A Guerra dos Judeus - Livro III 1

Livro III: Vespasiano na Galileia e o cerco de Jotapata

Nero envia Vespasiano para a Síria a fim de fazer guerra aos judeus.

Quando Nero foi informado do mau resultado dos romanos na Judeia, um abatimento e um terror disfarçados o atingiram, como costuma acontecer nesses casos. Em público, no entanto, ele se mostrava muito altivo e cheio de raiva, dizendo que o ocorrido se devia muito mais à negligência do comandante do que a qualquer bravura do inimigo. Como achava próprio de quem carregava o peso de todo o império desprezar tais desgraças, fingia agora fazê-lo e ter uma alma superior a qualquer revés triste. Ainda assim, a perturbação que havia em sua alma ficava evidente pela preocupação em que vivia (sobre como recuperar o controle da situação).
Enquanto deliberava a quem confiaria o cuidado do Oriente, agora em tamanha agitação, alguém capaz de punir os judeus pela rebelião e de impedir que o mesmo mal se espalhasse também pelas nações vizinhas, não encontrou ninguém à altura da tarefa a não ser Vespasiano, o único capaz de suportar o enorme peso de uma guerra tão grande. Vespasiano estava envelhecendo entre os acampamentos e, desde a juventude, havia se exercitado em feitos militares. Era também um homem que, muito tempo antes, havia pacificado o Ocidente e o submetido aos romanos depois que os germanos o haviam lançado na desordem. Recuperou ainda para eles a Britânia com suas armas, uma terra até então pouco conhecida, e com isso garantiu a seu pai Cláudio a concessão de um triunfo, sem nenhum suor ou esforço do próprio Cláudio.
Nero, portanto, considerava todas essas circunstâncias presságios favoráveis. Via que a idade de Vespasiano lhe dava experiência segura e grande habilidade, e que ele tinha os filhos como reféns de sua fidelidade ao imperador, pois a idade vigorosa em que estavam os tornaria bons instrumentos sob a prudência do pai. Talvez houvesse também alguma intervenção da providência, que abria caminho para que o próprio Vespasiano se tornasse imperador depois. De qualquer modo, Nero enviou esse homem para assumir o comando dos exércitos que estavam na Síria, mas não sem grandes elogios e palavras lisonjeiras, do tipo que a necessidade exigia e que poderiam predispô-lo à boa vontade. Vespasiano então enviou o filho Tito, da Acaia, onde estivera com Nero, a Alexandria, para trazer de a quinta e a décima legiões, enquanto ele próprio, depois de atravessar o Helesponto, seguiu por terra até a Síria, onde reuniu as forças romanas, com um número considerável de auxiliares fornecidos pelos reis daquela vizinhança.