos os meios ao meu alcance para te dar grande ajuda contra as contradições dos hereges, para reconduzir também os que se desviaram e convertê-los à Igreja de Deus, e ao mesmo tempo firmar as mentes dos neófitos, para que guardem inabalável a fé que receberam, protegida íntegra pela Igreja, de modo que não sejam de forma alguma pervertidos por aqueles que tentam ensinar-lhes falsas doutrinas e afastá-los da verdade. Caberá a ti, no entanto, e a todos os que vierem a ler este escrito, percorrer com grande atenção o que já disse, para que adquiras conhecimento dos assuntos contra os quais combato. Pois é assim que tu os refutarás de modo legítimo e estarás preparado para receber as provas apresentadas contra eles, lançando fora suas doutrinas como imundície por meio da fé celestial, mas seguindo o único Mestre verdadeiro e firme, o Verbo de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que, por seu amor transcendente, se tornou o que somos para nos elevar a ser o que ele mesmo é.
Pois de nenhum outro modo poderíamos ter aprendido as coisas de Deus, a não ser que o nosso Mestre, existindo como o Verbo, se tivesse feito homem. Pois nenhum outro ser tinha o poder de nos revelar as coisas do Pai, exceto o seu próprio Verbo. Pois quem mais conheceu a mente do Senhor, ou quem mais se tornou seu conselheiro? E, de novo, de nenhum outro modo poderíamos ter aprendido senão vendo o nosso Mestre e ouvindo a sua voz com os nossos próprios ouvidos, para que, tornando-nos imitadores das suas obras e cumpridores das suas palavras, tivéssemos comunhão com ele, recebendo crescimento daquele que é perfeito e anterior a toda a criação. Nós, que há pouco fomos criados pelo único Ser bom e excelente, por aquele que tem o dom da imortalidade, formados à sua semelhança (predestinados, segundo a presciência do Pai, para que nós, que ainda não existíamos, viéssemos a existir) e feitos as primícias da criação, recebemos, nos tempos previamente conhecidos, as bênçãos da salvação, segundo a ministração do Verbo, que é perfeito em todas as coisas, como o poderoso Verbo e verdadeiro homem, que, resgatando-nos com o próprio sangue de modo conforme à razão, deu-se a si mesmo como resgate por aqueles que tinham sido levados ao cativeiro. E visto que a apostasia tiranizava injustamente sobre nós e, embora fôssemos por natureza propriedade do Deus onipotente, nos alienava contra a natureza, tornando-nos seus próprios discípulos, o Verbo de Deus, poderoso em todas as coisas e em nada falho quanto à sua própria justiça, voltou-se com justiça contra essa apostasia e resgatou dela a sua própria propriedade; não por meios violentos, como a apostasia obtivera domínio sobre nós no princípio, quando insaciavelmente arrebatou o que não era seu, mas por meio da persuasão, como convinha a um Deus de conselho, que não usa meios violentos para obter o que deseja. Assim, nem a justiça foi violada, nem a antiga obra de Deus foi à destruição. Visto que o Senhor nos resgatou desse modo por seu próprio sangue, dando a sua alma por nossas almas e a sua carne por nossa carne, e visto que também derramou o Espírito do Pai para a união e comunhão de Deus e do homem, comunicando de fato Deus aos homens por meio do Espírito e, por outro lado, ligando o homem a Deus por sua própria encarnação, e concedendo-nos em sua vinda a imortalidade de modo duradouro e verdadeiro, por meio da comunhão com Deus, todas as doutrinas dos hereges ruem. Vãos, de fato, são os que afirmam que ele apareceu apenas em aparência. Pois essas coisas não foram feitas só na aparência, mas em realidade efetiva. Mas se ele apareceu