Capítulos

Metafísica - Livro X
A Obra e o Autor
A Metafísica de Aristóteles (384 a 322 a.C.) é uma coleção de quatorze tratados reunidos por editores posteriores, não uma obra contínua. A tradição atribui a compilação a Andrônico de Rodes, por volta do século I a.C., embora esse ponto seja debatido. O título Metafísicasignifica apenas "depois da Física" (em grego ta meta ta physika) e provavelmente indica a posição dos textos na lista de obras. Cada livro é identificado por uma letra grega; o Livro X é o Iota. A tradução usada aqui segue a versão inglesa de W. D. Ross, de 1908, com a numeração de passagens segundo a paginação de Bekker.
O Livro X na Obra
O Livro X (Iota) é um tratado sobre a unidade, o "um", e sobre os conceitos que dela dependem. No Livro IV Aristóteles já havia afirmado que ser e unidade andam juntos, e que estudar o ser implica estudar o um. Iota desenvolve esse tema. Examina os vários sentidos em que algo se diz "um", sustenta que ser uno é, antes de tudo, ser uma medida, e a partir daí analisa a identidade, a semelhança, a diferença, a contrariedade e a oposição entre o um e o múltiplo. O livro encerra com uma tese sobre o perecível e o imperecível que serve de argumento contra as Formas platônicas.
Conteúdo do Livro
- Os sentidos de "um" e por que ser um é ser uma medida — (Metafísica - Livro X 1)
- O um não é uma substância separada, e sim uma medida que se diz de tudo — (Metafísica - Livro X 2)
- O um e o múltiplo como opostos, e os conceitos ligados: o mesmo, o semelhante, o outro e a diferença — (Metafísica - Livro X 3)
- A contrariedade como a diferença máxima dentro de um mesmo gênero — (Metafísica - Livro X 4)
- O igual pode ser oposto ao grande e ao pequeno ao mesmo tempo? — (Metafísica - Livro X 5)
- Como o um e o múltiplo se opõem: medida e pluralidade, não contradição — (Metafísica - Livro X 6)
- O que fica entre dois contrários (como o cinza entre branco e preto) — (Metafísica - Livro X 7)
- O que é diferir em espécie: ter um contrário dentro do mesmo gênero — (Metafísica - Livro X 8)
- Por que macho e fêmea não diferem em espécie: contrariedade na definição contra contrariedade na matéria — (Metafísica - Livro X 9)
- Por que o perecível e o imperecível diferem em gênero, e por que isso destrói as Formas de Platão — (Metafísica - Livro X 10)
O Um como Medida
A tese central é que ser uno equivale a ser uma medida, isto é, aquilo pelo qual a quantidade ou a multiplicidade é conhecida. Em cada domínio há uma unidade de medida própria: na música a oitava ou o intervalo, na grandeza o comprimento, no peso uma unidade de peso. Por isso o um não é uma substância à parte que exista por si, como alguns pitagóricos e platônicos sustentavam, mas algo que sempre se diz de outra coisa. A partir disso Aristóteles encadeia os conceitos correlatos: o mesmo é unidade de substância, o semelhante é unidade de qualidade, o igual é unidade de quantidade, e a diferença e a contrariedade marcam graus de alteridade.
Contrariedade e a Crítica às Formas
Aristóteles define a contrariedade como a diferença máxima dentro de um mesmo gênero, a maior distância possível entre dois extremos que ainda pertencem a um campo comum, como o branco e o preto na cor. Distingue diferir em espécie de diferir em gênero e discute casos como o de macho e fêmea, que para ele são contrários presentes na matéria do animal, e não na sua definição, de modo que não constituem espécies distintas. O capítulo final argumenta que o perecível e o imperecível diferem em gênero, não apenas em grau, e usa isso contra a teoria das Formas de Platão: se as Formas são imperecíveis e as coisas sensíveis perecíveis, não podem ser da mesma natureza nem partilhar um mesmo nome no mesmo sentido. A crítica às Formas é tema recorrente na obra e é retomada com mais força nos Livros XIII e XIV.
Transmissão e Texto
O texto grego sobreviveu por manuscritos medievais, divididos em duas famílias que divergem em pontos do texto. A obra circulou no mundo árabe medieval, com Avicena e Averróis, e foi traduzida para o latim no século XIII, tornando-se base do ensino universitário. Como nos demais tratados, o texto tem caráter de notas densas e elípticas, o que alimentou uma longa tradição de comentário sobre passagens controversas.
Influência no Pensamento Cristão
O Livro X deu à escolástica uma de suas doutrinas mais características: a dos transcendentais. Aristóteles afirma em Iota que o uno e o ser andam juntos, que tudo o que é, na medida em que é, é também um. A tradição medieval estendeu essa intuição e formulou a tese de que certas propriedades, o ser (ens), o uno (unum), o verdadeiro (verum) e o bom (bonum), são conversíveis entre si: aplicam-se a tudo o que existe e, no fundo, designam a mesma realidade vista por ângulos diferentes. Tomás de Aquino reduziu os transcendentais principais a três, o uno, o verdadeiro e o bom, e os tratou como modos universais do ser. O ponto de partida explícito de Aristóteles era apenas a unidade, porque é o transcendental mais ligado ao ser; verdade e bondade foram desenvolvidas pelos medievais em relação à mente e ao apetite. Da doutrina de que o ser e o bem são conversíveis a teologia cristã extraiu uma consequência forte: tudo o que existe, enquanto existe, é bom, e o mal não é uma coisa, mas privação de um bem devido.
Relevância para o Cristão de Hoje
A doutrina dos transcendentais ainda ecoa quando se diz que Deus é, ao mesmo tempo, o Ser, a Verdade e o Bem, ou quando se sustenta que toda criatura, por existir, é boa em alguma medida. Essa visão dá base filosófica à afirmação bíblica de que Deus viu tudo o que havia feito e era muito bom (Gn 1:31) e ao otimismo cristão sobre a criação. Vale lembrar, com honestidade, que Aristóteles tratou só da unidade e que a tríade do uno, do verdadeiro e do bom como propriedades do ser é, em larga medida, construção dos teólogos medievais sobre uma base aristotélica, não algo que se leia pronto em Iota. O Livro X fornece a pedra fundamental; o edifício dos transcendentais é obra da escolástica cristã.