Metafísica - Livro X 2

Livro X (Iota): a unidade, a identidade, a diferença e os contrários

O um não é uma substância separada, e sim uma medida que se diz de tudo

Quanto à substância e à natureza do um, precisamos perguntar de qual de dois modos ele existe. Essa é exatamente a questão que examinamos quando discutimos os problemas: o que é o um e como devemos concebê-lo. Devemos tomar o um em si mesmo como sendo uma substância (como diziam os pitagóricos, mais cedo, e Platão, mais tarde), ou existe, na verdade, uma natureza por baixo dele, de modo que o um deva ser descrito de maneira mais clara e mais ao gosto dos filósofos da natureza, dos quais um diz que o um é o amor, outro que é o ar, e outro que é o indefinido?
Ora, nenhuma coisa universal pode ser uma substância, como foi dito na nossa discussão sobre a substância e o ser. E o próprio ser não pode ser uma substância no sentido de um algo único separado dos muitos, pois ele é comum a esses muitos: o ser é apenas um predicado, algo que se afirma das coisas. Fica claro, então, que a unidade também não pode ser uma substância, pois o ser e a unidade são os mais universais de todos os predicados.
Disso decorre que, de um lado, os gêneros não são certas entidades ou substâncias que existam separadas das outras coisas. E, de outro lado, o um não pode ser um gênero, pelas mesmas razões pelas quais o ser e a substância não podem ser gêneros.
Além disso, a situação deve ser a mesma em todos os tipos de unidade. A palavra unidade tem tantos sentidos quanto a palavra ser. Assim, que no campo das qualidades o um é algo definido, um tipo específico de coisa, e o mesmo vale no campo das quantidades, fica claro que, em toda categoria, precisamos perguntar o que é o um, assim como perguntamos o que é o que existe. Não basta dizer que a natureza do um consiste simplesmente em ser um, ou que a natureza do que existe consiste simplesmente em existir.
Pense nas cores: ali o um é uma cor, por exemplo o branco, e então as outras cores aparecem como produzidas a partir desse branco e do preto, sendo o preto a privação do branco, assim como a escuridão é a privação da luz. Portanto, se todas as coisas que existem fossem cores, as coisas que existem seriam de fato um número, mas um número de quê? Claramente, de cores. E o um seria um um específico, isto é, o branco.
Do mesmo modo, se todas as coisas que existem fossem notas musicais, elas seriam um número, mas um número de quartos de tom, e a essência delas não seria o número. E o um seria algo cuja substância não consiste em ser um, mas em ser o quarto de tom. Igualmente, se todas as coisas que existem fossem sons articulados, elas seriam um número de letras, e o um seria uma vogal. E se todas as coisas que existem fossem figuras de lados retos, elas seriam um número de figuras, e o um seria o triângulo. O mesmo raciocínio se aplica a todas as outras classes de coisas.
Portanto, embora haja números e um um nas afecções, nas qualidades, nas quantidades e no movimento, em todos esses casos o número é sempre um número de coisas específicas, e o um é sempre um certo algo, e sua substância não consiste simplesmente em ser um. O mesmo deve valer também para as substâncias, pois é assim em todos os casos por igual.
Fica evidente, então, que o um, em toda classe de coisas, é um algo definido, e em nenhum caso sua natureza é simplesmente isto, a unidade. Mas, assim como nas cores o um em si que buscamos é uma cor, também na substância o um em si é uma substância.
Que, em certo sentido, unidade significa o mesmo que ser fica claro a partir destes fatos: seus sentidos correspondem um a um às categorias, e a unidade não está contida dentro de nenhuma categoria (por exemplo, não está contida nem no que uma coisa é nem na qualidade, mas se relaciona com elas do mesmo modo que o ser); em dizer um homem nada mais se afirma do que em dizer homem (assim como o ser não é nada à parte da substância, da qualidade ou da quantidade); e ser um é simplesmente ser um certo algo.