Capítulos
A Guerra dos Judeus - Livro III
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e recebeu o comando das forças da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano em Jotapata, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
A Guerra dos Judeus (em grego Peri tou Ioudaikou polemou) é a primeira obra de Josefo, uma história da revolta judaica contra Roma em sete livros. Segundo o próprio autor, ele a redigiu primeiro na sua língua materna, identificada como o aramaico, para os judeus do Oriente, e depois preparou a versão em grego que chegou até nós. Essa edição grega foi publicada por volta de 75 a 79 d.C., no reinado de Vespasiano, que recebeu uma cópia, o que fixa o limite superior antes da morte do imperador em 79. A obra começa com um resumo da história judaica desde o período dos macabeus e segue até a queda de Massada.
O Livro III na Obra
O Livro III cobre a campanha de Vespasiano na Galileia no ano 67 d.C., a primeira grande ofensiva romana organizada depois das derrotas iniciais relatadas no Livro II. Esse período não tem paralelo na Bíblia hebraica, que se encerra séculos antes, nem no Novo Testamento, que não narra a guerra. A narrativa acompanha a chegada de Vespasiano com as legiões, a descrição geográfica do território, a disciplina do exército romano e, no centro do livro, o cerco de Jotapata, a cidade que Josefo defendeu e onde foi capturado. É também aqui que ele insere uma longa digressão elogiosa sobre a organização militar de Roma.
Conteúdo do Livro
- Nero, alarmado com as derrotas na Judeia, envia o general Vespasiano à Síria para conduzir a guerra contra os judeus — (A Guerra dos Judeus - Livro III 1)
- A grande matança dos judeus perto de Ascalon e a chegada de Vespasiano a Ptolemaida, onde reúne suas forças — (A Guerra dos Judeus - Livro III 2)
- Uma descrição da Galileia, da Samaria e da Judeia, com seus limites, cidades e a fertilidade da terra — (A Guerra dos Judeus - Livro III 3)
- Josefo, no comando das forças da Galileia, tenta atacar Séforis mas é repelido, e Tito chega a Ptolemaida com um grande exército — (A Guerra dos Judeus - Livro III 4)
- A descrição dos exércitos e dos acampamentos romanos, da disciplina das legiões e da ordem com que marchavam, apresentada como modelo de organização militar — (A Guerra dos Judeus - Livro III 5)
- Plácido tenta tomar Jotapata e é repelido, e Vespasiano marcha para a Galileia para subjugar a região — (A Guerra dos Judeus - Livro III 6)
- Depois de tomar a cidade de Gádara, Vespasiano marcha para Jotapata, e após um longo cerco a cidade é traída por um desertor e tomada — (A Guerra dos Judeus - Livro III 7)
- Josefo, escondido com seus companheiros, é descoberto por uma mulher, discute com os homens que queriam impedir sua entrega, fala a Vespasiano ao ser levado até ele e é poupado pelo general — (A Guerra dos Judeus - Livro III 8)
- Como Jope foi tomada pelos romanos e como Tiberíades se rendeu sem oferecer resistência — (A Guerra dos Judeus - Livro III 9)
- Como Taricheia foi tomada, seguida de uma descrição do rio Jordão e da fértil região de Genesaré — (A Guerra dos Judeus - Livro III 10)
Roma envia Vespasiano
A geografia do território
A concentração das tropas
O cerco de Jotapata
A captura de Josefo
A queda das cidades restantes
O Cerco de Jotapata e a Captura de Josefo
O episódio mais conhecido do Livro III é o cerco de Jotapata, fortaleza da Galileia que Josefo comandou pessoal e diretamente. Segundo o relato, a cidade resistiu cerca de quarenta e sete dias antes de cair, em julho de 67, graças a muralhas reforçadas, contra-ataques e expedientes como líquidos ferventes lançados sobre os aríetes romanos. Tomada a cidade, Josefo se escondeu numa caverna com outros defensores. Ele narra que os companheiros decidiram morrer antes de se render e que sortearam quem mataria quem, num pacto suicida do qual Josefo escapou por acaso ou por cálculo. Levado a Vespasiano, teria predito que o general se tornaria imperador, o que mais tarde lhe garantiu a vida e a proteção da corte. Esse é o ponto de virada da biografia de Josefo: o comandante rebelde passa a cliente dos Flávios, e essa mudança de posição é exatamente o que pesa sobre a leitura do relato.
Fontes e Método
Para os eventos da Galileia, Josefo escreve como testemunha ocular, já que ele mesmo comandou a defesa antes de passar para o lado romano. Essa proximidade dá ao relato detalhes que nenhuma outra fonte oferece, mas também o compromete, porque o autor é parte interessada nos episódios que descreve. Depois da captura, Josefo acompanhou o acampamento romano e teve acesso aos comentários de guerra de Vespasiano e de Tito, que cita como fonte. O resultado tende a favorecer os vencedores: as legiões aparecem como força disciplinada e quase invencível, enquanto a derrota judaica é atribuída tanto à superioridade romana quanto às divisões internas dos rebeldes. Convém ler com cautela os trechos em que o próprio Josefo é personagem, sobretudo a cena da caverna, escrita para justificar sua sobrevivência.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego de A Guerra dos Judeus sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese, publicada em Berlim entre 1885 e 1895, base também da tradução da Loeb Classical Library. No Ocidente latino circulou desde o século IV uma adaptação cristã conhecida como pseudo-Hegesipo, o De excidio Hierosolymitano, que reorganiza e reduz a obra a cinco livros e moldou parte da recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.
Valor Histórico e Cautelas
A Guerra dos Judeus é a fonte primária insubstituível para a revolta de 66 a 73 e para a campanha da Galileia em particular, sem a qual o período seria quase desconhecido. Ainda assim, exige duas cautelas principais. A primeira são os números: Josefo tende a inflar contingentes, baixas e cifras de cativos, e os totais que apresenta costumam ser tratados como exagero retórico. A segunda é o programa apologético, que serve ao mesmo tempo para exaltar Roma e para preservar a dignidade do povo judeu diante dos vencedores. A arqueologia dá ancoragem material ao núcleo do relato. As escavações em Jotapata, a moderna Yodfat, revelaram muralhas, torres e uma camada de destruição compatíveis com o cerco de 67, e o achado de moedas que cessam por volta desse ano reforça a data. Para outros episódios, narrados nos livros seguintes, a base material varia. A destruição do Templo em 70 tem confirmação arqueológica robusta, com a camada de incêndio da Cidade Alta e os blocos derrubados do Monte do Templo. Já o suicídio coletivo de Massada é debatido: a escavação de Yigael Yadin confirma o cerco e a rampa romana, mas não o suicídio em si, e parte dos estudiosos, como Kenneth Atkinson e Nachman Ben-Yehuda, considera a cena uma construção literária de Josefo sem respaldo nos achados.