Capítulos

Antiguidades Judaicas - Livro V

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.

O Livro V na Obra

O Livro V cobre o intervalo entre a morte de Moisés e a morte do sacerdote Eli, que Josefo calcula em cerca de quatrocentos e setenta e seis anos. Acompanha de perto quatro livros bíblicos: a conquista e partilha de Canaã em Josué, o ciclo de opressões e libertações do livro de Juízes, a história de Rute e os primeiros capítulos de 1 Samuel, com o nascimento de Samuel e a perda da arca para os filisteus. É a ponte entre o êxodo do deserto e o início da monarquia.

Conteúdo do Livro

Fontes e Método

Para esta parte Josefo segue principalmente o texto bíblico, parafraseado e reorganizado. Ele suaviza ou racionaliza episódios, acrescenta discursos e motivações psicológicas aos personagens e dá cor helenística ao relato, num procedimento que os estudiosos chamam de "Bíblia reescrita". Onde o texto bíblico traz números divergentes, Josefo às vezes segue uma versão e às vezes apresenta um valor próprio, de modo que sua cronologia nem sempre coincide com o Texto Massorético.

Algumas escolhas chamam a atenção. Josefo modera o episódio da concubina de Benjamim e a guerra civil que se segue, e reorganiza a ordem de certos juízes em relação ao texto hebraico. No relato de Sansão, mantém o tom de herói popular, mas comenta os defeitos morais do personagem. A história de Rute aparece deslocada para o tempo de Eli, seguindo a tradição que a ligava à genealogia de Davi.

Cronologia e os Juízes

O período dos juízes é o trecho da história de Israel com a cronologia mais difícil de reconstruir, porque os números de anos de opressão e de paz se sobrepõem e podem ser parcialmente simultâneos. Josefo soma esses intervalos à sua maneira e chega a totais que não batem exatamente com nenhuma leitura simples do texto bíblico. A leitura exige cautela: os números servem mais ao projeto de dar antiguidade e ordem à história judaica do que a uma datação precisa.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.

Valor Histórico e Cautelas

Para o período da conquista e dos juízes, Josefo não é fonte independente da Bíblia: ele a reconta. Seu valor está no testemunho que dá das tradições judaicas do século I, no modo como o judaísmo do fim do Segundo Templo lia esses livros e nas suas tentativas de harmonizar e ordenar a narrativa. A arqueologia da chamada idade do ferro inicial em Canaã é debatida e não confirma os relatos em detalhe. A leitura exige cautela com o programa apologético do autor e com suas divergências numéricas em relação ao texto bíblico.