A Guerra dos Judeus - Livro III 9

Livro III: Vespasiano na Galileia e o cerco de Jotapata

Como Jope foi tomada e Tiberíades se rendeu.

Vespasiano voltou a Ptolemaida no quarto dia do mês Panemo [Tamuz] e de seguiu para Cesareia, que ficava à beira-mar. Era uma cidade muito grande da Judeia, habitada em sua maior parte por gregos. Os moradores receberam o exército romano e seu general com toda sorte de aclamações e festejos. Faziam isso em parte pela boa vontade que tinham para com os romanos, mas principalmente pelo ódio que nutriam contra aqueles que haviam sido vencidos por eles. Por esse motivo vieram em multidão clamando contra Josefo e pediram que ele fosse morto. Mas Vespasiano deixou passar em silêncio esse pedido a respeito dele, por considerá-lo coisa de uma multidão sem juízo. Instalou duas das legiões em Cesareia, para que ali passassem o inverno, pois percebeu que a cidade era muito adequada para isso. A décima e a quinta legião, no entanto, ele colocou em Escitópolis, para não sobrecarregar Cesareia com todo o exército. Esse lugar era quente mesmo no inverno e sufocante de calor no verão, por causa de sua localização numa planície e perto do mar [da Galileia].
Nesse meio-tempo, juntaram-se tanto os que haviam saído amotinados de entre seus inimigos quanto os que tinham escapado das cidades destruídas. Eram ao todo um grande número, e reconstruíram Jope, que fora deixada deserta por Cestio, para que lhes servisse de refúgio. Como a região vizinha tinha sido devastada na guerra e não podia sustentá-los, resolveram lançar-se ao mar. Construíram para si muitos navios de pirataria e passaram a saquear os mares próximos à Síria, à Fenícia e ao Egito, tornando-os intransitáveis para todos. Assim que Vespasiano soube dessa conspiração, enviou infantaria e cavalaria a Jope, que estava sem guarnição, durante a noite. Os que estavam na cidade, contudo, perceberam que seriam atacados e ficaram com medo. Mesmo assim, não tentaram impedir a entrada dos romanos, mas fugiram para os navios e passaram a noite inteira no mar, fora do alcance dos dardos.
Jope não é por natureza um porto, pois termina numa costa áspera, embora todo o resto seja reto. As duas extremidades curvam-se uma em direção à outra, onde precipícios profundos e grandes pedras que avançam para o mar. Ali estão as marcas das correntes com que Andrômeda foi amarrada, vestígios que atestam a antiguidade dessa lenda. O vento norte se opõe e bate na costa, lançando ondas enormes contra as rochas que as recebem, e torna o porto mais perigoso que a terra que eles haviam abandonado. Enquanto esse povo de Jope flutuava nesse mar, ao amanhecer caiu sobre eles um vento violento, chamado pelos navegantes locais de vento norte negro. Ele arremessou os navios uns contra os outros, lançou alguns contra as rochas e arrastou muitos à força para o alto-mar, enquanto lutavam contra as ondas contrárias. A costa era tão rochosa e tinha tantos inimigos sobre ela que eles tinham medo de chegar à terra. As ondas, além disso, subiam tão alto que os afogavam. Não havia lugar algum para onde fugir nem maneira de se salvar. Eram empurrados para fora do mar pela força do vento se permanecessem onde estavam, e para fora da cidade pela força dos romanos. Houve grande lamentação quando os navios se chocaram uns contra os outros, e um barulho terrível quando se despedaçaram. Parte da multidão que estava neles foi coberta pelas ondas e morreu assim, e muitos ficaram presos nos destroços. Alguns, no entanto, julgaram que morrer pela própria espada era mais leve do que pelo mar, e por isso se mataram antes de se afogar. A maior parte deles foi levada pelas ondas e despedaçada contra os pontos abruptos das rochas, de modo que o mar ficou tingido de sangue por uma longa extensão e o litoral ficou cheio de corpos. Os romanos caíam sobre os que eram levados para a praia e os matavam. O número de corpos lançados para fora do mar foi de quatro mil e duzentos. Os romanos também tomaram a cidade sem resistência e a destruíram por completo.
Assim Jope foi tomada duas vezes pelos romanos em pouco tempo. Para impedir que esses piratas voltassem ali, Vespasiano construiu um acampamento no lugar onde estivera a cidadela de Jope e deixou nele um corpo de cavalaria com alguns poucos soldados de infantaria. Estes ficavam ali e guardavam o acampamento, enquanto a cavalaria saqueava a região ao redor e destruía as aldeias e cidades menores vizinhas. Essas tropas percorreram a região, como tinham ordem de fazer, e todos os dias retalhavam e arrasavam todo o território.
Quando a notícia da queda de Jotapata chegou a Jerusalém, muitos a princípio não acreditaram, por causa da imensidão da calamidade e porque não havia testemunha ocular para confirmar a verdade do que se contava. Nenhuma pessoa se salvara para ser mensageira dessa notícia, mas espalhou-se um boato ao acaso de que a cidade tinha sido tomada, como costumam se espalhar as más notícias. A verdade, no entanto, foi se conhecendo aos poucos, vinda dos lugares próximos a Jotapata, e ficou claro para todos que era verdadeira demais. Ainda assim, acrescentaram-se histórias inventadas ao que de fato acontecera, pois corria que Josefo tinha sido morto na tomada da cidade, e essa notícia encheu Jerusalém de tristeza. Em cada casa, e entre todos que tinham algum parente entre os mortos, houve lamentação por eles. Mas o luto pelo comandante foi público. Uns choravam pelos que tinham vivido com eles, outros pelos parentes, outros pelos amigos, outros pelos irmãos, mas todos choravam por Josefo. A lamentação não cessou na cidade antes do trigésimo dia, e muitos contrataram pranteadores com suas flautas para entoar os cantos fúnebres por eles.
