Metafísica - Livro X 8
Livro X (Iota): a unidade, a identidade, a diferença e os contrários
O que é diferir em espécie: ter um contrário dentro do mesmo gênero
Aquilo que é diferente em espécie é diferente de outra coisa em algum aspecto, e esse aspecto precisa pertencer a ambos. Por exemplo, se duas coisas são animais diferentes em espécie, então as duas são animais. Logo, as coisas que diferem em espécie têm que estar no mesmo gênero.
Por gênero eu entendo aquela única e mesma coisa que se afirma das duas e que as distingue de um modo não acidental, seja tomado o gênero como matéria, seja de outro jeito. Pois não basta que a natureza comum esteja presente nas coisas diferentes (não basta, por exemplo, que ambas sejam animais): essa própria condição de ser animal precisa ser distinta em cada uma. Numa é o ser cavalo, na outra é o ser homem. Por isso essa natureza comum é, em espécie, diferente numa e noutra.
Assim, uma será, por sua própria natureza, um tipo de animal, e a outra será outro tipo: uma um cavalo, a outra um homem. Essa diferença, então, tem que ser uma alteridade do gênero. Pois chamo de diferença no gênero uma alteridade que torna o próprio gênero diferente.
Essa diferença, então, será uma contrariedade (o que também se pode mostrar por indução). Todas as coisas se dividem por opostos, e já ficou provado que os contrários estão no mesmo gênero. Vimos que a contrariedade é diferença completa, e toda diferença em espécie é diferença de alguma coisa em algum aspecto. Esse aspecto é o mesmo para ambas e é o gênero delas.
Por isso, também, todos os contrários que são diferentes em espécie mas não em gênero estão na mesma linha de predicação, e são diferentes um do outro no grau mais alto, porque a diferença é completa, e não podem estar presentes juntos na mesma coisa. A diferença, então, é uma contrariedade.
Isto, então, é o que significa ser diferente em espécie: ter uma contrariedade, estando no mesmo gênero e sendo indivisível. As coisas que são iguais em espécie são as que não têm nenhuma contrariedade entre si, sendo indivisíveis. Digo sendo indivisíveis porque, no processo de divisão, surgem contrariedades nas etapas intermediárias, antes de chegarmos aos indivisíveis.
Fica claro, portanto, que, em relação ao que se chama o gênero, nenhuma das espécies daquele gênero é igual a ele nem diferente dele em espécie. E isso faz sentido, pois a matéria se indica por negação, e o gênero é a matéria daquilo de que se diz gênero (não no sentido em que falamos da estirpe ou família dos Heráclidas, mas no sentido em que o gênero é um elemento na natureza de uma coisa).
Em relação às coisas que não estão no mesmo gênero, a espécie diferirá delas em gênero, e diferirá em espécie das coisas que estão no mesmo gênero. Pois a diferença de uma coisa em relação àquilo de que difere em espécie tem que ser uma contrariedade, e isso só ocorre entre coisas que estão no mesmo gênero.