como homem sem ser homem, então nem o Espírito Santo poderia ter repousado sobre ele, fato que de fato ocorreu, pois o Espírito é invisível; nem, nesse caso, haveria nele grau algum de verdade, pois ele não seria aquilo que parecia ser. Mas já observei que Abraão e os outros profetas o contemplaram de modo profético, predizendo em visão o que haveria de acontecer. Se, então, tal ser apareceu agora em aparência exterior diferente do que era em realidade, houve uma certa visão profética dada aos homens, e deve-se aguardar outra vinda sua, na qual ele será tal como agora foi visto de modo profético. E já provei que dizer que ele apareceu apenas em aparência exterior é o mesmo que afirmar que ele nada recebeu de Maria. Pois ele não teria possuído verdadeiramente carne e sangue, pelos quais nos resgatou, se não tivesse recapitulado em si mesmo a antiga formação de Adão. Vãos, portanto, são os discípulos de Valentim que sustentam essa opinião, a fim de excluir a carne da salvação e rejeitar o que Deus formou. Vãos também são os ebionitas, que não recebem pela fé em sua alma a união de Deus e do homem, mas permanecem no velho fermento do nascimento natural e não querem entender que o Espírito Santo veio sobre Maria e o poder do Altíssimo a cobriu com sua sombra; por isso também o que foi gerado é uma coisa santa, e o Filho do Deus Altíssimo, o Pai de todos, é quem efetuou a encarnação desse ser e manifestou um novo tipo de geração; para que, assim como pela geração anterior herdamos a morte, por esta nova geração herdássemos a vida. Por isso esses homens rejeitam a mistura do vinho celestial e desejam que ela seja apenas água deste mundo, não recebendo Deus de modo a ter união com ele, mas permanecendo naquele Adão que foi vencido e expulso do Paraíso; sem considerar que, assim como no princípio da nossa formação em Adão aquele sopro de vida que procedeu de Deus, unido ao que tinha sido formado, animou o homem e o manifestou como ser dotado de razão, assim também, nos tempos do fim, o Verbo do Pai e o Espírito de Deus, unidos à antiga substância da formação de Adão, tornaram o homem vivo e perfeito, capaz de receber o Pai perfeito; para que, assim como no Adão natural todos morremos, no espiritual todos sejamos vivificados. Pois nunca, em tempo algum, Adão escapou das mãos de Deus, a quem o Pai, falando, disse: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. E por essa razão, nos últimos tempos, não pela vontade da carne, nem pela vontade do homem, mas pelo beneplácito do Pai, as suas mãos formaram um homem vivo, para que Adão fosse criado de novo segundo a imagem e semelhança de Deus.
E igualmente vãos são os que dizem que Deus veio às coisas que não lhe pertenciam, como que cobiçoso da propriedade alheia, a fim de entregar aquele homem, que tinha sido criado por outro, ao Deus que nada havia feito nem formado, mas que também estava privado desde o princípio da sua própria formação dos homens. A vinda, portanto, daquele que esses homens representam como vindo às coisas alheias não foi justa; nem ele realmente nos resgatou com o próprio sangue, se não se tornou verdadeiramente homem, restituindo à sua própria obra o que dela foi dito no princípio, que o homem foi feito segundo a imagem e semelhança de Deus; não arrebatando por estratagema a propriedade alheia, mas tomando posse do que era seu de modo justo e gracioso. No que dizia respeito à apostasia, de fato, ele nos resgata dela com justiça por seu próprio sangue; mas quanto a nós, que fomos resgatados, ele o faz graciosamente. Pois nada lhe demos previamente, nem ele deseja algo de