Antiguidades Judaicas - Livro V 5
Livro V: Josué, os Juízes, Rute e Eli
Como os cananeus submeteram os israelitas à escravidão por vinte anos. Depois disso, eles foram libertados por Baraque e Débora, que governaram sobre eles por quarenta anos.
Os israelitas não aprenderam nada com os infortúnios anteriores e não corrigiram seu comportamento. Não adoravam a Deus nem obedeciam às leis, e por isso foram reduzidos à escravidão por Jabim, rei dos cananeus. Isso aconteceu antes mesmo de terem um breve descanso depois da servidão sob os moabitas. Esse Jabim veio de Hazor, cidade situada sobre o lago Semeconitis, e mantinha a soldo trezentos mil soldados de infantaria, dez mil cavaleiros e nada menos que três mil carros de guerra. Sísera comandava todo esse exército e era o homem de maior prestígio junto ao rei. Ele derrotou os israelitas com tamanha violência quando lutaram contra ele que os obrigou a pagar tributo.
Assim, eles continuaram a suportar essa opressão por vinte anos, pois não eram capazes, por si mesmos, de aprender com seus infortúnios. Deus também quis, por esse meio, dominar a obstinação deles e sua ingratidão para com ele. Quando por fim ficaram arrependidos e tiveram a sabedoria de reconhecer que suas calamidades vinham do desprezo às leis, suplicaram a Débora, uma profetisa que havia entre eles (nome que, na língua hebraica, significa Abelha), que orasse a Deus para ter compaixão deles e não os abandonar agora que estavam arruinados pelos cananeus. Deus concedeu a eles a libertação e escolheu para eles um general, Baraque, da tribo de Naftali (na língua hebraica, Baraque significa Relâmpago).
Então Débora mandou chamar Baraque e ordenou que escolhesse dez mil jovens para marchar contra o inimigo, porque Deus havia dito que esse número era suficiente, e prometeu a eles a vitória. Mas Baraque respondeu que não seria general a menos que ela também fosse como general junto com ele. Indignada com o que ele disse, ela replicou: "Você, Baraque, está entregando de modo vergonhoso a autoridade que Deus lhe deu nas mãos de uma mulher; e eu não a recuso." Então reuniram dez mil homens e acamparam no monte Tabor. Ali, por ordem do rei, Sísera veio ao encontro deles e montou acampamento não muito longe do inimigo. Os israelitas, e o próprio Baraque, ficaram tão apavorados com a multidão daqueles inimigos que decidiram bater em retirada, e o teriam feito se Débora não os tivesse detido e ordenado a ele que combatesse o inimigo naquele mesmo dia, pois venceriam e Deus seria o seu auxílio.
Assim começou a batalha. Quando entraram em combate corpo a corpo, desabou do céu uma grande tempestade, com enorme quantidade de chuva e granizo. O vento lançava a chuva no rosto dos cananeus e escurecia seus olhos de tal modo que suas flechas e fundas não lhes serviam de nada. O frio do ar também impedia os soldados de usar suas espadas. Já os israelitas não foram tão atrapalhados por essa tempestade, porque ela vinha pelas costas deles. Eles ganharam tamanha coragem, convencidos de que Deus os ajudava, que atacaram bem no meio dos inimigos e mataram um grande número deles. Alguns caíram pelas mãos dos israelitas, outros caíram por causa dos próprios cavalos, lançados em desordem, e não foram poucos os mortos pelos próprios carros de guerra. Por fim, assim que Sísera se viu derrotado, fugiu e chegou à casa de uma mulher chamada Jael, uma queneia, que o acolheu quando ele pediu para se esconder. Quando ele pediu algo para beber, ela lhe deu leite azedo. Ele bebeu sem moderação e adormeceu. Enquanto dormia, Jael pegou um prego de ferro e o cravou através das têmporas dele, com um martelo, até o chão. Quando Baraque chegou pouco depois, ela lhe mostrou Sísera pregado ao solo. E assim a vitória foi obtida por uma mulher, como Débora havia predito. Baraque também lutou contra Jabim em Hazor, e quando o encontrou, matou-o. Caído o general, Baraque arrasou a cidade até os alicerces e foi comandante dos israelitas por quarenta anos.