Antiguidades Judaicas - Livro V 6
Livro V: Josué, os Juízes, Rute e Eli
Como os midianitas e outras nações lutaram contra os israelitas e os derrotaram, afligindo a terra deles por sete anos. Como foram libertados por Gideão, que governou a multidão por sete anos.
Quando Baraque e Débora morreram, mais ou menos ao mesmo tempo, os midianitas chamaram os amalequitas e os árabes para ajudá-los e fizeram guerra contra os israelitas, levando a melhor sobre os que os enfrentavam. Depois de queimarem os frutos da terra, levaram o saque. Como agiram assim por três anos, a multidão dos israelitas retirou-se para as montanhas e abandonou as planícies. Também cavaram esconderijos subterrâneos e cavernas, onde guardavam tudo o que havia escapado dos inimigos, pois os midianitas faziam suas investidas na época da colheita, mas deixavam que os israelitas arassem a terra no inverno, para que, depois de outros terem feito o trabalho, eles tivessem frutos para levar embora. De fato, sobreveio uma fome e uma falta de alimento. Diante disso, recorreram às suas súplicas a Deus e lhe pediram que os salvasse.
Gideão, filho de Joás, um dos principais homens da tribo de Manassés, trazia em segredo seus feixes de trigo e os debulhava no lagar, pois tinha medo demais dos inimigos para debulhá-los abertamente na eira. Nesse momento algo lhe apareceu, na forma de um jovem, e lhe disse que ele era um homem feliz e amado por Deus. Ao que ele respondeu de imediato: "Belo sinal do favor de Deus para comigo, que sou obrigado a usar este lagar em vez de uma eira!" Mas a Aparição o exortou a ter bom ânimo e a tentar recuperar a liberdade do povo. Ele respondeu que era impossível recuperá-la, porque a tribo a que pertencia não era nada numerosa e porque ele mesmo era apenas um jovem, insignificante demais para pensar em feitos tão grandes. Mas o outro lhe prometeu que Deus supriria aquilo que lhe faltava e daria aos israelitas a vitória sob o comando dele.
Então, quando Gideão relatou isso a alguns jovens, eles acreditaram nele, e logo se formou um exército de dez mil homens prontos para a guerra. Mas Deus apareceu a Gideão durante o sono e lhe disse que os homens se apegavam demais a si mesmos e eram inimigos dos que se destacavam em virtude. Para que não passassem Deus por alto, mas atribuíssem a ele a vitória, e para que não imaginassem tê-la obtido pela própria força, por serem um grande exército e capazes por si mesmos de lutar contra os inimigos, mas confessassem que ela se devia à ajuda dele, Deus aconselhou Gideão a levar o exército ao rio por volta do meio-dia, no auge do calor, e a considerar homens de coragem os que se abaixassem de joelhos para beber, mas a considerar movidos pelo medo, como que aterrorizados diante dos inimigos, todos os que bebessem às pressas e de forma desordenada. Quando Gideão fez como Deus lhe havia sugerido, encontraram-se trezentos homens que recolheram a água com as mãos de modo desordenado. Então Deus lhe mandou tomar esses homens e atacar o inimigo. Assim, eles armaram acampamento junto ao rio Jordão, prontos para atravessá-lo no dia seguinte.
Mas Gideão estava com muito medo, pois Deus lhe havia dito de antemão que ele deveria atacar os inimigos durante a noite. Querendo livrá-lo do medo, Deus lhe mandou tomar um dos seus soldados e aproximar-se das tendas dos midianitas, pois daquele mesmo lugar ele teria a coragem renovada e ficaria audacioso. Ele obedeceu, foi e levou consigo seu servo Furá. Ao chegar perto de uma das tendas, descobriu que os que estavam dentro dela estavam acordados e que um deles contava a um companheiro de armas um sonho que tivera, e de modo tão claro que Gideão pôde ouvi-lo. O sonho era este: ele achou ter visto um bolo de cevada, daqueles tão ruins que dificilmente alguém comeria, rolando pelo acampamento e derrubando a tenda real e as tendas de todos os soldados. O outro soldado interpretou essa visão como a destruição do exército e explicou o motivo de sua conjectura: a semente chamada cevada era reconhecida como a mais vil de todas as sementes, e os israelitas eram tidos como os mais vis de todos os povos da Ásia, à semelhança da semente de cevada. E aquilo que parecia grandioso entre os israelitas era esse Gideão e o exército que estava com ele. "E já que você diz ter visto o bolo derrubando as nossas tendas, temo que Deus tenha concedido a Gideão a vitória sobre nós."