nós, como se tivesse necessidade disso; mas nós é que temos necessidade de comunhão com ele. E por essa razão ele graciosamente se derramou, para nos reunir no seio do Pai. Mas vãos em todos os aspectos são os que desprezam toda a dispensação de Deus, negam a salvação da carne e tratam com desprezo a sua regeneração, sustentando que ela não é capaz de incorrupção. Mas se ela de fato não alcança a salvação, então nem o Senhor nos resgatou com o seu sangue, nem o cálice da Eucaristia é a comunhão do seu sangue, nem o pão que partimos é a comunhão do seu corpo. Pois o sangue só pode vir das veias e da carne, e de tudo o mais que compõe a substância do homem, tal como o Verbo de Deus realmente se tornou. Por seu próprio sangue ele nos resgatou, como também declara o seu apóstolo: Nele temos a redenção por seu sangue, a remissão dos pecados. E, como somos membros seus, somos também nutridos por meio da criação (e ele mesmo nos concede a criação, pois faz nascer o seu sol e envia a chuva quando quer). Ele reconheceu o cálice (que é parte da criação) como seu próprio sangue, do qual rega o nosso sangue; e o pão (também parte da criação) ele estabeleceu como seu próprio corpo, do qual dá crescimento aos nossos corpos. Quando, portanto, o cálice misturado e o pão preparado recebem o Verbo de Deus, e a Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo se realiza, e com essas coisas a substância da nossa carne é aumentada e sustentada, como podem afirmar que a carne é incapaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, ela que é nutrida do corpo e sangue do Senhor e é membro dele? Como também declara o bem-aventurado Paulo em sua Carta aos Efésios: que somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. Ele não diz essas palavras de algum homem espiritual e invisível, pois um espírito não tem ossos nem carne; mas se refere àquela dispensação pela qual o Senhor se tornou homem real, constituído de carne, nervos e ossos, aquela carne que é nutrida pelo cálice que é seu sangue e recebe crescimento do pão que é seu corpo. E assim como um sarmento da videira plantada na terra frutifica em sua estação, ou como um grão de trigo que cai na terra e se decompõe ressurge com crescimento multiplicado pelo Espírito de Deus, que contém todas as coisas, e então, pela sabedoria de Deus, serve para o uso dos homens e, recebendo o Verbo de Deus, torna-se a Eucaristia, que é o corpo e o sangue de Cristo; assim também os nossos corpos, nutridos por ela e depositados na terra, e ali sofrendo decomposição, ressuscitarão no tempo determinado, concedendo-lhes o Verbo de Deus a ressurreição para a glória de Deus, o Pai, que de graça dá a este mortal a imortalidade e a este corruptível a incorrupção, porque a força de Deus se aperfeiçoa na fraqueza; para que nunca nos enchamos de orgulho, como se tivéssemos a vida de nós mesmos, e nos exaltemos contra Deus, tornando-se ingratas as nossas mentes; mas, aprendendo pela experiência que possuímos duração eterna do poder superior deste Ser, e não da nossa própria natureza, não subestimemos a glória que envolve Deus tal como ele é, nem ignoremos a nossa própria natureza, mas saibamos o que Deus pode realizar e que benefícios o homem recebe, e assim nunca nos afastemos da verdadeira compreensão das coisas como elas são, isto é, tanto a respeito de Deus quanto a respeito do homem. E não poderia ser, talvez, como já observei, que para esse fim Deus permitiu a nossa dissolução no pó comum da mortalidade, para que nós, instruídos por todos os meios, fôssemos exatos em tudo no futuro, não ignorando nem a Deus nem a nós mesmos?
