A Guerra dos Judeus - Livro III 5
Livro III: Vespasiano na Galileia e o cerco de Jotapata
Descrição dos exércitos romanos e dos acampamentos romanos, e de outros detalhes pelos quais os romanos são elogiados.
Aqui não se pode deixar de admirar a precaução dos romanos, que tratavam de conseguir servos domésticos capazes de não só desempenhar as tarefas comuns do dia a dia, mas também de lhes serem úteis na guerra. De fato, quem prestar atenção aos outros aspectos da disciplina militar deles será obrigado a reconhecer que o domínio tão vasto que conquistaram foi fruto do próprio valor, e não simples dádiva da sorte. Eles não começam a usar as armas só quando chega a guerra, nem só então põem as mãos em movimento depois de evitarem o exercício em tempos de paz. Pelo contrário, como se as armas estivessem sempre coladas a eles, nunca dão trégua aos exercícios de guerra, e não esperam que a guerra os obrigue a usá-las. Seus exercícios militares em nada diferem do uso real das armas: todo soldado treina todos os dias, e com grande empenho, como se estivesse em guerra. É por isso que suportam com tanta facilidade o cansaço das batalhas. Nenhuma confusão os tira da ordem habitual, nenhum medo os assusta a ponto de abandoná-la, nenhum esforço os fatiga. Essa firmeza de conduta faz com que sempre vençam quem não tem a mesma firmeza. Não erraria quem chamasse os exercícios deles de batalhas sem sangue, e suas batalhas de exercícios sangrentos. Seus inimigos também não conseguem surpreendê-los facilmente com incursões repentinas: assim que marcham para terra inimiga, não começam a lutar antes de cercar o acampamento com uma muralha. E a cerca que levantam não é feita às pressas nem sai irregular. Não a montam todos de qualquer jeito, nem os que ficam dentro ocupam seus lugares ao acaso. Se o terreno está desigual, primeiro o nivelam. O acampamento também é quadrado, medido com exatidão, e há carpinteiros prontos em grande número, com suas ferramentas, para erguer as construções.
O interior do acampamento é reservado para as tendas, mas o contorno externo lembra uma muralha e é adornado com torres a distâncias iguais. Entre as torres ficam as máquinas para lançar flechas e dardos e para arremessar pedras com fundas, junto com todos os outros engenhos capazes de ferir o inimigo, tudo pronto para suas diversas funções. Erguem também quatro portões, um em cada lado do contorno, largos o bastante para a passagem dos animais de carga e amplos o suficiente para saídas rápidas, caso seja preciso. Dividem o interior do acampamento em ruas, de modo muito prático, e colocam as tendas dos comandantes no meio. Bem no centro de tudo fica a tenda do próprio general, à maneira de um templo, de modo que aquilo parece uma cidade construída de repente, com sua praça de mercado, lugar para os ofícios manuais e bancos para os oficiais superiores e inferiores, onde, se surge alguma divergência, as causas são ouvidas e decididas. O acampamento, e tudo o que há nele, fica cercado por uma muralha, e isso mais rápido do que se imaginaria, graças à quantidade e à habilidade dos trabalhadores. Se for preciso, abre-se uma vala em volta de todo o perímetro, com quatro côvados de profundidade e a mesma largura.
Depois de se protegerem assim, vivem juntos em companhias, com tranquilidade e ordem, do mesmo modo como conduzem todos os seus outros assuntos, com método e segurança. Cada companhia recebe a sua lenha, o seu trigo e a sua água quando precisa, pois não ceiam nem almoçam como cada um bem entende, isolados, mas todos juntos. Os horários de dormir, vigiar e levantar também são avisados de antemão pelo som das trombetas, e nada se faz sem esse sinal. De manhã, cada soldado vai até o seu centurião, e os centuriões vão até os tribunos para saudá-los. Com eles, todos os oficiais superiores vão até o general de todo o exército, que então lhes dá, como de costume, a senha e as demais ordens, para serem levadas a todos os que estão sob o comando deles. O mesmo se observa quando vão à luta: por isso conseguem virar-se de repente quando é preciso fazer investidas, e voltam em massa quando são chamados de volta.
Quando devem deixar o acampamento, a trombeta soa, e nesse momento ninguém fica parado. Ao primeiro aviso, desmontam as tendas e tudo é preparado para a partida. Então as trombetas soam de novo, mandando que se aprontem para a marcha. Logo carregam a bagagem nas mulas e nos outros animais de carga e ficam de pé, como na linha de partida, prontos para marchar. Nessa hora ateiam fogo ao próprio acampamento, e fazem isso porque será fácil erguer outro depois, e para que ele nunca sirva aos inimigos. Então as trombetas soam pela terceira vez, sinal de que devem sair, a fim de apressar os que por algum motivo estão um pouco atrasados, de modo que ninguém fique fora de sua fileira quando o exército marcha. Aí o arauto fica à direita do general e pergunta três vezes, na língua deles, se já estão prontos para sair à guerra ou não. Eles respondem outras tantas vezes, com voz alta e animada, dizendo: Estamos prontos. E fazem isso quase antes mesmo de a pergunta ser feita, tomados por uma espécie de fúria guerreira. No mesmo instante em que gritam, erguem também a mão direita.
