Antiguidades Judaicas - Livro V 9

Livro V: Josué, os Juízes, Rute e Eli

Como, sob o governo de Eli sobre os israelitas, Boaz se casou com Rute, de quem veio Obede, avô de Davi.

Depois da morte de Sansão, o sumo sacerdote Eli passou a governar os israelitas. No tempo dele, quando o país foi atingido por uma fome, Elimeleque, de Belém, cidade da tribo de Judá, não conseguiu sustentar a família em meio a uma situação tão dura. Por isso levou consigo a esposa, Noemi, e os filhos que ela lhe dera, Quiliom e Malom, e mudou-se para a terra de Moabe. Como os negócios dele prosperaram ali, ele tomou esposas moabitas para os filhos: Orfa para Quiliom e Rute para Malom. Mas, no decorrer de dez anos, morreram tanto Elimeleque quanto, pouco depois dele, os filhos. Noemi ficou muito abalada com essas perdas e não suportava a solidão, agora que estavam mortos aqueles que lhe eram mais queridos, por causa de quem havia deixado a própria terra. Então decidiu voltar para casa, pois lhe informaram que o país estava em boa situação. As noras, no entanto, não conseguiam pensar em se separar dela e quiseram sair daquela terra em sua companhia, e ela não conseguia demovê-las. Como elas insistiam, Noemi desejou que tivessem um casamento mais feliz do que tinham tido com os filhos dela, e que prosperassem também em tudo o mais. Vendo como a própria condição era difícil, ela as exortou a ficar onde estavam e a não pensar em abandonar a própria terra para partilhar com ela a incerteza que a esperava no regresso. Assim, Orfa ficou para trás, mas Noemi levou Rute consigo, pois não houve como convencê-la a ficar: ela queria correr a mesma sorte da sogra, fosse qual fosse.
Quando Rute chegou a Belém com a sogra, Boaz, que era parente próximo de Elimeleque, a acolheu. E quando os concidadãos chamaram Noemi pelo seu verdadeiro nome, ela disse: "Seria mais certo me chamarem de Mara." Em hebraico, Noemi significa Felicidade, e Mara, Tristeza. Era época de colheita, e Rute, com a permissão da sogra, saiu para respigar, para que conseguissem um estoque de grãos para se alimentar. Aconteceu que ela foi parar no campo de Boaz. Algum tempo depois Boaz chegou ali e, ao ver a jovem, perguntou ao servo encarregado dos ceifeiros quem ela era. Pouco antes esse servo havia se informado de toda a situação dela e contou tudo ao patrão. Boaz a recebeu com bondade, tanto pelo afeto que ela tinha pela sogra quanto pela memória daquele filho dela com quem Rute fora casada, e desejou que ela alcançasse prosperidade. Então pediu que ela não respigasse, mas ceifasse o quanto pudesse, e a autorizou a levar para casa o que colhesse. Também ordenou ao servo encarregado dos ceifeiros que não a impedisse de levar o grão e mandou que lhe desse a refeição e bebida quando fizesse o mesmo com os ceifeiros. Rute guardou para a sogra o grão que recebeu dele, voltou para ela à noite e lhe trouxe as espigas. Noemi havia separado para ela parte da comida que as vizinhas lhe tinham dado em abundância. Rute também contou à sogra o que Boaz lhe dissera. E quando Noemi a informou de que ele era parente próximo deles e talvez fosse homem tão piedoso a ponto de prover para elas, Rute saiu de novo nos dias seguintes para recolher as sobras junto com as servas de Boaz.
Poucos dias depois, Boaz, terminada a debulha da cevada, dormiu na sua eira. Quando Noemi soube disso, arranjou as coisas de modo que Rute se deitasse ao lado dele, pois achou que poderia ser vantajoso para elas que ele conversasse com a jovem. Por isso mandou a moça dormir aos pés dele, e ela foi como a sogra ordenou, pois não achava certo contrariar nenhuma ordem da sogra. No início ela ficou escondida de Boaz, que estava em sono profundo. Mas, quando ele acordou por volta da meia-noite e percebeu uma mulher deitada ao seu lado, perguntou quem era. Depois que ela disse o nome e pediu que ele, a quem reconhecia como seu senhor, a desculpasse, ele não disse mais nada. De manhã, antes de os servos começarem o trabalho, ele a acordou, mandou que pegasse o máximo de cevada que pudesse carregar e fosse até a sogra antes que alguém ali a visse deitada ao lado dele, pois era prudente evitar qualquer reprovação que pudesse surgir por causa disso, ainda mais que nada de errado havia acontecido. Quanto ao ponto principal que ela buscava, o assunto ficaria assim: "Aquele que é parente mais próximo do que eu será consultado, para saber se quer tomar você por esposa. Se ele disser que sim, você o seguirá. Mas se ele recusar, eu me casarei com você, conforme a lei."
Quando Rute contou isso à sogra, ambas ficaram muito contentes, pela esperança de que Boaz proveria para elas. Por volta do meio-dia, Boaz desceu à cidade e reuniu o conselho de anciãos. Depois de mandar chamar Rute, chamou também o parente dela. Quando o homem chegou, Boaz disse: "Você não detém a herança de Elimeleque e dos filhos dele?" Ele admitiu que sim, e que agia conforme as leis lhe permitiam, por ser o parente mais próximo deles. Então Boaz disse: "Você não pode lembrar as leis pela metade, mas deve cumprir tudo de acordo com elas. Pois a esposa de Malom veio para cá, e você precisa se casar com ela, conforme as leis, caso queira ficar com os campos deles." Então o homem cedeu a Boaz tanto o campo quanto a mulher, alegando que tinha esposa e filhos, sendo que o próprio Boaz era parente dos que haviam morrido. Boaz então chamou o conselho de anciãos como testemunha e mandou que a mulher soltasse a sandália dele e cuspisse no seu rosto, conforme a lei. Feito isso, Boaz se casou com Rute, e em um ano eles tiveram um filho. A própria Noemi foi ama desse menino e, por conselho das mulheres, deu-lhe o nome de Obede, pois ele seria criado para servi-la na velhice. Em hebraico, Obede significa servo. O filho de Obede foi Jessé, e o filho deste foi Davi, que se tornou rei e deixou o reino aos descendentes por vinte e uma gerações. Eu me senti obrigado a relatar esta história de Rute porque quis demonstrar o poder de Deus, que sem dificuldade pode elevar à dignidade e ao esplendor os de origem comum, como elevou Davi, embora tenha nascido de pais tão humildes.