O apóstolo Paulo, além disso, apontou do modo mais claro que o homem foi entregue à sua própria fraqueza, para que, exaltado, não viesse a apartar-se da verdade. Assim ele diz na segunda Carta aos Coríntios: E, para que eu não me exaltasse pela sublimidade das revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás para me esbofetear. Sobre isto roguei três vezes ao Senhor que se afastasse de mim. Mas ele me disse: A minha graça te basta, pois a força se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, portanto, me gloriarei antes nas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em mim. Então, que dizer? (como alguns podem exclamar) Quis o Senhor, nesse caso, que os seus apóstolos passassem por tais bofetadas e que ele suportasse tal fraqueza? Foi exatamente assim; a palavra o diz. Pois a força se aperfeiçoa na fraqueza, tornando melhor o homem que, por meio da sua fraqueza, vem a conhecer o poder de Deus. Pois como poderia o homem ter aprendido que ele mesmo é um ser fraco e mortal por natureza, mas que Deus é imortal e poderoso, se não tivesse aprendido pela experiência o que há em ambos? Pois não há nada de mau em aprender as próprias fraquezas pela perseverança; ao contrário, isso tem até o efeito benéfico de impedi-lo de formar uma opinião exagerada da própria natureza. Mas exaltar-se contra Deus e tomar para si a glória dele, tornando o homem ingrato, trouxe-lhe muito mal. E assim, digo, o homem deve aprender ambas as coisas pela experiência, para que não fique destituído de verdade e de amor, nem para consigo mesmo nem para com o seu Criador. A experiência de ambas as coisas lhe confere o verdadeiro conhecimento a respeito de Deus e do homem, e aumenta o seu amor a Deus. Ora, onde há aumento de amor, ali uma glória maior é produzida pelo poder de Deus para os que o amam. Esses homens, portanto, anulam o poder de Deus e não consideram o que a palavra declara, quando se detêm na fraqueza da carne, mas não levam em conta o poder daquele que a ressuscita dos mortos. Pois, se ele não vivifica o que é mortal e não traz de volta o corruptível à incorrupção, não é um Deus de poder. Mas que ele é poderoso em todos esses aspectos, devemos perceber a partir da nossa origem, visto que Deus, tomando pó da terra, formou o homem. E certamente é muito mais difícil e incrível, a partir de ossos, nervos, veias e o restante da organização do homem inexistentes, fazer com que tudo isso passe a existir e tornar o homem uma criatura animada e racional, do que reintegrar de novo o que tinha sido criado e depois decomposto na terra (pelas razões já mencionadas), passando assim para aqueles elementos a partir dos quais o homem, que antes não existia, foi formado. Pois aquele que no princípio fez existir o que ainda não era, justamente quando lhe aprouve, muito mais restabelecerá de novo os que tiveram existência anterior, quando for da sua vontade que herdem a vida por ele concedida. E aquela carne também será achada apta e capaz de receber o poder de Deus, ela que no princípio recebeu os toques habilidosos de Deus; de modo que uma parte se tornou o olho para ver; outra, o ouvido para ouvir; outra, a mão para apalpar e trabalhar; outra, os tendões estendidos por toda parte, mantendo unidos os membros; outra, as artérias e veias, canais para o sangue e o ar; outra, os vários órgãos internos; outra, o sangue, que é o vínculo de união entre a alma e o corpo. Mas por que continuar nesse tom? Os números não bastariam para exprimir a multiplicidade de partes do corpo humano, que não foi feito de nenhum outro modo senão pela grande sabedoria de Deus. Mas as coisas que participam da habilidade e sabedoria de Deus participam também do seu poder. A carne, portanto, não está privada de participação na sabedoria e no poder construtivos de Deus. Mas se o poder daquele que é o doador da vida se aperfeiçoa na fraqueza, isto é, na carne, então que nos digam, quando sustentam a incapacidade da carne de receber a vida concedida por Deus, se dizem essas coisas como homens vivos no presente e participantes da vida, ou se reconhecem que, não tendo parte alguma na vida, são neste momento homens mortos. E se realmente são homens mortos, como é que se movem, falam e desempenham aquelas outras funções que não são ações dos mortos, mas dos vivos? Mas se estão vivos agora, e se todo o seu corpo participa da vida, como podem ousar afirmar que a carne não está qualificada para participar da vida, quando confessam que têm vida no momento presente? É como se alguém tomasse uma esponja cheia de água, ou uma tocha em chamas, e declarasse que a esponja não poderia de modo algum participar da água, nem a tocha do fogo. Exatamente desse modo procedem esses homens, quando, alegando que estão vivos e levam a vida em seus membros, contradizem-se depois ao representar esses membros como incapazes de receber a vida. Mas se a vida temporal presente, que é de natureza tão inferior à vida eterna, pode no entanto fazer tanto a ponto de vivificar os nossos membros mortais, por que não haveria a vida eterna, sendo muito mais poderosa que esta, de vivificar a carne, que já conviveu com a vida e se acostumou a sustentá-la? Pois que a carne pode realmente participar da vida fica demonstrado pelo fato de estar viva; pois ela continua a viver enquanto for propósito de Deus que assim seja. É também evidente que Deus tem o poder de lhe conferir a vida, visto que concede a vida a nós, que existimos. E, portanto, já que o Senhor tem poder para infundir vida no que formou, e já que a carne é capaz de ser vivificada, o que resta para impedir que ela participe da incorrupção, que é uma vida bem-aventurada e sem fim concedida por Deus?
