Metafísica - Livro X 4
Livro X (Iota): a unidade, a identidade, a diferença e os contrários
A contrariedade como a diferença máxima dentro de um mesmo gênero
Já que as coisas que diferem podem diferir entre si em maior ou menor grau, existe também uma diferença máxima, e a esta eu chamo contrariedade. Que a contrariedade é a maior diferença fica claro pela observação de casos. Pois as coisas que diferem no gênero não têm como passar de uma à outra: estão distantes demais e não são comparáveis. Já entre as coisas que diferem na espécie, os extremos a partir dos quais ocorre a geração são os contrários, e a distância entre os extremos, e portanto a distância entre os contrários, é a maior possível.
Mas o que é máximo em cada classe é completo. Pois é máximo aquilo que não pode ser ultrapassado, e é completo aquilo além do qual nada se pode encontrar. A diferença completa marca o fim de uma série (assim como as outras coisas chamadas completas recebem esse nome por terem chegado a um fim), e além do fim não há nada, pois em tudo o fim é o extremo e inclui todo o resto, e por isso nada existe além do fim, e o que é completo não precisa de mais nada. Disso fica claro que a contrariedade é diferença completa. E como dizemos contrários em vários sentidos, os modos de ser completo correspondem aos vários modos de contrariedade que pertencem aos contrários.
Sendo assim, fica claro que uma coisa não pode ter mais de um contrário (pois nada pode ser mais extremo que o extremo, nem pode haver mais de dois extremos para um mesmo intervalo). De modo geral, isso fica claro se a contrariedade é uma diferença, e se a diferença, e portanto também a diferença completa, deve ser entre duas coisas.
As outras definições comuns de contrários também são necessariamente verdadeiras. Pois (1) a diferença completa é a maior diferença: não conseguimos obter diferença além dela entre coisas que diferem no gênero ou na espécie, já que se mostrou que não há diferença entre uma coisa qualquer e as coisas fora do seu gênero, e que, entre as coisas que diferem na espécie, a diferença completa é a maior. Além disso, (2) as coisas que, dentro de um mesmo gênero, diferem ao máximo são contrárias (pois a diferença completa é a maior diferença entre espécies do mesmo gênero). E (3) as coisas que, dentro de uma mesma matéria que as recebe, diferem ao máximo são contrárias (pois a matéria é a mesma para os contrários). E (4) entre as coisas que caem sob uma mesma capacidade de conhecer, as mais diferentes são contrárias (pois uma ciência trata de uma classe de coisas, e nelas a diferença completa é a maior).
A contrariedade primária é a que existe entre ter uma qualidade e estar privado dela. Não toda privação, mas (pois privação tem vários sentidos), mas a privação completa. Os outros contrários recebem esse nome em relação a estes: alguns por possuírem essas qualidades, outros por produzirem-nas ou tenderem a produzi-las, outros por serem aquisições ou perdas dessas qualidades ou de outros contrários.
Ora, os tipos de oposição são a contradição, a privação, a contrariedade e a relação. Destes, o primeiro é a contradição, e a contradição não admite nenhum termo intermediário, enquanto os contrários admitem um. Fica claro, então, que contradição e contrariedade não são a mesma coisa. Mas a privação é um tipo de contradição. Pois aquilo que sofre privação, de modo geral ou de algum modo determinado, é ou o que é totalmente incapaz de ter certo atributo, ou o que, sendo de natureza apta a tê-lo, não o tem. Aqui já encontramos vários sentidos, que foram distinguidos em outro lugar.
A privação, portanto, é uma contradição ou incapacidade que é determinada, ou que é tomada junto com a matéria que a recebe. Por isso a contradição não admite intermediário, mas a privação às vezes admite. Pois tudo é igual ou não igual, mas nem tudo é igual ou desigual: só o é dentro da esfera daquilo que é capaz de receber a igualdade.
Se, então, as gerações que acontecem na matéria partem dos contrários, e procedem ou da forma e da posse da forma, ou de uma privação da forma ou do feitio, fica claro que toda contrariedade é uma privação, mas provavelmente nem toda privação é contrariedade (a razão é que aquilo que sofreu privação pode tê-la sofrido de vários modos). Pois só são contrários os extremos a partir dos quais as mudanças partem.
E isso também fica óbvio pela observação de casos. Toda contrariedade envolve, como um de seus termos, uma privação, mas nem todos os casos são iguais: a desigualdade é a privação da igualdade, e a dessemelhança é a privação da semelhança, e, por outro lado, o vício é a privação da virtude. Mas os casos diferem de um modo já descrito: num caso queremos dizer simplesmente que a coisa sofreu privação, noutro que a sofreu num certo momento ou numa certa parte (por exemplo, numa certa idade ou na parte dominante), ou por inteiro.
Por isso, em alguns casos há um meio-termo (há homens que não são nem bons nem maus), e em outros não (um número tem de ser par ou ímpar). Além disso, alguns contrários têm seu sujeito determinado, outros não. Fica evidente, portanto, que um dos contrários é sempre privativo. Mas basta que isso seja verdade dos primeiros contrários, isto é, os do gênero, como o um e o múltiplo, pois os demais podem ser reduzidos a estes.