Antiguidades Judaicas - Livro XVIII 5

Livro XVIII: Pilatos, Jesus, João Batista e Tibério

Herodes, o tetrarca, faz guerra a Aretas, rei da Arábia, e é derrotado por ele. Também a respeito da morte de João Batista. Como Vitélio subiu a Jerusalém, junto com algum relato sobre Agripa e sobre a descendência de Herodes, o Grande.

Por essa época, Aretas, rei da Arábia Pétrea, e Herodes desentenderam-se pelo motivo a seguir. Herodes, o tetrarca, havia se casado com a filha de Aretas e vivia com ela fazia muito tempo. Mas, certa vez, estando em Roma, hospedou-se na casa de Herodes, que de fato era seu irmão, embora não pela mesma mãe, pois este Herodes era filho da filha do sumo sacerdote Simão. Ele se apaixonou por Herodias, esposa desse outro Herodes, que era filha de Aristóbulo, irmão deles, e irmã de Agripa, o Grande. Ele se atreveu a falar com ela sobre um casamento entre os dois, e, quando ela aceitou a proposta, fizeram um acordo para que ela mudasse de morada e fosse viver com ele assim que ele voltasse de Roma. Uma das cláusulas desse casamento era que ele se divorciaria da filha de Aretas. Então Antipas, depois de fechar esse acordo, navegou para Roma. Mas, depois de resolver o assunto que o levara, ele voltou. Mas sua esposa tinha descoberto o acordo que ele fizera com Herodias, e o soube antes que ele percebesse que ela conhecia todo o plano. Ela pediu então que ele a mandasse para Maqueronte, que fica na fronteira dos domínios de Aretas e de Herodes, sem lhe revelar nenhuma de suas intenções. Herodes a enviou para lá, achando que sua esposa não havia percebido nada. Mas ela tinha mandado avisar, bastante tempo antes, a guarnição de Maqueronte, que estava sujeita a seu pai. Assim, tudo o que era necessário para sua viagem foi preparado pelo general do exército de Aretas, e por esse meio ela logo chegou à Arábia, conduzida pelos vários generais, que a levaram de um para outro sucessivamente. Ela logo chegou ao pai e lhe contou as intenções de Herodes. Aretas tomou isso como o primeiro motivo de sua inimizade com Herodes, com quem também tinha alguma disputa por causa das fronteiras, na região de Gamalitis. Os dois lados levantaram exércitos e se prepararam para a guerra, enviando seus generais para combater em seu lugar. Quando travaram batalha, todo o exército de Herodes foi destruído pela traição de alguns desertores que, embora fossem da tetrarquia de Filipe, tinham se juntado ao exército de Herodes. Herodes então escreveu sobre esses acontecimentos a Tibério, que, muito irritado com a investida de Aretas, escreveu a Vitélio ordenando que lhe fizesse guerra e o capturasse vivo, trazendo-o acorrentado, ou então o matasse e lhe enviasse a cabeça. Foi essa a ordem que Tibério deu ao governador da Síria.
Alguns dos judeus achavam que a destruição do exército de Herodes vinha de Deus, e com toda a justiça, como castigo pelo que ele fizera contra João, chamado o Batista. Pois Herodes o matou [por volta de fevereiro de 32 d.C.]. João era um homem bom, que mandava os judeus praticar a virtude, tanto na justiça uns para com os outros quanto na piedade para com Deus, e assim chegar ao batismo. Pois esse lavar [com água] seria aceitável a Deus se eles o usassem não para a remoção [ou o perdão] de alguns pecados [apenas], mas para a purificação do corpo, supondo que a alma tivesse sido completamente purificada de antemão pela justiça. Quando [muitos] outros vinham em multidões ao seu redor, pois ficavam profundamente comovidos [ou agradados] ao ouvir suas palavras, Herodes, que temia que a grande influência de João sobre o povo lhe desse o poder e a inclinação de provocar uma rebelião (pois pareciam dispostos a fazer qualquer coisa que ele aconselhasse), julgou melhor matá-lo para evitar qualquer dano que ele pudesse causar, e não se meter em dificuldades por poupar um homem que poderia fazê-lo se arrepender disso quando fosse tarde demais. Assim, por causa do temperamento desconfiado de Herodes, João foi enviado como prisioneiro a Maqueronte, o castelo que mencionei antes, e ali foi morto. Os judeus tinham a opinião de que a destruição desse exército foi enviada como castigo a Herodes e como sinal do desagrado de Deus para com ele.
Vitélio, então, preparou-se para fazer guerra a Aretas, levando consigo duas legiões de homens armados. Levou também todas as tropas de armadura leve e os cavaleiros que pertenciam a elas, recrutados dos reinos que estavam sob domínio romano, e seguiu apressado para Petra, chegando a Ptolemaida. Mas, enquanto marchava com pressa e conduzia o exército através da Judeia, os homens principais foram ao seu encontro e pediram que não marchasse daquele jeito por sua terra, pois as leis de seu país não lhes permitiam tolerar aquelas imagens que estavam sendo trazidas para dentro dela, e havia muitas delas nos estandartes militares. Ele se deixou persuadir pelo que disseram e mudou a decisão que antes tomara nesse assunto. Por isso ordenou que o exército marchasse pela grande planície, enquanto ele mesmo, com Herodes, o tetrarca, e seus amigos, subiu a Jerusalém para oferecer sacrifício a Deus, que uma antiga festa dos judeus estava então se aproximando. Depois de ter estado e ter sido recebido com honras pela multidão dos judeus, ele permaneceu por três dias, período em que destituiu Jônatas do sumo sacerdócio