Aquelas pessoas que imaginam a existência de outro Pai além do Criador, e o chamam de Deus bom, enganam-se a si mesmas; pois o apresentam como um ser fraco, inútil e negligente, para não dizer maligno e cheio de inveja, visto que afirmam que os nossos corpos não são vivificados por ele. Pois quando dizem de coisas que a todos é manifesto permanecerem imortais, como o espírito, a alma e outras semelhantes, que são vivificadas pelo Pai, mas que outra coisa, a saber, o corpo, que é vivificada de modo nenhum diferente, isto é, pela vida que Deus lhe concede, é abandonada pela vida, então ou hão de confessar que isso prova que o seu Pai é fraco e impotente, ou então invejoso e maligno. Pois, visto que o Criador vivifica até aqui os nossos corpos mortais e lhes promete a ressurreição pelos profetas, como apontei, quem, nesse caso, se mostra mais poderoso, mais forte ou verdadeiramente bom? É o Criador, que vivifica o homem inteiro, ou é o Pai deles, assim chamado falsamente? Este finge ser o vivificador das coisas que são imortais por natureza, às quais a vida está sempre presente por sua própria natureza; mas não vivifica benevolamente aquelas coisas que precisavam da sua ajuda para viver, e antes as deixa cair descuidadamente sob o poder da morte. Será, então, que o Pai deles não lhes concede a vida quando tem o poder de fazê-lo, ou será que não possui esse poder? Se, por um lado, é porque não pode, ele é, nessa suposição, um ser sem poder, nem é mais perfeito que o Criador; pois o Criador concede, como devemos perceber, o que ele é incapaz de dar. Mas se, por outro lado, não concede isso embora tenha o poder de fazê-lo, então fica provado que ele não é um Pai bom, mas invejoso e maligno. Se, ainda, eles apontam alguma causa pela qual o seu Pai não dá vida aos corpos, então essa causa necessariamente há de parecer superior ao Pai, visto que o impede de exercer a sua benevolência; e a sua benevolência ficará assim provada fraca, por causa daquela causa que apresentam. Ora, todos devem perceber que os corpos são capazes de receber a vida. Pois eles vivem na medida em que Deus quer que vivam; e, sendo assim, os hereges não podem sustentar que esses corpos sejam absolutamente incapazes de receber a vida. Se, portanto, por causa de necessidade ou de qualquer outra causa, aqueles corpos que são capazes de participar da vida não são vivificados, o seu Pai será escravo da necessidade e dessa causa, e não, portanto, um agente livre, que tem a sua vontade sob o próprio controle.
