A Guerra dos Judeus - Livro III 3
Livro III: Vespasiano na Galileia e o cerco de Jotapata
Uma descrição da Galileia, da Samaria e da Judeia.
A Fenícia e a Síria cercam as duas Galileias, chamadas Galileia Superior e Galileia Inferior. A oeste, fazem fronteira com o território de Ptolemaida e com o Carmelo, um monte que antes pertencia aos galileus e agora pertence aos tírios. Junto a esse monte fica Gaba, conhecida como a cidade dos cavaleiros, porque ali viviam os cavaleiros dispensados pelo rei Herodes. Ao sul, a Galileia faz fronteira com a Samaria e com Escitópolis, até o rio Jordão. A leste, com Hipene, Gádara e também Gaulanitis e os limites do reino de Agripa. Ao norte, com Tiro e o território dos tírios. A Galileia chamada Inferior estende-se em comprimento de Tiberíades até Zabulom, e entre os lugares do litoral tem Ptolemaida como vizinha. Sua largura vai do povoado chamado Xaloth, que fica na grande planície, até Bersabe, ponto que também marca o início da largura da Galileia Superior, que se estende até o povoado de Baca, o qual a separa do território dos tírios. Seu comprimento vai de Meloth até Thella, um povoado próximo ao Jordão.
Essas duas Galileias, de tão grande extensão e cercadas por tantos povos estrangeiros, sempre conseguiram oferecer forte resistência em todas as ocasiões de guerra. Os galileus se habituam à guerra desde a infância e sempre foram muito numerosos. A região nunca careceu de homens corajosos nem deixou de tê-los em grande número, pois seu solo é, em toda parte, rico e fértil, cheio de plantações de árvores de todo tipo. Tamanha é essa fertilidade que ela convida até o mais preguiçoso a se dedicar ao cultivo. Por isso, é toda cultivada pelos seus habitantes, e nenhuma parte fica ociosa. Além disso, as cidades aqui ficam muito próximas umas das outras, e os muitos povoados estão por toda parte tão cheios de gente, graças à riqueza do solo, que mesmo o menor deles abriga mais de quinze mil habitantes.
Em suma, se alguém supuser que a Galileia é inferior à Pereia em tamanho, terá de admitir que a supera em força. A Galileia é toda apta ao cultivo e fértil em toda parte. Já a Pereia, embora de fato muito mais extensa, tem a maior parte do território deserto, acidentada e bem menos propícia à produção dos frutos mais delicados. Mesmo assim, ela tem solo úmido em outras partes, produz todo tipo de fruto, e suas planícies estão plantadas com árvores de toda espécie, embora ali se cultivem sobretudo a oliveira, a videira e as palmeiras. É também suficientemente irrigada por torrentes que descem das montanhas e por nascentes que nunca deixam de correr, mesmo quando as torrentes secam, como acontece nos dias mais quentes do verão. O comprimento da Pereia vai de Maquero até Pela, e sua largura, de Filadélfia até o Jordão. Ao norte, faz fronteira com Pela, como já dissemos, e a oeste com o Jordão. A terra de Moabe é seu limite sul, e a leste seus limites chegam à Arábia, a Silbonitis e ainda a Filadelfena e Gérasa.
Quanto à região da Samaria, ela fica entre a Judeia e a Galileia. Começa num povoado situado na grande planície, chamado Ginea, e termina na toparquia de Acrabbene. Tem natureza idêntica à da Judeia, pois ambas as regiões são feitas de montes e vales, são bastante úmidas para a agricultura e muito férteis. Têm abundância de árvores e estão cheias de frutos de outono, tanto os que crescem espontaneamente quanto os resultantes do cultivo. Não são irrigadas naturalmente por muitos rios, mas obtêm sua principal umidade da água da chuva, que não lhes falta. Quanto aos rios que têm, todas as suas águas são extremamente doces. Por causa também da excelente pastagem que possuem, seu gado produz mais leite que o de outros lugares. E o maior sinal de sua excelência e abundância é que ambas são muito povoadas.
Nos limites entre a Samaria e a Judeia fica o povoado de Anuath, também chamado Borceos. Essa é a fronteira norte da Judeia. As partes do sul da Judeia, se medidas no sentido do comprimento, vão até um povoado vizinho aos confins da Arábia, que os judeus que ali moram chamam de Jardan. Sua largura, no entanto, estende-se do rio Jordão até Jope. A cidade de Jerusalém fica bem no meio, motivo pelo qual alguns, com bastante perspicácia, chamaram essa cidade de umbigo da região. A Judeia também não é desprovida das delícias que vêm do mar, já que suas terras litorâneas chegam até Ptolemaida. Ela foi dividida em onze distritos, dos quais a cidade real de Jerusalém era o supremo e presidia toda a região vizinha, como a cabeça preside o corpo. Quanto às outras cidades, inferiores a ela, cada uma presidia sua própria toparquia. Gofna era a segunda dessas cidades, seguida de Acrabatta, e depois delas Thamna, Lida, Emaús, Pela, a Idumeia, Engadi, Herodião e Jericó. Depois dessas vinham Jâmnia e Jope, que presidiam os povos vizinhos. Além delas, havia a região de Gamala, Gaulanitis, Bataneia e Traconitis, que também fazem parte do reino de Agripa. Essa última região começa no monte Líbano e nas nascentes do Jordão, estende-se em largura até o lago de Tiberíades e, em comprimento, vai de um povoado chamado Arpha até Júlias. Seus habitantes são uma mistura de judeus e sírios. Descrevi assim, com toda a brevidade possível, a região da Judeia e as que ficam ao seu redor.