Capítulos

Antiguidades Judaicas - Livro XVIII

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.

O Livro XVIII na Obra

O Livro XVIII cobre a primeira metade do século I, do recenseamento de Cirênio (Quirino) na Judeia, por volta de 6 d.C., até os últimos anos do imperador Tibério e o começo do reinado de Caio (Calígula). É um dos livros mais citados de toda a obra, porque registra a prefeitura de Pôncio Pilatos, a morte de João Batista, o reinado de Herodes Antipas e a ascensão de Herodes Agripa I, todos contemporâneos dos eventos narrados no Novo Testamento. É também o livro que traz a passagem mais discutida sobre Jesus de Nazaré.

Conteúdo do Livro

    O censo, Judas da Galileia e as seitas judaicas

  • Cirênio é enviado por César para fazer o recenseamento da Síria e da Judeia, Copônio torna-se procurador, a revolta de Judas da Galileia contra o imposto, e a descrição das seitas judaicas: fariseus, saduceus, essênios e a chamada quarta filosofia (paralelo ao recenseamento de Lc 2:1-2 e à menção de Judas em At 5:37)(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 1)
  • Herodes Antipas e Filipe edificam cidades em honra de César, a sucessão dos sumos sacerdotes e dos procuradores, e os acontecimentos entre Fraates e os partos(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 2)
  • Pôncio Pilatos e o Testimonium sobre Jesus

  • A revolta dos judeus contra Pôncio Pilatos por causa dos estandartes e do aqueduto, a passagem sobre Cristo conhecida como Testimonium Flavianum, e os escândalos de Paulina e dos judeus em Roma sob Tibério (cf. os relatos da prefeitura de Pilatos nos Evangelhos, como Mt 27 e Jo 18 e 19)(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 3)
  • O tumulto dos samaritanos e a matança ordenada por Pilatos, a acusação que leva à sua remoção do cargo, e as medidas de Vitélio em relação aos judeus e aos partos(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 4)
  • João Batista e a casa de Herodes

  • A guerra de Herodes Antipas contra Aretas, rei da Arábia, e sua derrota, o relato sobre a morte de João Batista, e a subida de Vitélio a Jerusalém, com notícias sobre Agripa e a descendência de Herodes, o Grande (paralelo à morte de João Batista em Mt 14 e Mc 6)(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 5)
  • A viagem do rei Agripa a Roma para ver Tibério César, a prisão após a acusação de seu próprio liberto, e a libertação por Caio (Calígula) depois da morte de Tibério, quando recebe a tetrarquia de Filipe (cf. Herodes Agripa I em At 12)(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 6)
  • O banimento do tetrarca Herodes Antipas(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 7)
  • Calígula, a estátua e os judeus do Oriente

  • A embaixada dos judeus a Caio (Calígula) e a ordem do imperador para que Petrônio fosse à Síria fazer guerra aos judeus caso recusassem a sua estátua no Templo(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 8)
  • O que aconteceu aos judeus da Babilônia no episódio de Asineu e Anileu, dois irmãos que chefiaram um principado armado na região(Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 9)

O Testimonium Flavianum

No capítulo 3 está a passagem conhecida como Testimonium Flavianum, em que Josefo menciona Jesus, descrito como mestre, autor de obras admiráveis, condenado por Pilatos e seguido por um grupo que perdurou. É o trecho mais debatido de Josefo. A forma transmitida nos manuscritos gregos contém afirmações de fé que dificilmente seriam de um judeu não cristão, como "ele era o Cristo" e a alusão à ressurreição ao terceiro dia. Por isso há três posições principais entre os estudiosos. Alguns defendem que toda a passagem é uma interpolação cristã posterior. Outros, hoje a maioria, sustentam que existe um núcleo autêntico escrito por Josefo, depois retocado por copistas cristãos. Uma minoria a tem por inteiramente autêntica. A própria existência de uma versão árabe mais sóbria, transmitida por Agápio de Hierápolis no século X, costuma ser citada no debate. O leitor deve tratar o texto recebido com cautela: a menção a Jesus é antiga, mas a redação atual não pode ser lida sem ressalvas.

João Batista e as Seitas Judaicas

O capítulo 5 traz o relato sobre a prisão e a morte de João Batista, atribuída a Herodes Antipas. Esse trecho é aceito como autêntico pela quase totalidade dos estudiosos, e oferece um testemunho independente dos Evangelhos. Josefo liga a morte de João à derrota de Antipas diante de Aretas e a apresenta como castigo aos olhos do povo, sem o enquadramento dado por Marcos e Mateus. No capítulo 1, Josefo descreve as quatro correntes do judaísmo do seu tempo: fariseus, saduceus, essênios e a chamada quarta filosofia, ligada a Judas da Galileia, que recusava qualquer senhor exceto Deus. Essa descrição das seitas é uma das fontes antigas mais citadas sobre o assunto.

Fontes e Método

Diferente dos livros que reescrevem a Bíblia hebraica, aqui Josefo trata de história recente, próxima da sua própria vida. Suas fontes incluem memórias e registros da corte herodiana, relatos sobre Roma e a casa imperial, tradições orais judaicas e, provavelmente, sua experiência direta como sacerdote em Jerusalém. A cronologia nem sempre é exata. A datação do recenseamento de Cirênio, que Josefo coloca por volta de 6 d.C., é um ponto clássico de divergência com o relato de Lucas, que associa o censo ao nascimento de Jesus em data anterior. Não há solução consensual para essa diferença.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737. No caso do Livro XVIII, a transmissão tem peso especial: foi por mãos de copistas cristãos que chegou o texto do Testimonium na forma que conhecemos.

Valor Histórico e Cautelas

O Livro XVIII é uma das fontes mais importantes para o cenário em que nasceu o cristianismo. Confirma figuras que aparecem no Novo Testamento, como Pilatos, Antipas, João Batista e Agripa, a partir de uma perspectiva judaica e romana, e não cristã. Seu valor está justamente nessa independência. As cautelas são duas: a cronologia de Josefo nem sempre coincide com a dos Evangelhos, em especial no censo de Cirênio, e a passagem sobre Jesus chegou retocada por copistas cristãos, o que obriga a separar o que é provável núcleo original do que é acréscimo posterior. Mesmo com essas ressalvas, é leitura indispensável para entender o mundo do século I.