Para que se aprenda que os corpos continuaram a existir por longo período, enquanto foi do agrado de Deus que florescessem, leiam esses hereges as Escrituras, e descobrirão que os nossos predecessores avançaram além dos setecentos, oitocentos e novecentos anos de idade; e que os seus corpos acompanharam a duração prolongada dos seus dias e participaram da vida enquanto Deus quis que vivessem. Mas por que me refiro a esses homens? Pois Enoque, quando agradou a Deus, foi transladado no mesmo corpo em que lhe agradara, apontando assim antecipadamente a translação dos justos. Elias também foi arrebatado enquanto ainda estava na substância da forma natural, exibindo assim em profecia a assunção dos que são espirituais, e que nada impedia que o seu corpo fosse transladado e arrebatado. Pois foi por meio das mesmíssimas mãos pelas quais foram modelados no princípio que receberam essa translação e assunção. Pois em Adão as mãos de Deus tinham se acostumado a ordenar, a governar e a sustentar a sua própria obra, e a levá-la e colocá-la onde lhes aprouvesse. Onde, então, foi colocado o primeiro homem? No paraíso, certamente, como declara a Escritura: E Deus plantou um jardim no Éden, ao oriente, e ali colocou o homem que tinha formado. E depois, quando o homem se mostrou desobediente, foi dali lançado para este mundo. Por isso também os anciãos, que foram discípulos dos apóstolos, nos dizem que os que foram transladados foram transferidos para aquele lugar (pois o paraíso foi preparado para os homens justos, os que têm o Espírito; lugar onde também o apóstolo Paulo, quando foi arrebatado, ouviu palavras que nos são indizíveis em nossa condição presente), e que ali permanecerão os que foram transladados até a consumação de todas as coisas, como um prelúdio da imortalidade. Se, contudo, alguém imaginar impossível que homens sobrevivessem por tão longo tempo, e que Elias não foi arrebatado em carne, mas que a sua carne foi consumida no carro de fogo, considere que Jonas, quando foi lançado ao mar profundo e tragado pelo ventre da baleia, foi por ordem de Deus de novo lançado a salvo em terra. E, mais uma vez, quando Ananias, Azarias e Misael foram lançados na fornalha de fogo sete vezes mais quente, não sofreram dano algum, nem o cheiro de fogo se percebia neles. Como, portanto, a mão de Deus esteve com eles, realizando coisas maravilhosas no seu caso, coisas impossíveis de serem realizadas pela natureza humana, que admiração haveria se também no caso dos que foram transladados ela realizasse algo maravilhoso, agindo em obediência à vontade de Deus, o Pai? Ora, este é o Filho de Deus, como a Escritura apresenta o rei Nabucodonosor tendo dito: Não lançamos três homens atados na fornalha? E eis que vejo quatro andando no meio do fogo, e o quarto é semelhante ao Filho de Deus. Nem a natureza de qualquer coisa criada, portanto, nem a fraqueza da carne, pode prevalecer contra a vontade de Deus. Pois Deus não está sujeito às coisas criadas, mas as coisas criadas a Deus; e todas as coisas obedecem à sua vontade. Por isso também o Senhor declara: As coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus. Assim como poderia parecer aos homens dos dias atuais, que ignoram o que Deus dispôs, ser coisa incrível e impossível que algum homem vivesse por tal número de anos, e no entanto os que foram antes de nós viveram até tal idade, e os que foram transladados vivem como penhor da futura duração de dias; e assim como poderia parecer impossível que do ventre da baleia e da fornalha de fogo os homens saíssem ilesos, e no entanto saíram, conduzidos como que pela mão de Deus, com o propósito de declarar o seu poder; assim também agora, embora alguns, não conhecendo o poder e a promessa de Deus, oponham-se à sua própria salvação, julgando impossível que Deus, que ressuscita os mortos, tenha poder de lhes conferir duração eterna, ainda assim o ceticismo de homens dessa têmpera não tornará sem efeito a fidelidade de Deus.
