Capítulos
Antiguidades Judaicas - Livro IX
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.
O Livro IX na Obra
O Livro IX acompanha os dois reinos divididos, Judá e Israel, do reinado de Josafá até a queda de Samaria diante da Assíria, por volta de 722 ou 721 a.C. Segue de perto 2 Reis 1 a 18 e os trechos paralelos de 2 Crônicas 19 a 30. Dois fios dominam o livro: o ciclo do profeta Eliseu, sucessor de Elias, e a decadência política do reino do norte, com o golpe de Jeú, a sucessão violenta de seus últimos reis e a deportação das dez tribos. Inclui ainda a história de Jonas e o fim do reino de Israel como entidade independente.
Conteúdo do Livro
- Josafá institui juízes em Judá e, com a ajuda de Deus, derrota a coligação de moabitas, amonitas e árabes (2Cr 19 e 20) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 1)
- Acazias de Israel cai pela grade do palácio e consulta Baal-Zebube, e o fogo do céu sobre os mensageiros antes da morte de Elias (2Rs 1) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 2)
- A campanha de Jorão e Josafá contra os moabitas, os prodígios de Eliseu no deserto e a morte de Josafá (2Rs 3) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 3)
- Jorão sucede a Josafá em Judá, Jorão de Israel guerreia contra os sírios, e os milagres de Eliseu: o azeite da viúva, a sunamita, a cura de Naamã e o cerco de Samaria (2Rs 4 a 8) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 4)
- A impiedade de Jorão de Judá, marido de Atalia, a invasão dos filisteus e dos árabes, a carta atribuída a Elias e a sua morte (2Cr 21) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 5)
- Eliseu manda ungir Jeú, que mata Jorão de Israel e Acazias de Judá, executa Jezabel e extermina a casa de Acabe e os adoradores de Baal (2Rs 9 e 10) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 6)
- Atalia usurpa o trono de Jerusalém, e o sumo sacerdote Joiada a derruba e coroa o jovem Joás, filho de Acazias (2Rs 11, 2Cr 22 e 23) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 7)
- Hazael da Síria ataca Israel e Jerusalém, a morte de Jeú e a sucessão de Jeoacaz, e Joás de Judá, que repara o Templo mas depois manda apedrejar o profeta Zacarias (2Rs 12 e 13, 2Cr 24) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 8)
- Amazias de Judá vence edomitas e amalequitas, mas é derrotado por Joás de Israel e morto numa conspiração, e Uzias o sucede (2Rs 14, 2Cr 25) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 9)
- Jeroboão II de Israel e o profeta Jonas, com a história do grande peixe e da pregação em Nínive, e Uzias de Judá, ferido de lepra ao tentar queimar incenso (2Rs 14, 2Cr 26, Jn 1 a 3) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 10)
- A sucessão conturbada dos reis de Israel, de Zacarias a Peca, as campanhas de Pul e Tiglate-Pileser, o reinado de Jotão em Judá e a profecia de Naum contra os assírios (2Rs 15, Na 1 a 3) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 11)
- Acaz de Judá enfrenta a guerra de Rezim da Síria e de Peca de Israel, e Tiglate-Pileser devasta a Síria e deporta os damascenos para a Média (2Rs 16, 2Cr 28, Is 7) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 12)
- Oseias mata Peca e depois é subjugado por Salmaneser, e Ezequias sobe ao trono de Judá e restaura o culto (2Rs 17 e 18, 2Cr 29 e 30) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 13)
- Salmaneser toma Samaria, deporta as dez tribos para a Média e assenta os cuteus na terra de Israel, povo que daria origem aos samaritanos (2Rs 17) — (Antiguidades Judaicas - Livro IX 14)
Josafá e os últimos prodígios de Elias
O ciclo do profeta Eliseu
O golpe de Jeú e a revolta de Atalia
Joás, Amazias e as guerras entre Judá e Israel
Jeroboão II, Jonas e Uzias
A decadência de Israel e a queda de Samaria
Fontes e Método
Para esta parte Josefo segue principalmente o texto bíblico, parafraseado e reorganizado. Ele harmoniza Reis e Crônicas, racionaliza alguns episódios e acrescenta cor helenística, num procedimento que os estudiosos chamam de "Bíblia reescrita". Onde Reis e Crônicas divergem em números ou na ordem dos fatos, Josefo às vezes escolhe uma das versões e às vezes monta um relato combinado, de modo que seus dados nem sempre coincidem com o Texto Massorético.
No capítulo final, ao narrar a tomada de Samaria, Josefo recorre de novo aos arquivos da cidade de Tiro, transmitidos em grego por Menandro de Éfeso, para confirmar a existência de Salmaneser e datar o cerco de Tiro no mesmo período. Esse uso de uma fonte fenícia externa à Bíblia é parte do projeto apologético da obra, que busca ancorar a história judaica em registros reconhecidos pelo mundo greco-romano.
A História de Jonas
No capítulo 10, Josefo conta a história de Jonas dentro do reinado de Jeroboão II, seguindo o livro bíblico. Relata o navio, a tempestade, o homem lançado ao mar e engolido por um grande peixe. Acrescenta um detalhe que não está na Bíblia: diz que Jonas foi vomitado vivo e ileso na praia do Mar Euxino, isto é, o Mar Negro, depois de três dias. Em seguida registra a pregação em Nínive. Josefo apresenta o episódio como tradição recebida e introduz a narrativa com certa reserva, anotando que a relata como a encontrou nos livros sagrados.
A Origem dos Samaritanos
O Livro IX termina com a deportação das dez tribos do norte e o assentamento dos cuteus, povos trazidos pela Assíria de regiões da Pérsia e da Média, na terra esvaziada de Israel. Josefo identifica esses colonos como a origem dos samaritanos e os chama de cuteus, nome que usa com tom polêmico ao longo da obra. Essa leitura reflete a hostilidade entre judeus e samaritanos no período do Segundo Templo e não deve ser tomada como descrição neutra: a própria tradição samaritana reivindica continuidade com o antigo Israel, e a etnografia do episódio é objeto de debate entre os historiadores.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.
Valor Histórico e Cautelas
Para o período dos reinos divididos, Josefo não é fonte independente da Bíblia: ele a reconta. Seu valor está nas fontes externas que cita, como os anais tírios de Menandro, e no testemunho que dá das tradições judaicas do século I, inclusive o detalhe sobre Jonas e a leitura polêmica da origem samaritana. A leitura exige cautela com o programa apologético do autor e com suas divergências numéricas em relação ao texto bíblico. Ainda assim, Josefo continua sendo a principal ponte entre a narrativa bíblica e o modo como o judaísmo do fim do Segundo Templo lia a própria história.