e o entregou a seu irmão Teófilo. Mas, quando no quarto dia lhe chegaram cartas que o informavam da morte de Tibério, ele obrigou a multidão a prestar juramento de fidelidade a Caio. Recolheu também o exército e mandou cada um voltar para casa e estabelecer ali seus quartéis de inverno, pois, com a passagem do império para Caio, ele não tinha a mesma autoridade que antes para fazer essa guerra. Contava-se também que Aretas, ao saber da chegada de Vitélio para combatê-lo, disse, depois de consultar os adivinhos, que era impossível esse exército de Vitélio entrar em Petra, pois um dos governantes morreria: ou aquele que dera as ordens para a guerra, ou aquele que marchava a pedido do outro para servir à sua vontade, ou ainda aquele contra quem esse exército fora preparado. Vitélio, de fato, retirou-se para Antioquia. Mas Agripa, filho de Aristóbulo, subiu a Roma um ano antes da morte de Tibério, a fim de tratar de certos assuntos com o imperador, se isso lhe fosse permitido. Tenho agora a intenção de descrever Herodes e sua família, e o que aconteceu com eles, em parte porque é apropriado a esta história falar desse assunto, e em parte porque isso demonstra a intervenção da providência, como uma multidão de filhos não traz vantagem alguma, do mesmo modo que qualquer outra força em que os homens depositam o coração, à parte os atos de piedade praticados para com Deus. Pois aconteceu que, no decorrer de cem anos, a descendência de Herodes, que era muito numerosa, foi, com exceção de uns poucos, totalmente destruída. Pode-se bem aplicar isso para a instrução da humanidade, e aprender daí quão infelizes eles foram. Isso também nos mostrará a história de Agripa, que, sendo uma pessoa muito digna de admiração, passou de homem comum, muito além de toda expectativa dos que o conheciam, à grande potência e autoridade. disse algo sobre eles antes, mas agora falarei também com precisão a respeito deles.
Herodes, o Grande, teve duas filhas com Mariane, a [neta] de Hircano. Uma era Salampsio, que se casou com Fasael, seu primo, que por sua vez era filho de Fasael, irmão de Herodes; o pai dela arranjou o casamento. A outra era Cipros, que também se casou com seu primo, Antípater, filho de Salomé, irmã de Herodes. Fasael teve cinco filhos com Salampsio: Antípater, Herodes e Alexandre, e duas filhas, Alexandra e Cipros. Esta última Agripa, filho de Aristóbulo, desposou. E Tímio de Chipre casou-se com Alexandra; era homem de destaque, mas não teve filhos com ela. Agripa teve com Cipros dois filhos e três filhas, que se chamavam Berenice, Mariane e Drusila, enquanto os filhos se chamavam Agripa e Druso. Druso morreu antes de chegar à puberdade. O pai deles, Agripa, foi criado com os outros irmãos, Herodes e Aristóbulo, pois estes também eram filhos do filho de Herodes, o Grande, com Berenice. Berenice era filha de Costobaro e de Salomé, que era irmã de Herodes. Aristóbulo deixou esses meninos quando foi morto por seu pai, junto com seu irmão Alexandre, como relatamos. Mas, quando chegaram à puberdade, este Herodes, irmão de Agripa, casou-se com Mariane, filha de Olímpias, que era filha do rei Herodes e de José, filho de José, que era irmão do rei Herodes; e teve com ela um filho, Aristóbulo. Aristóbulo, o terceiro irmão de Agripa, casou-se com Jótape, filha de Sampsigerâmo, rei de Emesa. Tiveram uma filha que era surda, cujo nome também era Jótape. Esses, até aqui, eram os filhos da linhagem masculina. Mas Herodias, irmã deles, casou-se com Herodes [Filipe], filho de Herodes, o Grande, que nasceu de Mariane, filha do sumo sacerdote Simão; e teve uma filha, Salomé. Depois do nascimento dela, Herodias tomou para si a tarefa de subverter as leis do nosso país e se divorciou do marido enquanto ele estava vivo, casando-se com Herodes [Antipas], irmão do marido por parte de pai. Ele era tetrarca da Galileia. Sua filha Salomé casou-se com Filipe, filho de Herodes e tetrarca da Traconítide. E, como ele morreu sem filhos, Aristóbulo, filho de Herodes, irmão de Agripa, casou-se com ela. Tiveram três filhos: Herodes, Agripa e Aristóbulo. E essa foi a descendência de Fasael e Salampsio. A filha de Antípater com Cipros foi Cipros, com quem se casou Alexas Selcias, filho de Alexas. Tiveram uma filha, Cipros. Mas Herodes e Alexandre, que, como dissemos, eram irmãos de Antípater, morreram sem filhos. Quanto a Alexandre, filho do rei Herodes, que foi morto por seu pai, ele teve filhos, Alexandre e Tigranes, com a filha de Arquelau, rei da Capadócia. Tigranes, que foi rei da Armênia, foi acusado em Roma e morreu sem filhos. Alexandre teve um filho com o mesmo nome do irmão, Tigranes, e foi enviado por Nero para tomar posse do reino da Armênia. Teve um filho, Alexandre, que se casou com Jótape, filha de Antíoco, rei de Comagena. Vespasiano o fez rei de uma ilha na Cilícia. Mas esses descendentes de Alexandre, logo depois de nascerem, abandonaram a religião judaica e passaram para a dos gregos. Quanto às demais filhas do rei Herodes, aconteceu que morreram sem filhos. E, como esses descendentes de Herodes que enumeramos estavam vivos na mesma época em que Agripa, o Grande, assumiu o reino, e dei conta deles, resta-me agora relatar os vários infortúnios que se abateram sobre Agripa, e como ele se livrou deles e foi elevado ao mais alto grau de dignidade e poder.