Ora, Deus será glorificado em sua obra, ajustando-a de modo a torná-la conforme e modelada segundo o seu próprio Filho. Pois pelas mãos do Pai, isto é, pelo Filho e pelo Espírito Santo, foi feito à semelhança de Deus o homem, e não apenas uma parte do homem. Ora, a alma e o espírito são certamente uma parte do homem, mas certamente não o homem; pois o homem perfeito consiste na mescla e união da alma que recebe o espírito do Pai com a junção daquela natureza carnal que foi modelada segundo a imagem de Deus. Por essa razão o apóstolo declara: Falamos sabedoria entre os que são perfeitos, chamando perfeitas àquelas pessoas que receberam o Espírito de Deus e que pelo Espírito de Deus falam em todas as línguas, como ele mesmo costumava falar. Do mesmo modo também ouvimos muitos irmãos na Igreja que possuem dons proféticos e que pelo Espírito falam toda espécie de línguas, e trazem à luz, para o benefício geral, as coisas ocultas dos homens, e declaram os mistérios de Deus, os quais o apóstolo também chama de espirituais, sendo eles espirituais porque participam do Espírito, e não porque a sua carne tenha sido despida e retirada e eles se tenham tornado puramente espirituais. Pois se alguém retirar a substância da carne, isto é, da obra de Deus, e entender o que é puramente espiritual, isso então não seria um homem espiritual, mas o espírito de um homem ou o Espírito de Deus. Mas quando o espírito, aqui mesclado com a alma, é unido à obra de Deus, o homem é tornado espiritual e perfeito pela efusão do Espírito, e este é aquele que foi feito à imagem e semelhança de Deus. Mas se o Espírito falta à alma, aquele que é assim é de fato de natureza animal e, ficando carnal, será um ser imperfeito, possuindo de fato a imagem de Deus na sua formação, mas não recebendo a semelhança pelo Espírito; e assim esse ser é imperfeito. Do mesmo modo, se alguém retirar a imagem e puser de lado a obra, não poderá então entender isso como sendo um homem, mas como alguma parte de um homem, como já disse, ou como algo diferente de um homem. Pois aquela carne que foi modelada não é em si mesma um homem perfeito, mas o corpo de um homem e parte de um homem. Nem a alma em si mesma, considerada à parte, é o homem; mas é a alma de um homem e parte de um homem. Nem o espírito é um homem, pois se chama o espírito, e não um homem; mas a mescla e união de tudo isso constitui o homem perfeito. E por essa causa o apóstolo, explicando-se, deixa claro que o homem salvo é um homem completo, além de espiritual; dizendo assim na primeira Carta aos Tessalonicenses: Ora, o Deus da paz vos santifique perfeitos; e que o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros, sem reproche, para a vinda do Senhor Jesus Cristo. Ora, qual era o seu objetivo ao orar para que esses três, isto é, alma, corpo e espírito, fossem conservados para a vinda do Senhor, senão que estava ciente da futura reintegração e união dos três, e de que herdariam uma só e mesma salvação? Por essa causa também ele declara que são perfeitos os que apresentam ao Senhor os três componentes sem ofensa. Esses, então, são os perfeitos que tiveram o Espírito de Deus permanecendo neles e conservaram suas almas e corpos irrepreensíveis, mantendo firme a fé em Deus, isto é, aquela fé que é dirigida a Deus, e mantendo trato justo para com o próximo. Por isso também ele diz que esta obra é o templo de Deus, declarando assim: Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém, portanto, profanar o templo de Deus, Deus o destruirá; pois o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós. Aqui ele declara manifestamente que o corpo é o templo no qual o Espírito habita. Como também o Senhor fala, referindo-se a si mesmo: Destruí este templo, e em três dias o levantarei. Disse isto, no entanto, segundo se diz, do templo do seu corpo. E não só o apóstolo reconhece os nossos corpos como templo, mas até como templo de Cristo, dizendo assim aos coríntios: Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei então os membros de Cristo e os farei membros de uma prostituta? Ele diz essas coisas não em referência a algum outro homem espiritual, pois um ser de tal natureza nada teria a ver com uma prostituta; mas declara que o nosso corpo, isto é, a carne que permanece em santidade e pureza, é membro de Cristo; mas que, quando se torna um com uma prostituta, torna-se membro de uma prostituta. E por essa razão ele disse: Se alguém profanar o templo de Deus, Deus o destruirá. Como, então, não é a maior das blasfêmias alegar que o templo de Deus, no qual habita o Espírito do Pai, e os membros de Cristo, não participam da salvação, mas são reduzidos à perdição? Também que os nossos corpos são ressuscitados não da sua própria substância, mas pelo poder de Deus, ele diz aos coríntios: Ora, o corpo não é para a fornicação, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. Mas Deus ressuscitou o Senhor e nos ressuscitará a nós pelo seu próprio poder.
