Antiguidades Judaicas - Livro V 11
Livro V: Josué, os Juízes, Rute e Eli
Aqui se relata o que aconteceu com os filhos de Eli, com a arca e com o povo, e como o próprio Eli morreu miseravelmente.
Por essa época, os filisteus declararam guerra aos israelitas e montaram acampamento junto à cidade de Afeque. Os israelitas esperaram um pouco e, logo no dia seguinte, travaram a batalha. Os filisteus venceram, mataram mais de quatro mil hebreus e perseguiram o restante da multidão até o acampamento deles.
Temendo o pior, os hebreus enviaram mensageiros ao conselho de anciãos e ao sumo sacerdote, pedindo que trouxessem a arca de Deus. A ideia era que, ao se posicionarem em formação de batalha com a arca presente, conseguiriam superar os inimigos. Eles não percebiam que aquele que os condenara a sofrer essas calamidades era maior do que a arca, e que era por causa dele que a arca recebia honra. A arca chegou, e com ela vieram os filhos do sumo sacerdote, que tinham recebido uma ordem do pai: se pretendessem sobreviver à captura da arca, jamais voltassem à sua presença. Pois Fineias já exercia o cargo de sumo sacerdote, já que o pai lhe transferira a função por causa da idade avançada. Os hebreus então se encheram de coragem, supondo que, com a vinda da arca, superariam os inimigos. Os inimigos, por sua vez, ficaram muito preocupados e temerosos com a chegada da arca aos israelitas. O desfecho, no entanto, não correspondeu à expectativa de nenhum dos dois lados. Quando a batalha começou, a vitória que os hebreus esperavam coube aos filisteus, e a derrota que os filisteus temiam recaiu sobre os israelitas. Assim eles descobriram que tinham confiado na arca em vão. Foram derrotados rapidamente, assim que entraram em combate direto com os inimigos, e perderam cerca de trinta mil homens, entre os quais os filhos do sumo sacerdote. E a arca foi levada pelos inimigos.
Quando a notícia dessa derrota chegou a Siló, junto com a do cativeiro da arca, pois um jovem benjamita que estivera na ação chegou ali como mensageiro, a cidade inteira se encheu de lamentos. E Eli, o sumo sacerdote, que estava sentado num alto trono junto a um dos portões, ouviu os gritos de luto e supôs que algo estranho tinha acontecido com sua família. Mandou então chamar o jovem. Quando soube o que ocorrera na batalha, não ficou muito perturbado quanto aos filhos nem quanto ao que lhe foi dito sobre o exército, pois já sabia de antemão, por revelação divina, que essas coisas aconteceriam, e ele próprio já as anunciara. As desgraças que chegam de surpresa são as que mais afligem as pessoas. Mas assim que soube que a arca tinha sido levada cativa pelos inimigos, ficou profundamente abalado, porque o resultado foi bem diferente do que esperava. Então caiu do trono e morreu. Viveu ao todo noventa e oito anos, dos quais governou quarenta.
No mesmo dia também morreu a esposa de seu filho Fineias, incapaz de sobreviver à desgraça do marido. Pois contaram a ela a morte do marido enquanto estava em trabalho de parto. Ainda assim, deu à luz um filho aos sete meses, e a criança sobreviveu. Deram-lhe o nome de Icabode, que significa desonra, por causa da desonra que o exército sofreu naquele momento.
Eli foi o primeiro da família de Itamar, o outro filho de Arão, a exercer o governo. Pois no início era a família de Eleazar que oficiava como sumo sacerdote, com o filho recebendo essa honra do pai. Eleazar a legou ao filho Fineias, depois de quem Abiezer, filho deste, assumiu a honra e a transmitiu ao filho chamado Buqui. Deste, o filho Ozi a recebeu, e depois dele Eli, de quem estamos falando, teve o sacerdócio, e assim também sua descendência até o tempo do reinado de Salomão. Mas então a descendência de Eleazar voltou a assumi-lo.