Metafísica - Livro X 9
Livro X (Iota): a unidade, a identidade, a diferença e os contrários
Por que macho e fêmea não diferem em espécie: contrariedade na definição x contrariedade na matéria
Pode-se levantar a pergunta: por que a mulher não difere do homem em espécie, sendo que fêmea e macho são contrários e a diferença entre eles é uma contrariedade? E por que um animal fêmea e um animal macho não são de espécies diferentes, embora essa diferença pertença ao animal por sua própria natureza, e não do modo como pertencem a brancura ou a escuridão? Tanto ser fêmea quanto ser macho pertencem ao animal enquanto animal.
Essa pergunta é quase a mesma que esta outra: por que uma contrariedade faz as coisas diferirem em espécie e outra não? Por exemplo, ter pés e ter asas fazem diferir, mas ser branco e ser escuro não fazem.
Talvez seja porque as primeiras são afecções próprias do gênero, e as segundas são menos próprias dele. E como um dos lados é a definição e o outro é a matéria, as contrariedades que estão na definição produzem uma diferença de espécie, mas as que estão na coisa tomada junto com sua matéria não produzem.
Por isso a brancura num homem, ou a escuridão, não cria uma diferença de espécie, nem há diferença de espécie entre o homem branco e o homem escuro, mesmo que cada um deles fosse designado por uma única palavra. Pois aqui o homem está sendo considerado pelo seu lado material, e a matéria não cria diferença: ela não faz dos homens individuais espécies distintas de homem, embora a carne e os ossos de que este homem e aquele homem se compõem sejam outros.
A coisa concreta é outra, mas não outra em espécie, porque na definição não há contrariedade. Este é o tipo último e indivisível. Cálias é definição mais matéria; o homem branco, então, também é, porque é o indivíduo Cálias que é branco. O homem, portanto, é branco apenas por acidente.
Assim, um círculo de bronze e um círculo de madeira também não diferem em espécie. E se um triângulo de bronze e um círculo de madeira diferem em espécie, não é por causa da matéria, mas porque há uma contrariedade na definição.
Mas será que a matéria não torna as coisas diferentes em espécie quando ela própria é diferente de certo modo? Ou haverá um sentido em que torna? Pois por que este cavalo é de espécie diferente deste homem, ainda que a matéria deles esteja incluída em suas definições?
Sem dúvida porque há uma contrariedade na definição. Pois embora haja também uma contrariedade entre o homem branco e o cavalo escuro, e seja uma contrariedade de espécie, ela não depende da brancura de um e da escuridão do outro, já que, mesmo se ambos fossem brancos, ainda assim seriam de espécies diferentes.
Já macho e fêmea, embora sejam afecções próprias do animal, não o são em virtude da essência dele, mas estão na matéria, ou seja, no corpo. É por isso que a mesma semente se torna fêmea ou macho conforme é afetada de certa maneira.
Dissemos, então, o que é ser de espécie diferente, e por que algumas coisas diferem em espécie e outras não.