Do mesmo modo, portanto, como Cristo ressuscitou na substância da carne e apontou aos seus discípulos a marca dos pregos e a abertura no seu lado (ora, esses são os sinais daquela carne que ressuscitou dos mortos), assim também ele, diz-se, nos ressuscitará pelo seu próprio poder. E, de novo, aos romanos ele diz: Mas, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo dos mortos também vivificará os vossos corpos mortais. Que são, então, os corpos mortais? Podem ser as almas? Não, pois as almas são incorpóreas quando comparadas com os corpos mortais; pois Deus soprou no rosto do homem o sopro da vida, e o homem se tornou alma vivente. Ora, o sopro da vida é coisa incorpórea. E certamente não podem sustentar que o próprio sopro da vida seja mortal. Por isso Davi diz: A minha alma também viverá para ele, como se a sua substância fosse imortal. Nem, por outro lado, podem dizer que o espírito é o corpo mortal. Que resta, então, ao qual possamos aplicar o termo corpo mortal, senão a coisa que foi modelada, isto é, a carne, da qual também se diz que Deus a vivificará? Pois é esta que morre e se decompõe, mas não a alma nem o espírito. Pois morrer é perder o poder vital e tornar-se daí em diante sem fôlego, inanimado e privado de movimento, e dissolver-se naqueles componentes a partir dos quais também derivou o começo da sua substância. Mas isso não acontece à alma, pois ela é o sopro da vida; nem ao espírito, pois o espírito é simples e não composto, de modo que não pode ser decomposto, e ele mesmo é a vida dos que o recebem. Devemos, portanto, concluir que é em referência à carne que se menciona a morte; carne que, após a partida da alma, fica sem fôlego e inanimada e se decompõe gradualmente na terra de onde foi tomada. Isto, então, é o que é mortal. E é disto que ele também diz: Ele vivificará os vossos corpos mortais. E por isso, em referência a ela, ele diz na primeira Carta aos Coríntios: Assim também é a ressurreição dos mortos: semeia-se em corrupção, ressuscita em incorrupção. Pois ele declara: O que tu semeias não é vivificado se primeiro não morrer. Mas o que é aquilo que, como um grão de trigo, é semeado na terra e apodrece, senão os corpos que são depositados na terra, nos quais também são lançadas as sementes? E por essa razão ele disse: Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Pois o que há de mais ignóbil que a carne morta? Ou, por outro lado, o que há de mais glorioso que ela mesma, quando ressuscita e participa da incorrupção? Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder: na sua própria fraqueza, certamente, porque, sendo terra, vai para a terra; mas é vivificada pelo poder de Deus, que a ressuscita dos mortos. Semeia-se corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Ele ensinou, sem dúvida alguma, que tal linguagem não foi usada por ele nem em referência à alma nem ao espírito, mas a corpos que se tornaram cadáveres. Pois estes são corpos animais, isto é, corpos que participam da vida, a qual, quando perdem, sucumbem à morte; e então, ressuscitando por instrumentalidade do Espírito, tornam-se corpos espirituais, de modo que pelo Espírito possuem vida perpétua. Pois agora, diz ele, conhecemos em parte e profetizamos em parte, mas então face a face. E isto também foi dito por Pedro: A quem, sem ter visto, amais; em quem, mesmo agora não o vendo, credes; e, crendo, exultareis com alegria indizível. Pois o nosso rosto verá a face do Senhor e exultará com alegria indizível, isto é, quando contemplar o seu próprio Deleite.