Depois disso, ao saírem do acampamento, todos marcham sem barulho e de modo ordenado, cada um mantendo a própria fileira, como se fossem para a guerra. Os soldados de infantaria usam couraças e capacetes, e levam espadas dos dois lados, mas a espada que fica do lado esquerdo é bem mais longa do que a outra, pois a do lado direito não passa de um palmo. Os infantes escolhidos entre os demais para ficar junto ao próprio general levam uma lança e um escudo redondo, mas o restante da infantaria carrega uma lança e um escudo comprido, além de uma serra e um cesto, uma picareta e um machado, uma correia de couro e um gancho, com provisões para três dias, de modo que o soldado de infantaria quase não precisa de uma mula para levar a carga. Os cavaleiros têm uma espada longa do lado direito e uma longa haste na mão. Um escudo fica apoiado de lado, na diagonal, junto a um dos flancos do cavalo, e na aljava levam três ou mais dardos de pontas largas, não menores do que lanças. Têm também capacetes e couraças, do mesmo modo que toda a infantaria. Quanto aos escolhidos para ficar junto ao general, a armadura em nada difere da dos cavaleiros das outras tropas. E lidera sempre as legiões aquele a quem a sorte atribui essa função.
É assim que os romanos marcham e descansam, e essas são também as várias espécies de armas que usam. Mas, quando vão lutar, não deixam nada sem planejamento nem fazem nada de improviso. A decisão vem sempre antes de qualquer ação, e o que ali se resolve é posto em prática logo em seguida. Por isso raramente cometem erros, e, se em algum momento se enganam, corrigem facilmente esses erros. Eles também consideram qualquer erro cometido depois de deliberarem com antecedência melhor do que um sucesso precipitado que se deve só à sorte. Uma vantagem que vem por acaso os leva à imprudência, enquanto a deliberação, mesmo que às vezes não dê certo, traz isso de bom: torna os homens mais cuidadosos no futuro. Já as vantagens que vêm do acaso não se devem a quem as obtém. E quanto aos infortúnios que acontecem de surpresa, há neles este consolo: que pelo menos tinham tomado as melhores decisões possíveis para evitá-los.
Eles conduzem os exercícios preparatórios com as armas de tal modo que não só o corpo dos soldados, mas também o ânimo deles se fortalece. Além disso, endurecem-se para a guerra pelo medo, pois suas leis impõem pena de morte não só ao soldado que foge das fileiras, mas também por preguiça e inação, ainda que em menor grau. E os generais são mais severos que as próprias leis, mas evitam qualquer acusação de crueldade para com os condenados pelas grandes recompensas que concedem aos soldados valentes. A prontidão para obedecer aos comandantes é tão grande que fica até elegante em tempo de paz. Mas, quando chegam à batalha, todo o exército vira um só corpo, de tão bem articuladas que são as fileiras, de tão rápidas as manobras, de tão aguçada a audição para as ordens recebidas, de tão veloz a vista para os estandartes e de tão ágeis as mãos quando entram em ação. Disso resulta que fazem rápido o que têm de fazer, e suportam com a maior paciência o que têm de sofrer. Não se encontra exemplo algum em que tenham sido derrotados em batalha, ao chegarem ao combate corpo a corpo, seja pelo número dos inimigos, seja por estratagemas, seja pela dificuldade do terreno em que se encontravam. Nem mesmo pela sorte, pois suas vitórias foram mais seguras do que a sorte poderia ter concedido. Num caso, portanto, em que a deliberação sempre precede a ação, e em que, depois de tomado o melhor conselho, esse conselho é seguido por um exército tão ativo, que admiração causa que o Eufrates ao leste, o oceano ao oeste, as regiões mais férteis da Líbia ao sul, e o Danúbio e o Reno ao norte sejam os limites deste império? Bem se poderia dizer que as posses romanas não são inferiores aos próprios romanos.
Dei este relato ao leitor não tanto com a intenção de elogiar os romanos, mas de consolar os que foram vencidos por eles, e de dissuadir os outros de tentar revoltas sob o seu governo. Esta exposição sobre a conduta militar romana talvez seja útil também aos curiosos que a ignoram e mesmo assim querem conhecê-la. Volto agora desta digressão.