Quando Gideão ouviu esse sonho, encheu-se de esperança e coragem. Mandou seus soldados se armarem e lhes contou essa visão dos inimigos. Eles também se animaram com o que lhes foi dito e ficaram prontos para cumprir o que ele ordenasse. Então Gideão dividiu o exército em três partes e o conduziu para fora por volta da quarta vigília da noite, cada parte com cem homens. Todos levavam cântaros vazios e tochas acesas nas mãos, para que o ataque não fosse percebido pelos inimigos. Cada um tinha também um chifre de carneiro na mão direita, que usava como trombeta. O acampamento inimigo ocupava um grande espaço de terreno, pois eles tinham muitos camelos, e, embora divididos em nações diferentes, estavam todos reunidos num só círculo. Quando os hebreus fizeram como haviam sido instruídos de antemão, ao se aproximarem dos inimigos, ao sinal combinado soaram os chifres de carneiro, quebraram os cântaros, avançaram contra os inimigos com as tochas e um grande grito e bradaram: "Vitória a Gideão, com a ajuda de Deus!" Uma confusão e um pavor tomaram conta dos outros homens, ainda meio adormecidos, pois era noite, como Deus quis. De modo que poucos deles foram mortos pelos inimigos, mas a maior parte pelos próprios companheiros, por causa da diversidade de suas línguas. Uma vez lançados em confusão, mataram todos os que encontravam, julgando-os também inimigos. Houve assim uma grande matança. E quando a notícia da vitória de Gideão chegou aos israelitas, eles pegaram as armas, perseguiram os inimigos e os alcançaram num certo vale cercado por torrentes, lugar que estes não conseguiam atravessar. Então os cercaram e mataram todos eles, junto com seus reis, Orebe e Zeebe. Mas os capitães restantes conduziram os soldados que sobraram, cerca de dezoito mil, e armaram acampamento bem longe dos israelitas. No entanto Gideão não poupou esforços, perseguiu-os com todo o seu exército e, travando combate com eles, aniquilou todo o exército inimigo e capturou os outros chefes, Zeba e Zalmuna, tornando-os prisioneiros. Foram mortos nessa batalha, dos midianitas e dos seus aliados árabes, cerca de cento e vinte mil homens, e os hebreus tomaram um grande saque: ouro, prata, vestes, camelos e jumentos. E quando Gideão chegou à sua própria terra de Ofra, matou os reis dos midianitas.
Contudo a tribo de Efraim ficou tão descontente com o sucesso de Gideão que resolveu fazer guerra contra ele, acusando-o de não lhes ter falado de sua expedição contra os inimigos. Mas Gideão, homem equilibrado e excelente em toda virtude, alegou que não fora por sua própria autoridade ou decisão que atacou o inimigo sem eles, mas por ordem de Deus, e que a vitória pertencia a eles tanto quanto aos que estavam no exército. E por esse método de acalmar a ira deles, trouxe mais proveito aos hebreus do que pelo êxito que tivera contra esses inimigos, pois assim os livrou de uma revolta que estava surgindo entre eles. Ainda assim, essa tribo mais tarde sofreu o castigo por esse tratamento injusto a Gideão, do que daremos conta no momento oportuno.
Diante disso, Gideão quis renunciar ao governo, mas foi convencido a mantê-lo. Ele o exerceu por quarenta anos e administrava a justiça ao povo, conforme as pessoas vinham até ele com suas desavenças. E o que ele decidia era tido como válido por todos. Quando morreu, foi sepultado na sua própria terra de Ofra.