Mas, à medida que a verdade veio à tona com o tempo, ficou claro como realmente estavam as coisas em Jotapata, e descobriu-se que a morte de Josefo era invenção. Quando entenderam que ele estava vivo, que estava entre os romanos e que os comandantes o tratavam de modo diferente do que tratavam os cativos, ficaram tão furiosos com ele agora quanto antes haviam demonstrado boa vontade, quando o julgavam morto. Uns o insultavam como covarde, outros como desertor. A cidade encheu-se de indignação contra ele e de injúrias lançadas sobre ele. A raiva deles foi agravada por suas aflições e ainda mais inflamada pelo fracasso. O que costuma servir de advertência aos homens sábios, quero dizer, a aflição, tornou-se para eles um estímulo a se arriscarem a calamidades ainda maiores, e o fim de uma desgraça era sempre o começo de outra. Por isso resolveram atacar os romanos com ainda mais violência, decididos a se vingar dele ao se vingarem dos romanos. Esse era o estado de Jerusalém quanto às aflições que agora caíam sobre ela.
Vespasiano, querendo conhecer o reino de Agripa, atendendo ao convite do próprio rei (que em parte queria receber o general e seu exército da maneira mais esplêndida que seus recursos particulares permitissem, e em parte esperava, por meio deles, corrigir o que estava errado em seu governo), partiu daquela Cesareia que ficava à beira-mar e foi à que se chama Cesareia de Filipe. Ali revigorou seu exército por vinte dias e foi banqueteado pelo rei Agripa. também rendeu publicamente graças a Deus pelo bom êxito que tivera em seus empreendimentos. Assim que foi informado de que Tiberíades estava inclinada a revoltas e de que Taricheia se rebelara, ambas as cidades partes do reino de Agripa, e convencido de que os judeus em toda parte estavam desviados [da obediência a seus governantes], julgou oportuno fazer uma expedição contra essas cidades, tanto pelo bem de Agripa quanto para trazê-las à razão. Então enviou seu filho Tito à [outra] Cesareia, para que de trouxesse o exército que estava ali até Escitópolis, a maior cidade da Decápolis e vizinha de Tiberíades, aonde ele mesmo chegou e esperou pelo filho. Veio com três legiões e armou seu acampamento a trinta estádios de Tiberíades, num posto facilmente avistado pelos revoltosos. Chama-se Senabris. Enviou também Valeriano, um decurião, com cinquenta cavaleiros, para falar pacificamente aos que estavam na cidade e exortá-los a dar garantias de sua fidelidade. Ele tinha ouvido dizer que o povo desejava a paz, mas era obrigado por uma parte dos amotinados a se juntar a eles e assim forçado a lutar a favor deles. Quando Valeriano avançou até o lugar e estava perto da muralha, desceu do cavalo e mandou que seus companheiros fizessem o mesmo, para que não pensassem que vinham combatê-los. Mas, antes que pudessem trocar palavras, os mais poderosos entre os amotinados fizeram uma investida contra eles, armados. O líder deles era um homem chamado Jesus, filho de Safat, o principal chefe de um bando de salteadores. Valeriano não achou seguro lutar contra as ordens do general, mesmo estando certo da vitória, e sabia que era empreitada muito arriscada poucos lutarem contra muitos, e despreparados contra prontos para a batalha. Surpreso, por outros motivos, com esse ataque inesperado dos judeus, fugiu a pé, assim como cinco dos demais, e deixaram os cavalos para trás. Jesus levou esses cavalos para dentro da cidade e se alegrou como se os tivesse tomado em batalha, e não por traição.
Os anciãos do povo, e os de principal autoridade entre eles, temendo qual seria o desfecho desse caso, fugiram para o acampamento dos romanos. Levaram consigo o rei e se prostraram diante de Vespasiano para suplicar seu favor. Imploraram que não os desprezasse nem atribuísse a loucura de poucos à cidade inteira, mas que poupasse um povo que sempre fora cordial e prestativo para com os romanos, e que levasse à devida punição os autores dessa revolta, que até então os vigiavam de tal modo que, embora desejassem havia muito tempo dar a garantia de sua aliança, não conseguiam fazê-lo. O general atendeu a essas súplicas, embora estivesse muito irritado com toda a cidade por causa do roubo de seus cavalos, e isso porque via que Agripa estava muito preocupado com eles. Assim que Vespasiano e Agripa aceitaram a aliança deles como garantia, Jesus e seu grupo julgaram que não era seguro permanecer em Tiberíades e fugiram para Taricheia. No dia seguinte, Vespasiano enviou Trajano à frente com alguns cavaleiros até a cidadela, para pôr à prova a multidão e ver se todos estavam dispostos à paz. Assim que soube que o povo pensava o mesmo que os suplicantes, tomou seu exército e foi à cidade. Os moradores abriram-lhe os portões, vieram ao seu encontro com aclamações de alegria e o chamaram de seu salvador e benfeitor. Mas, como o exército demorava muito para entrar pelos portões, que eram estreitos demais, Vespasiano mandou derrubar a muralha sul e abriu assim uma passagem larga para a entrada. Ainda assim, ordenou que se abstivessem de pilhagem e injustiça, para agradar ao rei. Por causa dele, poupou o resto da muralha, enquanto o rei se comprometia em nome deles de que continuariam [fiéis aos romanos] dali em diante. E assim ele devolveu essa cidade a um estado de tranquilidade, depois que ela tinha sido gravemente afligida pela revolta.